PREVISÕES PARA 2016 – Parte 5

A RÚSSIA

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O aprofundamento da crise econômica na Rússia continuará avançando em 2016, o que obrigará o governo central a diminuir os repasses para as províncias. Os maiores projetos serão adiados. O orçamento para 2016 sofreu cortes de 10%, com excessão dos gastos militares, que estão no eixo da política do governo Putin, e das aposentadorias, com o objetivo de evitar protestos.

Novos protestos, no sentido dos protestos de 2010, voltarão a acontecer. A intensidade dos protestos será menor devido à maior unidade nacional, existente no momento em torno ao governo liderado por Vladimir Putin, contra o perigo das agressões externas e do terrorismo.

Em 2016, a economia ainda continuará em recessão, mas, no fundamental, a situação será mantida sobre controle. As sanções, impostas pelo imperialismo por causa da crise da Ucrânia e da anexação da Crimeia, serão mantidas. A Alemanha liderará a aplicação das sanções, apesar das pressões dos industriais alemães, com o objetivo de manter controlada a direita que governa os países da Europa Oriental. Mas o governo alemão manterá os objetivos estratégicos da relação com a Rússia, o fornecimento de energia, com a construção do novo gasoduto Nord Stream 2, e o avanço em relação ao Novo Caminho da Seda Chinês, do qual a Rússia é o pivô para incluir a Europa. A União Euroasiática continuará sendo fortalecida para facilitar o comercio com a Rússia e a China de maneira indireta, ultrapassando as sanções. O papel de pivô entre a Rússia e a Europa, que anteriormente era cumprido pela Ucrânia, agora terá na linha de frente a Bielorrússia.

A Rússia continuará a ser impactada em cheio pelo aprofundamento da crise capitalista, as dificuldades para aceder ao crédito no mercado mundial, os baixos preços do petróleo e a crise econômica. Embora, em linha gerais o governo da Federação conseguirá controlar o colapso econômico, inevitavelmente, este virá em 2017.

As grandes empresas terão vencimentos das dívidas externas muitos menores que em 2015, mas serão afetadas pela recessão regional e mundial. O rublo, que perdeu a metade do valor em 2015, continuará se desvalorizando, acelerando a inflação por causa do aumento dos custos dos produtos importados.

Os protestos sociais serão menores que os de 2010. O controle do aparato de segurança será mantido muito ativo sobre a política da luta contra o terrorismo.

Além do gasoduto Nord Stream 2, os maiores investimentos serão direcionados no sentido do fornecimento de energia para a Índia e a China. A tentativa do governo russo de receber pagamentos por adiantado, como contrapartida pelo fornecimento de energia e condições de investimento favoráveis, não virá nos prazos e na velocidade desejada por causa do aprofundamento da crise capitalista, particularmente na China.

As exportações de armas, que, em 2015, somaram US$ 40 bilhões, continuarão avançando como um dos carro-chefes da economia russa. A atuação militar na Síria poderá ser ampliada ao Iraque e à Líbia. A Federação Russa usará os campos de batalha como “show-rooms” para alavancar as vendas de armas. Acordos pragmáticos serão ampliados com a Arábia Saudita, o Egito, Israel e outros regimes reacionários. Mas a aliança com o Irã continuará sendo um ponto estratégico no Oriente Médio.

Na eleições legislativas de 2016, o Partido Rússia Unida continuará sendo o grande vencedor. A direita pró-imperialista não conseguirá levantar cabeça por causa das medidas já adotadas pelo governo Putin, além de outras que possam vir a ser adotadas.

As contradições entre as várias facções do governo Putin continuarão aumentando conforme a crise continuar se desenvolvendo. Na área econômica, aparecerá, em primeiro lugar, a disputa entre as grandes empresas de energia e militares. Uma saída provável para a crise desse setor será a privatização parcial das empresas de energia, o que já vem sendo avaliado em relação à Rosneft e à Gazprom, entre outras.

A influência do presidente Vladimir Putin continuará alta, mas em declínio.

