PREVISÕES PARA 2016 – Parte 4

A PERIFERIA DA RÚSSIA

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Um dos principais objetivos da Rússia no Oriente Médio para 2016 será forçar uma saída negociada que possibilite um acordo com o imperialismo que possibilite a redução da agressividade sobre a periferia. Os Estados Unidos deverão continuar as negociações sobre questões táticas com os russos, mas evitarão acordos sobre questões estratégicas. A Rússia possui contradições importantes com o imperialismo em relação à disputa das regiões da antiga União Soviética. A política norte-americana, aplicada por meio da OTAN, buscará conter a Rússia com o objetivo de conte-la e, ao mesmo tempo que buscará, como objetivo de longo prazo, impor um governo controlado pelo imperialismo. Em cima desse aperto, a Rússia continuará desenvolvendo a aliança com a China, em primeiro lugar, e outras potências regionais como a Índia.

O governo Putin começará a enfrentar problemas nas províncias devido à contração do orçamento público provocado pela queda da renda petrolífera. Isso já tinha acontecido em 2010. Agora a Federação Russa, em grande medida, se encontra unida em cima da defesa da nação perante o aumento da agressividade do imperialismo na Ucrânia e na região dos Bálticos. Mas o estômago deverá falar mais alto.

As contradições entre o imperialismo e a Rússia continuarão relativamente desescaladas na periferia da Rússia devido aos acordos impulsionados pela Administração Obama com o objetivo de focar a estabilização da Síria.

A guerra civil na Ucrânia continuará congelada, com alguns conflitos menores que fazem parte do jogo para manter o fluxo dos recursos e das ajudas. A crise capitalista na Ucrânia continuará controlada, mas em estágio crítico. A política russa, impulsionada pelo Tratado de Minsk II, não será aplicada. O governo ucraniano de Pieter Poroshenko continuará sem condições de aceitar o status de autonomia e o direito ao veto para as repúblicas de Lugansk e Donetsk por causa das pressões da extrema direita. A Rússia manterá o apoio ao enclave no Donbass com o objetivo de evitar o ingresso da Ucrânia na União Europeia e na OTAN.

A contração da economia da Ucrânia, em 2015, levará à queda do primeiro ministro Arseniy Yatsenyuk. A inflação e o desemprego alto continuará na base dos protestos sociais. O distanciamento da Rússia aumentará ainda mais com o não pagamento da dívida de US$ 3 bilhões e o acordo de comercio com a União Europeia de janeiro de 2016.

As sanções contra a Rússia, e as contra sanções, continuarão durante todo o ano de 2016. Os exercícios militares da OTAN e da Rússia aumentarão em escala, tanto no número das tropas envolvidas quanto na duração e armamento. A Rússia continuará a envolver nas manobras no Mar Mediterrâneo, no Mar Negro e no Mar Ártico, a China.

A OTAN, se bem não alocará tropas de maneira permanente na Europa Central, aumentará as tropas em rotação.

As relações com a Turquia continuarão baixas por causa da atuação da Rússia na guerra civil síria. Os projetos mais importantes no setor de energia, como o gasoduto South Stream e a construção de uma central nuclear serão adiados.

O enclave de Nagorno-Karabakh continuará avançando na direção de um acordo, entre a Armênia e o Azerbaijão, patrocinado pela Federação Russa, mas enfrentamentos militares ainda acontecerão ao longo do ano. A Rússia manterá os acordos estratégicos com a Armênia, inclusive as tropas estacionadas e os mísseis defensivos, mas continuará se aproximando com o Azerbaijão. Neste último caso, a Turquia tentará fortalecer os vínculos para aumentar o fluxo de petróleo e gás à Europa através do próprio território.

A Bielorrússia continuará aumentando os acordos com a União Europeia, mas manterá os acordos estratégicos, inclusive militares, com a Federação Russa. A Bielorrússia continuará na linha de frente da aproximação da União Euroasiática com a União Europeia com o objetivo de facilitar a aproximação ao Novo Caminho da Seda chinês, passando por cima das sanções contra a Rússia.

Os Países Bálticos continuarão procurando se distanciar da Rússia e se aproximando da Europa, principalmente em relação à política energética e militar.

Geórgia, o inimigo da Rússia de longa data, manterá os laços com o imperialismo, mas não será admitida na OTAN nem na União Europeia por causa dos enclaves russos da Abkhazia e da Ossétia do Sul. Os laços comerciais com a Rússia aumentarão, principalmente no setor de energia e, eventualmente, substituindo parte das exportações agrícolas turcas.

