Venezuela – UNIÃO NACIONAL OU CONFRONTO NACIONAL?

 

Eleiçoes Venezuela

A direita venezuelana, até agora, tem se mantido relativamente neutra e “tranquila”, perante as medidas tomadas pelo chavismo, repetindo chamados à unidade nacional. Reconhecidos cachorros loucos, como o deputado Allud, do Partido Ação Democrática, que tinha pedido o fim do Mausoléu de Hugo Chávez e da TV oficial da Assembleia Legislativa, foram silenciados. No evento de comemoração da vitória da direita, que aconteceu do lado da estação do Metrô Chacaito, em Caracas, todos os discursos foram orientados à unidade, não somente da direita, que ameaça rachar, mas também de todos os venezuelanos. A esposa do líder do Partido Voluntad del Pueblo, o elemento de extrema direita Leopoldo López, apareceu no palco se abraçando com o líder do Partido Justiça, Henrique Capriles. Capriles não apoiou as manifestações nas ruas, que aconteceram no ano passado, impulsionadas, principalmente, por Leopoldo López, e que deixaram um saldo de 43 mortos e mais de 800 feridos. A morte de dois figurões do PSUV, principalmente a do jovem líder dos movimentos sociais, Robert Serra, ameaçou botar fogo no país.

Capriles tem buscado a aproximação com a ala direita do chavismo, principalmente com os governadores do Movimento 4F, os ex militares, com o objetivo de aplicar um plano de ajustes seguindo a política neoliberal a la Obama. O governo Maduro de conjunto, aparentemente, caminhava neste sentido, mas acabou sendo encurralado pela forte pressão das bases. Diosdado Cabello, ele próprio um ex militar, mantém fortes laços com os governadores do PSUV do Movimento 4F.

A temperatura social tem aumentado, de maneira visível, nas praças Bolívar e Venezuela, que são tradicionais pontos de encontro dos chavistas em Caracas, e no Bairro operário 23 de Janeiro, que representa um dos principais redutos chavistas, muito emblemático porque ali os candidatos do PSUV foram derrotados no dia 6 de dezembro.

 

AS CAUSAS DA DERROTA ELEITORAL DO CHAVISMO

 

A arrasadora derrota eleitoral do chavismo, nos próprios redutos chavistas, demostra que a crise do regime tem vários componentes. A guerra econômica é um deles, e está vinculado estreitamente à enorme queda dos preços do petróleo. Maduro tem tentado divulgar que o colapso dos preços do petróleo teria sido promovida artificialmente para afetar a Venezuela e a Rússia em primeiro lugar. Mas o buraco fica mais embaixo e envolve a crise capitalista mundial como um todo, a recessão industrial mundial, a desaceleração na China e o aumento das contradições entre a Arábia Saudita e os Estados Unidos. Estes deixaram de importar petróleo para eles mesmos se converterem em exportadores a partir da produção ultra depredadora a partir do xisto.

Os programas sociais, implementados por meio das Misiones, representam mais de 40% do orçamento público. Somando os subsídios, esse percentual sobe para 60%, o que revela o altíssimo grau de acirramento das contradições sociais e a impossibilidade de dar continuidade a essa política com os atuais preços do petróleo. As divisas obtidas pelo petróleo são responsáveis por 96% do total e por mais de 40% do PIB venezuelano. Por esse motivo, muitas importações têm enfrentado crescentes dificuldades, inclusive de alimentos, medicamentos, peças e insumos, entre outros.

Setores dos capitalistas foram beneficiados com os recursos públicos, tanto nas obras públicas como nas importações a preços subsidiados. Enquanto os dólar paralelo está em torno a 800 bolívares, os capitalistas recebem dólares subsidiados a seis bolívares, embora que em quantias cada vez menores. Obviamente, os desvios têm se tornado muito mais frequentes que as compras para vender os produtos aos preços subsidiados impostos pelo governo. O mercado paralelo, ou como os venezuelanos o chamam “o bachaqueo”, não para de crescer. As filas para obter os componentes da cesta básica são enormes. As pessoas dependem do dia da semana e do RG para realizarem as compras, e, muitas vezes, acontece de não conseguirem os produtos após terem ficado horas nas filas.

A industrialização e a diversificação da economia não saiu do papel, em boa medida, por conta das políticas assistencialistas promovidas pelo próprio Hugo Chávez, em cima dos altos preços do petróleo. Por conta da pressão do imperialismo, do boicote dos grandes empresários, do burocratismo e das limitações do chavismo, assim como pela ação das próprias leis do capitalismo, a economia da Venezuela ter se tornado cada vez mais unilateral e dependente do petróleo.

Agora o chavismo foi colocado contra as cordas, em parte pela direita, mas em primeiro lugar, pela radicalização das massas.

Em abril, aconteceram dois rachas no PSUV. O mais importante deles foi o de Marea Popular, um grupo trotskista encabeçado por dois ex ministros de Hugo Chávez. Mas foi um racha a la Psol. Esse grupo foi responsável pela política econômica do chavismo durante um período. Por outra parte, esse racha refletiu a abertura das contradições conforme aumentavam os problemas. A partir da queda da renda petrolífera, inevitavelmente, a base material do chavismo se enfraquecia.