VEJA TAMBÉM:

PARTE 1 – 2015: O ANO DA ACELERAÇÃO DA CRISE CAPITALISTA MUNDIAL

http://alejandroacosta.net/2015/12/31/previsoes-para-2016-parte-1/

PARTE 2 – O ORIENTE MÉDIO

http://alejandroacosta.net/2015/12/31/previsoes-para-2016-parte-2/

PARTE 3 – A EUROPA

http://alejandroacosta.net/2016/01/01/previsoes-para-2016-parte-3/

PARTE 4 – A PERIFERIA DA RÚSSIA

http://alejandroacosta.net/2016/01/01/previsoes-para-2016-parte-4/

PREVISÕES PARA 2016 – Parte 4

A PERIFERIA DA RÚSSIA

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Um dos principais objetivos da Rússia no Oriente Médio para 2016 será forçar uma saída negociada que possibilite um acordo com o imperialismo que possibilite a redução da agressividade sobre a periferia. Os Estados Unidos deverão continuar as negociações sobre questões táticas com os russos, mas evitarão acordos sobre questões estratégicas. A Rússia possui contradições importantes com o imperialismo em relação à disputa das regiões da antiga União Soviética. A política norte-americana, aplicada por meio da OTAN, buscará conter a Rússia com o objetivo de conte-la e, ao mesmo tempo que buscará, como objetivo de longo prazo, impor um governo controlado pelo imperialismo. Em cima desse aperto, a Rússia continuará desenvolvendo a aliança com a China, em primeiro lugar, e outras potências regionais como a Índia.

O governo Putin começará a enfrentar problemas nas províncias devido à contração do orçamento público provocado pela queda da renda petrolífera. Isso já tinha acontecido em 2010. Agora a Federação Russa, em grande medida, se encontra unida em cima da defesa da nação perante o aumento da agressividade do imperialismo na Ucrânia e na região dos Bálticos. Mas o estômago deverá falar mais alto.

As contradições entre o imperialismo e a Rússia continuarão relativamente desescaladas na periferia da Rússia devido aos acordos impulsionados pela Administração Obama com o objetivo de focar a estabilização da Síria.

A guerra civil na Ucrânia continuará congelada, com alguns conflitos menores que fazem parte do jogo para manter o fluxo dos recursos e das ajudas. A crise capitalista na Ucrânia continuará controlada, mas em estágio crítico. A política russa, impulsionada pelo Tratado de Minsk II, não será aplicada. O governo ucraniano de Pieter Poroshenko continuará sem condições de aceitar o status de autonomia e o direito ao veto para as repúblicas de Lugansk e Donetsk por causa das pressões da extrema direita. A Rússia manterá o apoio ao enclave no Donbass com o objetivo de evitar o ingresso da Ucrânia na União Europeia e na OTAN.

A contração da economia da Ucrânia, em 2015, levará à queda do primeiro ministro Arseniy Yatsenyuk. A inflação e o desemprego alto continuará na base dos protestos sociais. O distanciamento da Rússia aumentará ainda mais com o não pagamento da dívida de US$ 3 bilhões e o acordo de comercio com a União Europeia de janeiro de 2016.

As sanções contra a Rússia, e as contra sanções, continuarão durante todo o ano de 2016. Os exercícios militares da OTAN e da Rússia aumentarão em escala, tanto no número das tropas envolvidas quanto na duração e armamento. A Rússia continuará a envolver nas manobras no Mar Mediterrâneo, no Mar Negro e no Mar Ártico, a China.

A OTAN, se bem não alocará tropas de maneira permanente na Europa Central, aumentará as tropas em rotação.

As relações com a Turquia continuarão baixas por causa da atuação da Rússia na guerra civil síria. Os projetos mais importantes no setor de energia, como o gasoduto South Stream e a construção de uma central nuclear serão adiados.

O enclave de Nagorno-Karabakh continuará avançando na direção de um acordo, entre a Armênia e o Azerbaijão, patrocinado pela Federação Russa, mas enfrentamentos militares ainda acontecerão ao longo do ano. A Rússia manterá os acordos estratégicos com a Armênia, inclusive as tropas estacionadas e os mísseis defensivos, mas continuará se aproximando com o Azerbaijão. Neste último caso, a Turquia tentará fortalecer os vínculos para aumentar o fluxo de petróleo e gás à Europa através do próprio território.

A Bielorrússia continuará aumentando os acordos com a União Europeia, mas manterá os acordos estratégicos, inclusive militares, com a Federação Russa. A Bielorrússia continuará na linha de frente da aproximação da União Euroasiática com a União Europeia com o objetivo de facilitar a aproximação ao Novo Caminho da Seda chinês, passando por cima das sanções contra a Rússia.

Os Países Bálticos continuarão procurando se distanciar da Rússia e se aproximando da Europa, principalmente em relação à política energética e militar.