As repúblicas da Ásia Central tendem a converter-se num dos pontos de concentração de uma nova ascensão das guerrilhas islâmicas conforme militantes retornarão a partir do Oriente Médio e trabalhadores imigrantes retornarão da Rússia por causa da crise econômica. O Cazaquistão e o Uzbequistão tentarão privatizar empresas públicas do setor de energia, que foram atingidas em cheio pela queda dos preços do petróleo e do gás. O gigantes russos do setor ficarão com parte dessas empresas, mas de maneira minoritária por causa dos endêmicos problemas de caixa. Os chineses continuarão aumentando a penetração na região. O mesmo farão os monopólios ocidentais.

Além do Oriente Médio, as repúblicas da Ásia Central são muito influenciados pela crise política do Afeganistão, fundamentalmente com a recente escalada do Talibã no norte do Afeganistão, perto das fronteiras com o Uzbequistão, o Turcomenistão e o Tajiquistão. A Rússia é a potência regional que detém a maior influência na região, apesar das recentes investidas dos chineses, em grande medida com a complacência dos russos. Os Estados Unidos poderão tentar a retomada das posições, a partir da retomada do projeto do gasoduto Trans Cáspio e a abertura de bases militares. O panorama deverá ficar mais claro a partir do mês de agosto de 2016, quando acontecerá a reunião cume do Mar Cáspio, em Astana, a capital do Cazaquistão.

VEJA TAMBÉM:

PARTE 1 – 2015: O ANO DA ACELERAÇÃO DA CRISE CAPITALISTA MUNDIAL

http://alejandroacosta.net/2015/12/31/previsoes-para-2016-parte-1/

PARTE 2 – O ORIENTE MÉDIO

http://alejandroacosta.net/2015/12/31/previsoes-para-2016-parte-2/

PARTE 3 – A EUROPA

http://alejandroacosta.net/2016/01/01/previsoes-para-2016-parte-3/

PARA ONDE VAI A GUERRA CIVIL NA UCRÂNIA?

Continuam as movimentações na tentativa de conter a escalada da guerra civil no leste da Ucrânia. Desde a visita do chefe do Departamento de Estado norte-americano a Sochi, no sul da Rússia, os governos da Franca, da Alemanha, da Rússia e da Ucrânia têm aumentado as movimentações na tentativa de conter a escalada do conflito. No dia 12 de setembro, os ministros das Relações Exteriores se reuniram em Normandia (França). Para o dia 2 de outubro, está agendada uma reunião presidencial em Paris.

Um novo cessar fogo foi implementado no dia 1 de setembro. Os conflitos, que tinham se tornado cada vez mais frequentes, agora, se tornaram cada vez mais raros.

Essa nova política foi impulsionada pela Administração Obama, com o apoio das principais potências europeias. A Ucrânia representa um dos três principais pontos de confrontos militares no mundo com o potencial de escalar para conflitos em larga escala, junto com o Oriente Médio e o Mar da China.

A perda de controle em vários países do Oriente Médio, principalmente na Síria, junto com as eleições presidenciais que acontecerão nos Estados Unidos no próximo ano, levou a “ala centrista” do imperialismo norte-americano, encabeçada pela Administração Obama, a buscar “triunfos” que consigam mantê-la como uma alternativa no cenário político.

DOS ACORDOS DE MINSK À NOVA TRÉGUA

O primeiro Acordo de Minsk, implementado no mês de setembro de 2014, não se manteve em pé nem um mês. Em janeiro e fevereiro deste ano, as forças das repúblicas separatistas de Donetsk e do Donbass acabaram recuperando a região de Debaltsevo, o que lhes permitiu conectar fisicamente as duas repúblicas. Quase cem tanques ucranianos foram capturados trás cruentos combates.

O segundo Acordo de Minsk, de fevereiro deste ano, conseguiu desescalar, em termos relativos os combates, principalmente por causa da retirada da artilharia pesada da linha de frente da guerra. Mas os enfrentamentos, mesmo esporádicos, continuaram no Aeroporto de Donetsk e na região costeira de Mariupol, localizada ao sul do país.

O acordo do dia 1 de setembro deveria ter sido apenas um mecanismo para facilitar o retorno dos estudantes às aulas já que o mês de agosto foi um nos quais os conflitos militares escalaram. Essa trégua acabou se transformando num dos períodos onde a calma relativa mais predominou desde o início dos confrontos.