Geórgia, o inimigo da Rússia de longa data, manterá os laços com o imperialismo, mas não será admitida na OTAN nem na União Europeia por causa dos enclaves russos da Abkhazia e da Ossétia do Sul. Os laços comerciais com a Rússia aumentarão, principalmente no setor de energia e, eventualmente, substituindo parte das exportações agrícolas turcas.

As repúblicas da Ásia Central tendem a converter-se num dos pontos de concentração de uma nova ascensão das guerrilhas islâmicas conforme militantes retornarão a partir do Oriente Médio e trabalhadores imigrantes retornarão da Rússia por causa da crise econômica. O Cazaquistão e o Uzbequistão tentarão privatizar empresas públicas do setor de energia, que foram atingidas em cheio pela queda dos preços do petróleo e do gás. O gigantes russos do setor ficarão com parte dessas empresas, mas de maneira minoritária por causa dos endêmicos problemas de caixa. Os chineses continuarão aumentando a penetração na região. O mesmo farão os monopólios ocidentais.

Além do Oriente Médio, as repúblicas da Ásia Central são muito influenciados pela crise política do Afeganistão, fundamentalmente com a recente escalada do Talibã no norte do Afeganistão, perto das fronteiras com o Uzbequistão, o Turcomenistão e o Tajiquistão. A Rússia é a potência regional que detém a maior influência na região, apesar das recentes investidas dos chineses, em grande medida com a complacência dos russos. Os Estados Unidos poderão tentar a retomada das posições, a partir da retomada do projeto do gasoduto Trans Cáspio e a abertura de bases militares. O panorama deverá ficar mais claro a partir do mês de agosto de 2016, quando acontecerá a reunião cume do Mar Cáspio, em Astana, a capital do Cazaquistão.

VEJA TAMBÉM:

PARTE 1 – 2015: O ANO DA ACELERAÇÃO DA CRISE CAPITALISTA MUNDIAL

http://alejandroacosta.net/2015/12/31/previsoes-para-2016-parte-1/

PARTE 2 – O ORIENTE MÉDIO

http://alejandroacosta.net/2015/12/31/previsoes-para-2016-parte-2/

PARTE 3 – A EUROPA

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Rússia-Índia: PRÓ-IMPERIALISMO OU NACIONALISMO?

 

India Russia

QUAL É O SIGNIFICADO DOS RECENTES ACORDOS RÚSSIA-ÍNDIA? QUAL É O CARÁTER DO GOVERNO DO DIREITISTA NARENDRA MODI?

 

Recentemente, o primeiro ministro da Índia, Narendra Modi, esteve em Moscou para participar da 16a. reunião bilateral anual entre ambos países. Essas reuniões começaram a acontecer a partir de 1997, após o colapso da antiga União Soviética. Foram assinados vários acordos estratégicos nas áreas de energia, comercio e militar.

A Rússia aumentará as exportações de petróleo e gás à Índia, que representa o terceiro maior consumidor em escala mundial.

As relações comerciais entre vários gigantes russos do setor da energia e a Índia datam de anos e têm evoluído com maior velocidade que com a China. Esse é o caso da Rosneft que avança para comprar 49% da indiana Essar com o objetivo de entrar no lucrativo negócio do refino de combustíveis. Em políticas similares têm avançado a Lukoil, a Sistema e a Gazprom.

No setor militar, a Rússia continua sendo o principal fornecedor, apesar da ampliação dos últimos anos. O avião militar T-50 e o míssil de curto alcance BrahMos são desenvolvimentos conjuntos. Em andamento, se encontra a aquisição de quase 150 T-50, que será equipado com os BrahMos. Também estão em negociação a compra de dois submarinos diesel-elétricos, 48 helicópteros, com a produção dos Kamov 226T, três fragatas, a expansão de peças para o avião Sukhoi 30MKI e o sistema anti-mísseis S-400 que, neste momento, somente é operado pela China e a própria Rússia. A versão seguinte, os S-500, blindou o espaço aéreo russo contra a ameaça nuclear da OTAN.

 

“IT IS JUST BUSINESS” = “E SÓ NEGÓCIOS”

 

Narendra Modi foi eleito no mês de maio de 2014 pelo direitista Partido Bharatiya Janata. O grande derrotado foi o Partido do Congresso, dos Nehru e dos Gandhi. A primeira visão desse governo é que tentaria aumentar a proximidade com os Estados Unidos e com o Japão, distanciando-o da Rússia, a China e a OCX (Organização de Cooperação de Xangai). Mas a política é prática. A crise capitalista tem avançado com força sobre a Índia que tenta adotar medidas de contenção. A burguesia indiana tem buscado vários mecanismos para salvar os lucros e manter os privilégios.