O governo golpista de Kiev se encontra sobre pressão da extrema direita, mas, ao mesmo tempo, a desestabilização vem, em primeiro lugar, do aprofundamento da crise capitalista no país. O governo Poroshensko enfrenta as tentativas golpistas dos setores da extrema direita, de grupos paramilitares e de partidos que têm força no parlamento como o Svoboda (Liberdade).

A extrema direita tem promovido manifestações nas ruas contra a “ação fraca” do governo contra os separatistas do leste. Recentemente, vários manifestantes morreram nos choques com a polícia. Por esse motivo, as movimentações no sentido do acordo tem sido utilizadas pela extrema direita como concessões a Rússia e aos separatistas.

Alguns grupos, dos mais “cachorro loucos”, foram cooptados no Exército, como o Batalhão Azov. Outros, como e o Pravy Sektor (Setor de Direita), têm entrado em confrontos armados com o Exército. Mas o ponto central relacionado com a extrema direita ucraniana é que existem inúmeros grupos de extrema direita, os mesmos que estiveram na linha de frente do golpe contra o governo do presidente Ianukovich e outros que surgiram posteriormente. Esses grupos são impulsionados por setores dos chamados oligarcas com o objetivo de manter interesses locais, como aconteceu recentemente com a disputa pelo controle da venda ilegal de cigarros com o Pravy Sektor. A extrema direita europeia e a direita que governa a Polônia e a Lituânia também tentam ganhar influência no país.

ELEIÇÕES E DESESCALAÇÃO DO CONFLITO

No dia 25 de outubro, acontecerão eleições nacionais em Ucrânia. Mas as repúblicas de Donetsk e Lugansk também agendaram eleições, para os dias 18 de outubro e 1 de novembro. Este fato desestabiliza o regime golpista de Kiev que tenta se legitimar e perpetuar. O governo Putin busca que sejam convocadas eleições gerais envolvendo as repúblicas separatistas e que as próximas eleições sejam reconhecidas por Kiev. O objetivo é que Donetsk e Lugansk tenham um status parecido com o que anteriormente tinha a República Autônoma da Crimeia, inclusive com o direito ao veto do ingresso na União Europeia e principalmente do direito ao veto do ingresso na OTAN (Organização do Atlântico Norte).

O governo russo tem aumentado a pressão para desescalar o conflito. Um dos fatos que o demostra claramente é a demissão de Andrei Purgin como porta-voz dos deputados da República Popular de Donetsk. Purgin tem sido um dos principais representantes da política da anexação de Donestk à Federação Russa. Anteriormente, os líderes da ala dos milicianos que não queriam se enquadrar no novo exército popular, no fundamental controlado pelos russos, foram isolados ou assassinados, como foi o caso do conhecido comandante Mozgoboy.

O aumento das sanções imperialistas contra a Rússia aconteceu em agosto, antes do novo acordo. O levantamento das sanções daria um importante fôlego à economia russa. Mas há linhas vermelhas que o governo Putin não pode permitir que sejam ultrapassadas. A principal delas é o aperto do cerco do imperialismo contra o país. Principalmente, a presença de tropas permanentes ou mísseis da OTAN nos países fronteiriços.

Perante o aprofundamento da crise capitalista na Rússia, o governo Putin busca desesperadamente o acesso aos mercados creditícios. A aliança com a China tem fechado uma série de acordos. Mas se tratam de acordos a largo prazo, muito dos quais não têm saído ainda do papel ou que têm acontecido em ritmo mais lento que as previsões da Rússia.

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Supporters of the Ukrainian nationalist movement rally in downtown Lviv on April 28, 2012 to mark the 68th anniversary of the formation of the Ukrainian Galacian Division of the Waffen SS. AFP PHOTO / YURIY DYACHYSHYN

Supporters of the Ukrainian nationalist movement rally in downtown Lviv on April 28, 2012 to mark the 68th anniversary of the formation of the Ukrainian Galacian Division of the Waffen SS. AFP PHOTO / YURIY DYACHYSHYN

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Entrevista com o voluntário brasileiro em NovoRússia, Rodolfo, na cidade de Donetsk

https://www.youtube.com/watch?v=VA_ZIpAgt0Q

Entrevista com o voluntário brasileiro em NovoRússia, Rafael Santos, na cidade de Donetsk

Pervomaysk: uma cidade destruída pelos golpistas de Kiev – PARTE 3

Pervomaysk: uma cidade destruída pelos golpistas de Kiev – PARTE 2