Os acordos com os russos facilita a política da Índia de aumentar a participação no lucrativo negócio das vendas de armas. Em 2012, tinha disso assinado um acordo para o fornecimento do submarinho classe Akula. Agora, entraram nas discussões os submarinos Kashalot e o Iribis que ainda se encontra em desenvolvimento. O objetivo dos indianos é remodelar esses submarinos e inclui-los não somente no arsenal doméstico, mas também no show room do armamento a ser exportado. O plano de defesa da Índia para 2016 inclui o aumento da produção nacional de 30% para 40%.

Mas as amarrações militares e políticas da Índia com a Rússia não são “tão exclusivas” como as relações entre a Rússia e a Índia. A Índia ainda mantem como política o chamado “não alinhamento” que, na prática é uma dança das cadeiras entre as várias potências regionais e imperialistas. Modi mantém essa política. Enquanto conversava com o presidente russo, Vladimir Putin, o governo indiano fazia um pedido de 100 drones aos Estados Unidos, fortalecia os acordos no setor naval com o Japão e o próprio Modi, numa política difícil de ser prevista, visita o eterno inimigo, o Paquistão, num esforço pela distensão regional.

 

 

 

PORQUE OBAMA (KERRY) VOLTA À RÚSSIA?

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Nos próximos dias, o secretario do Departamento de Estado, o chefe da diplomacia, dos Estados Unidos visitará novamente a Rússia, onde se encontrará com o ministro das Relações Exteriores, Serguei Lavrov, e com o presidente Vladimir Putin.

Agora a discussão será sobre as negociações de paz na Síria. A “oposição” síria ligada à Arábia Saudita, a melhor financiada, concordou em ir à mesa de negociações. Esse era o objetivo dos Estados Unidos (ala Obama), da Rússia e do Irã. A questão da Ucrânia, que também será tratada na visita de Kerry, passa por aparar as arestas em relação ao vencimento da dívida dos US$ 3 bilhões que o governo ucraniano deve à Federação Russa, e que Poroshensko pretende dar um calote com a ajuda do FMI.

A primeira visita de John Kerry à Rússia aconteceu no mês de junho passado, quando foi estabelecido o acordo para que os russos atuassem na Síria. Naquele momento, Obama estabeleceu as bases para a estabilização do Oriente Médio. O problema é que essas bases passavam pela aliança com inimigos tradicionais dos Estados Unidos, passando por cima dos aliados tradicionais, em primeiro lugar, a Arábia Saudita e Israel.

Os russos apertaram os ataques aéreos enquanto o Exército sírio avançava por terra com o apoio do Hizbollah (a poderosa milícia libanesa), as milícias xiitas e as forças especiais iranianas, os Quds.

A pressão do Obama se direcionava contra as “loucuras” dos aliados tradicionais que estavam incendiando o Oriente Médio em cima do apoio a vários dos “grupos rebeldes”, a começar pelo Estado Islâmico.

A posição do governo norte-americano e da União Europeia após a derrubada do SU-24, o bombardeiro russo, por caças turcos confirmou a existência desses acordos. A Turquia é um membro da OTAN. O governo da OTAN tentava atrair a OTAN contra a Rússia com o objetivo de proteger os próprio “rebeldes”, reduzir a influência dos curdos na fronteira e projetar o próprio poder na região por causa da necessidade imperante de manter e ampliar a política da Turquia como intermediária no transporte do gás à Europa.

 

OS SAUDITAS ADEREM À POLÍTICA DE OBAMA NA SÍRIA?

 

Recentemente, os “rebeldes” que se reuniram na Arábia Saudita criaram um Conselho de Negociação para negociar com o governo sírio. Apesar de terem colocado como condição principal que o presidente al-Assad não participe do governo transitório, houve uma mudança em relação às posições anteriores em que os sauditas adiaram de todas as maneiras possíveis o início das negociações. O objetivo era fortalecer os próprios rebeldes e chegar à mesa de negociações em condições mais favoráveis.

Com o fortalecimento das posições do governo al-Assad e o enfraquecimento dos rebeldes, parece que foi atingido o ponto de ir à mesa de negociações. A política exterior também entrou num pântano no Iêmen e começa a avançar nas regiões do sul do país habitadas majoritariamente por xiitas.

Os sauditas representam a ala “cachorro louco” das potências regionais, ligada diretamente à ala de extrema direita dos Estados Unidos. Eles não estão satisfeitos com Obama, da mesma maneira que os sionistas israelenses também não o estão. Mas fazer o que? Obama colocou pontos vermelhos, que não podiam ser ultrapassados, como por exemplo o envio de mísseis TOW, terra ar, que tinham o potencial de criar sérios problemas para a aviação russa.

A política Obama avança também na América Latina, onde conseguiu impor Macri na Argentina e a vitória da direita na Assembleia Nacional venezuelana. Mas se trata de uma política transitória, pois a crise se aprofunda e as contradições tendem a se acirrarem no próximo período.

 

U.S. Secretary of State John Kerry steps out of a plane upon arrival at Le Bourget airport in the outskirts of Paris, France

U.S. Secretary of State John Kerry steps out of a plane upon arrival at Le Bourget airport in the outskirts of Paris, France December 7, 2015. Kerry is due to attend the last phase of the World Climate Change Conference 2015 (COP21). REUTERS/Mandel Ngan/Pool

 

 

RÚSSIA/ TURQUIA, POR TRÁS DA RETÓRICA,

A POLÍTICA DO “SALVE-SE QUEM PUDER”

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Os ataques da aviação russa na Síria têm como objetivo fortalecer as posições do governo de al-Assad para pressionar no sentido de uma saída negociada. A Rússia não tem condições de controlar a Síria com as próprias forças, pois entraria em rota de coalisão com as demais potências regionais e com o imperialismo. Mas, a partir do enclave criado nas províncias de Latákia e Tartus, as regiões habitadas pela minoria alawita que está no poder, os ataques avançaram sobre as regiões vizinhas.

A aviação russa tem possibilitado o avanço do Exército sírio, apoiado pelas milícias xiitas, controladas pela Guarda Revolucionária Islâmica iraniana, e o Hizbollah, a poderosa milícia libanesa, nas estratégicas províncias de Idlib e Aleppo, e sobre o coração do Califato do Estado Islâmico, Raqqa e Deir el-Zour. Localidade onde os “rebeldes” avançavam foram retomadas. Após dois anos, o Exército conseguiu controlar Sweida e a sitiada base aérea de Kweiris, na região oriental de Aleppo. Na região central da Síria, unidades de artilharia russas teriam ajudado na retomada de Mahin, que se encontrava sob controle do Estado Islâmico e estariam atuando na retomada de outros povoados, como Jabal Zuwayk, em Latákia. A ofensiva sofreu alguns revezes no norte de Hama, mas continua avançando em quase todas as frentes.

Em paralelo, os Estados Unidos têm atuado estreitamente com o YPG curdo, que passou a fazer parte da frente Forças Democráticas Sírias, que inclui também a Coalisão Árabe Síria, assírios e turcomenos. O governo turco tenta desesperadamente controlar uma faixa fronteiriça do território sírio e colocar os curdos na defensiva.

O envolvimento dos russos e do Irã na Síria, e mais recentemente dos chineses, tem limitações. A resistência dos “rebeldes” apoiados pelas potências regionais e pelo imperialismo tem obrigado a aumentar o envolvimento militar, colocando o risco do fantasma da derrota russa no Afeganistão. Por esse motivo, a política de Putin e dos aiatolás iranianos é conseguir uma saída negociada o mais rápido possível.

 

A QUESTÃO CURDA

 

O grupo “rebelde” preferencial do governo turco agora é o chamado Exército Sírio Livre, onde atuam milicianos de origem turco financiados pelo governo. O principal objetivo está relacionado com a contenção das milícias curdas do YPG e, principalmente, com uma eventual evolução no sentido da formação de um estado curdo. Os curdos turcos do PKK (Partido dos Trabalhadores) controlam a Província da Anatólia Oriental que é um dos componentes centrais do fornecimento de gás para a Europa.

A política da criação de uma zona de controle do espaço aéreo sírio na região foi implodida pela intervenção da aviação russa.

A derrubada do caça russo teve como objetivo criar um fato consumado para a Turquia avançar no controle do norte da Síria contra os curdos que têm se convertido num dos componentes em solo da “guerra contra o Estado Islâmico”. Com esse objetivo, criaram um fato consumado na tentativa de arrastar os Estados Unidos e a OTAN, contra a política da aliança com a Rússia que a Administração Obama colocou em pé.

Se trata de uma política arriscada, pois entra em conflito com a política da Rússia e, em certa medida, com a dos próprios Estados Unidos. Mas, conforme a crise tem se aprofundado, a política do “salve-se quem puder” passa a ocupar a linha de frente do cenário político. Erdogan acabou de sair triunfante da escalada da política militarista contra o PKK (Partido dos Trabalhadores curdos na Turquia), cancelando a trégua, com o objetivo de criar um clima de terror e facilitar a vitória, por maioria, do partido no governo, o AKP, nas novas eleições nacionais, que aconteceram no início de novembro, com este objetivo.

Os curdos iraquianos, os pershmergas, tem atuado com o apoio norte-americano numa grande ofensiva contra o Estado Islâmico a partir de Mosul em direção à fronteira síria. O Curdistão iraquiano mantém relações estreitas com o imperialismo norte-americano, os sionistas israelenses e com a Turquia.

 

O GÁS DO MAR CÁSPIO

 

Perante o acirramento das contradições pelo negócio do fornecimento de gás para a Europa, o gasoduto Trans-Cáspio voltou a ser colocado à ordem do dia para desespero dos russos. Se trata de 300 quilômetros que deverão unir o porto Turkmenbashi (Turcomenistão) e Baku (Azerbaijão). Com capacidade para o transporte de 30 bilhões de metros cúbicos (bmc), o próximo destino seria a Turquia, passando pela Geórgia, de onde chegaria à Europa.

Os interesses russos foram colocados em xeque, pois aos atuais 4,7 bmc que o Azerbaijão já transporta, ainda deverão ser adicionados 10 bmc em 2018, a partir do campo Shah Deniz II.

O fornecimento dos Balcãs e da Europa Oriental com gás do Azerbaijão e do Turcomenistão, por fora do controle da Gazprom, o gigante russo do setor, enfraqueceria o poder russo na região abrindo passo para uma maior escalada da agressividade militar da OTAN por meio desses países.

Por meio do aumento da pressão, mediante vários mecanismos econômicos e militares, o governo russo conseguiu afastar o Turcomenistão dessa política e envolver o países no direcionamento do gás para a Rússia e a China. Além disso, o governo do Irã está alinhado com essa política. Não por acaso, os 26 mísseis de longo alcance que a Marinha russa disparou contra o Estado Islâmico tiveram como origem a Frota do Mar Cáspio e sobrevoaram o Irã, com a permissão do regime dos aiatolás.

O governo turco de Recep Tayyip Erdogan tem tentado se contrapor à política russa no Mar Cáspio. No início de novembro, Erdogan esteve em Ashgabat, a capital do Turcomenistão, com o objetivo de assinar acordo de fornecimento de gás natural, apesar de não ter especificado como o gás seria transportado. Duas semanas depois, o presidente da empresa estatal de petróleo do Azerbaijão declarou, em visita ao Turcomenistão, que o governo estaria preparado para investir no gasoduto Trans-Cáspio.

A Turquia, que mantém proximidade nacional sobre esses países, busca se favorecer do aumento das contradições da Rússia com várias das antigas repúblicas soviéticas, enquanto a Rússia tem direcionado o grosso dos negócios para a China.

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POR QUE A TURQUIA DERRUBOU O CAÇA RUSSO?

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No dia 24 de novembro, um caça russo SU-24 foi derrubado perto da fronteira Síria-Turquia por dois caças turcos F-16 que teriam usado mísseis ar-ar. Os dois pilotos russos saltaram e acabaram sendo, provavelmente, mortos por grupos “rebeldes” em território sírio.

De acordo com a versão oficial turca, o caça teria sido avisado dez vezes antes de ser abatido. O governo russo declarou possuir evidências de que se encontra em território sírio a seis mil metros de altura.

Desde o começo das operações da Rússia na Síria, tinham sido feito acordos com a Turquia, os Estados Unidos, Israel, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos com o objetivo de evitar o confronto militar.

O governo turco, ao invés de buscar um entendimento imediato com os russos, chamou uma reunião em caráter de urgência com a OTAN. Até o momento, as retaliações foram preventivas. O governo do presidente Vladimir Putin suspendeu a colaboração militar com a Turquia, foi anunciado que o sistema anti-mísseis S-300 será atualizado para o padrão S-400 na base aérea de Khmeimim e todos os ataques aéreos passarão a contar com cobertura aérea por aviões de combate. Os canais diplomáticos continuam aberto no primeiro escalão dos ministérios das Relações Exteriores.

 

A FRENTE ÚNICA DE OBAMA COM PUTIN

 

A Síria tem um enorme potencial de contágio desestabilizador no Oriente Médio. A presença militar da Federação Russa na Síria data de várias décadas atrás, da época da antiga União Soviética. A Rússia possui no porto de Tartus, localizado ao norte do Líbano, a única base naval no Mar Mediterrâneo. Assim que os “rebeldes”, financiados pelo imperialismo e a reação, conseguiram infiltrar e controlar os protestos de massas que estouraram há quatro anos, os russos e o Irã passaram a atuar na defesa do governo al-Assad. Mas o ponto de virada aconteceu em junho deste ano.

O secretario do Departamento de Estado norte-americano esteve no balneário de Sochi, localizado no sul da Rússia, onde manteve encontros de primeiro nível. O objetivo foi colocar em pé uma frente única com o objetivo de estabilizar a Síria e evitar que se convertesse numa nova Líbia ou Somália. Em contrapartida a Administração Obama desescalou as tensões na Ucrânia, no Mar do Sul da China e na América Latina. Essa política acabou aumentando as tensões com os aliados tradicionais do imperialismo, a começar com Israel e a Arábia Saudita e reflete o grau de crise. Para estabilizar a situação, os Estados Unidos precisaram se aliar com inimigos tradicionais.

Obama encabeça a direita tradicional nos Estados Unidos que disputa com a direita truculenta a política a ser implementada no próximo período, com o objetivo de enfrentar o inevitável aprofundamento da crise capitalista. Os cinco debates dos pré-candidatos do Partido Republicano às eleições presidenciais que acontecerão no próximo ano oferecem uma amostra da política da ala direita do imperialismo. Guerra, inclusive atômica, contra o Irã. Guerra contra a Rússia. Guerra contra a China.

 

AS RELAÇÕES RÚSSIA – TURQUIA

 

As relações entre os governos Putin e Erdogan tem evoluído positivamente no último período. A Turquia, apesar de ser um membro da OTAN, tem mantido uma relação ambivalente com os Estados Unidos e a Europa. A Rússia tem buscado influenciar essas relações desenvolvendo as relações comerciais energéticas, que representam o principal componente da política econômica turca após a crise da indústria têxtil que estourou a partir de 2008. O gasoduto SouthStream foi desviado, no Mar Negro, da Bulgária para a Turquia para driblar as regulamentações da União Europeia relacionadas com o monopólio da Gazprom, o gigante do gás russo, no fornecimento de gás.

A saída da Frota russa do Mar Negro depende do Estreito de Bósforo, que é controlado pela Turquia.

As relações entre a Rússia e a Turquia começaram a entrar em rota de colisão com a escalada da intervenção russa na Síria. A Turquia depende do controle da região para viabilizar a própria política. O lucrativo e disputado fornecimento de gás à Europa, com a perspectiva da Turquia se converter num nó (hub) depende dessa política. Está em jogo não somente o transporte do gás russo, mas também do gás do Catar, Irã, Azerbaijão, Turcomenistão e até do Líbano e Israel.

A Rússia também tem pretensões de potência regional e depende do sucesso da intervenção na Síria para aumentar o mercado de armas no Oriente Médio e no mundo, reduzir as sanções relacionadas à Ucrânia, disputar o mercado de fornecimento de gás e de energia nuclear na região. Além disso, há a questão dos grupos guerrilheiros financiados pelas monarquias do Oriente Médio que podem começar a atuar no Cáucaso, nas repúblicas da Ásia Central e no sul da Rússia (Tchetchênia e Daguestão) no caso do governo sírio colapsar.

O governo turco, encabeçado pelo primeiro ministro Erdogan, tem impulsionado os próprios “rebeldes” com o objetivo de conter o avanço dos curdos e de aumentar a própria influência na região. O Estado Islâmico tem sido um dos principais favorecidos por meio da facilitação de rotas logísticas e para a comercialização do petróleo que eles controlam. A mesma política tem sido aplicada pela Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, e, em alguma medida, pelo Catar e o imperialismo.

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ARÁBIA SAUDITA E RÚSSIA – AMOR, ÓDIO OU INCESTO?

Sauditas e Russia2

Qual é o verdadeiro significado da aproximação diplomática entre a Rússia e a Arábia Saudita?

No último período, uma verdadeira procissão de figurões da obscurantista Arábia Saudita tem aparecido na Rússia em encontros com o primeiro escalão do governo. O Príncipe Mohammed bin Salman, Ministro da Defesa saudita, se encontrou, em outubro, com Vladimir Putin, o presidente da Federação Russa. A visita do rei Salman a Moscou está prevista para acontecer neste ano.

A monarquia tenta conter o aprofundamento da crise no Oriente Médio que avança, a passos largos, em direção à própria Arábia Saudita. Os sauditas têm entrado em fortes contradições com a Administração Obama que, na tentativa de estabilizar o Oriente Médio tem deixado de lado os aliados tradicionais, os próprios sauditas e satélites, como os Emirados Árabes Unidos e a Jordânia, os sionistas israelenses, o Catar e, até certo ponto, a Turquia. O pior para esses governos, que são aliados tradicionais da direita, e inclusive da extrema direita do imperialismo, é que Obama se aliou aos aliados “poucos confiáveis, como a Rússia e a China, e aos “inimigos”, como o Irã, a milícia libanesa Hizbollah e os curdos.

Os sauditas oferecem uma isca para os russos não “exagerarem” na dose dos ataques aos “rebeldes” que recebem dinheiro dos petrodólares, como o Estado Islâmico, Jabhat al-Nusra, Ahrar al-Sham e Jaysh al-Islam. Essa isca tem três componentes principais, a promessa de uma compra considerável de armas russas, a tomada de medidas que permitam a subida o preço do petróleo e o investimento de US$ 10 bilhões na economia. O russos precisam desesperadamente desses recursos para conter a desestabilização interna. A economia se encontra em recessão há quatro anos. Nas discussões sobre o orçamento público do próximo ano aparecem vários buracos, principalmente nos repasses de recursos para as províncias.

QUEM É O MEU ALIADO?

Os russos têm acolhido com muita desconfiança a proposta da monarquia saudita. Propostas similares já foram feitas em várias ocasiões, mas nunca foram cumpridas. O governo russo aderiu, em 2010, às sanções contra o Irã com esse objetivo, mas quase nada obtiveram dos sauditas. Na última feira de São Petersburgo, que aconteceu há alguns meses, os sauditas assinaram vários contratos com empresas russas, mas ainda longe dos volumes prometidos em 2013 e 2014 quando o então chefe dos serviços de inteligência, o príncipe Bandar il Sultan, queria que os russos retirassem o apoio ao governo sírio do presidente al-Assad.

O afastamento da Rússia do Irã não está colocado para este momento. Apesar do acordo nuclear, o Irã precisaria de quase US$ 200 bilhões em investimentos, e vários anos, para viabilizar a infraestrutura necessária para promover as exportações de gás à Europa numa escala que poderiam torna-lo um competidor à altura da Gazprom, o gigante russo do gás. Até lá, a própria Gazprom poderá controlar uma fatia importante do negócio, contra os interesses do Catar que também busca fornecer gás, por meio da Turquia, mas depende da estabilização da Síria.

O fortalecimento da aliança da Federação Russa com o Irã, e ainda com a inclusão da China, apavora os sauditas. Os regimes da Síria e do Iraque e os Houthis, no Iêmen, são apoiados pelo regime dos aiatolás e, por esse motivo, tentam implodi-la. O Iêmen está se transformando no Vietnam saudita. Os bombardeios e assassinatos da população civil, que acontecem há 260 deixaram um saldo de sete mil mortos. A invasão que deveria ter sido um passeio se transformou num pesadelo quando os sauditas tentaram avançar para as regiões montanhosas, próximas à capital do país, Sanã, reduto tradicional dos Houthis.

Em relação à Turquia, a vitória do partido do primeiro ministro Erdogan favoreceu os russos, pois, apesar das contradições, viabiliza a construção do gasoduto, o Turk Stream, que direcionará gás à Europa. Erdogan também visitará Moscou neste ano.

O esforço saudita de contenção da Rússia se tornou mais complexo e mais difícil de ser negociado. O Oriente Médio é o ponto onde as contradições entre as potências regionais e imperialistas é mais acirrado. No próximo período, conforme a crise capitalista se aprofundar e a desestabilizar se generalizar, poderá dar lugar a confrontos militares em larga escala.

Sauditas e Russia