Eleições 2015 na Venezuela – GOLPE OU ACORDO?

 

O que está por trás do colapso do chavismo e da ascensão da direita?

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O entendimento da enorme derrota que o chavismo sofreu nas recentes eleições legislativas é fundamental para avaliar o desenvolvimento da situação política na América Latina, incluindo o Brasil.

A propaganda chavista tenta minimizar a derrota levantando considerações como que já tinham sofrido uma derrota similar em 2008 no referendo para mudar a Constituição de 1998 e de que a direita será enfrentada nas ruas se necessário. Na realidade, são contextos totalmente diferentes.

Hoje, o chavismo e o chamado “Socialismo do Século XXI” se esgotaram. Por que? Porque a base desse “socialismo” está sustentada nos programas sociais, em grande medida assistencialistas, a partir da renda obtida dos altos preços das matérias primas nos mercados internacionais. Em nenhum momento, o chavismo, Evo Morales ou Rafael Correia se propuseram expropriar o capital, romper com os “acordos” impostos pelo imperialismo ou demolir o estado burguês para colocar em pé o poder da população armada, de cima a baixo. Muito pelo contrário, esses países continuaram sendo ótimos pagadores da dívida pública e mantiveram os acordos com o imperialismo no fundamental. As expropriações que o chavismo ou o Evo Morales fizeram, foram nacionalizações e bem pagas, tanto no comercio, na indústria e em relação à propriedade da terra. As empresas expropriadas nunca conseguiram ser colocadas em pé por causa da paralisia e do burocratismo do PSUV (Partido Socialista Unificado da Venezuela) e dos aparatos do estado.

Quando o preço do petróleo despencou, as finanças públicas colapsaram. Em pouco mais de um ano, o preço caiu de US$ 110 o barril para menos de US$ 40.

As políticas do chavismo se tornaram ainda mais erráticas e o desabastecimento se tornou em mais uma forma de especulação com o dólar. Obviamente, isso foi potencializado pelo grande capital, mas o grosso das engrenagens do colapso já estava colocado.

 

NÃO FOI UM GOLPE. HOUVE ACORDO

 

Devido ao grau de radicalização das massas venezuelanas, o chavismo destina aos programas sociais mais de 40% do orçamento público. Essa situação é insustentável. Por esse motivo, desde o ano passado, o setor dominante do chavismo e a direita menos truculenta, encabeçada pelo governador do Estado de Miranda, Hugo Capriles, se aliaram para colocar um fim nos protestos de rua impulsionados pela extrema direita, encabeçada por Leopoldo López, do Partido Voluntad del Pueblo, que acabou sendo preso.

A situação do chavismo é muito similar à que aconteceu no colapso do bloco soviético, nos anos de 1980. Lá, o movimento grevista que tomou conta da Polônia em 1980, por conta da crise econômica, deixou claro que não dava mais para continuar daquela maneira. A burocracia que governava esses países acabou fazendo um acordo com a direita e o imperialismo e conduziu à restauração do “capitalismo de mercado”, onde ela própria manteve os privilégios contra as massas.

Na Venezuela, não estourou nenhum movimento de massas, pelo menos ainda. Mas o descontentamento social é muito perceptível. Nas eleições legislativas, o chavismo perdeu até no Bairro 23 de Janeiro, em Caracas, o centro eleitoral do Hugo Chávez, onde o chavismo nunca tinha perdido uma única eleição. O Bairro é também um dos centros anti golpistas mais importante, dos Coletivos e das milícias, com a população armada.

O chavismo aprovou, às vésperas das eleições, na Assembleia Nacional, o Orçamento de 2016, com 42% destinado aos programas sociais. Mas isso foi pura demagogia para conter o alto grau de radicalização das massas.

O chavismo precisa da direita para impor o ajuste contra as massas. A direita precisa do chavismo, ou pelo menos dos setores hegemônicos e burocráticos, para controlar as massas e impor o ajuste. Isso apesar das contradições que existem.

Na Venezuela, triunfou a política impulsionada pela Administração Obama para a América Latina, da mesma maneira que triunfou na Argentina, com Maurício Macri, e avança no Brasil encurralando o governo do PT e impondo o ajuste, mesmo que ainda não na medida desejada.

No próximo ano, acontecerão as eleições presidenciais nos Estados Unidos. Até lá, a menos que haja uma mudança do cenário político, essa política deverá prevalecer.

O chavismo foi derrotado. No próximo período, ele deverá implodir. Sobre essa base, deverão surgir setores revolucionários que deverão levar em frente a luta pela revolução proletária. Já é possível identificar esses setores nos movimentos sociais.

ELEIÇÕES VENEZUELA 6.12.2015 – A “REVOLUÇÃO BOLIVARIANA” VAI ÀS URNAS

 

(Por Alejandro Acosta. Direto de Caracas, Venezuela)

Hoje, domingo seis de dezembro, as votações para as eleições legislativas começaram cedo em toda Venezuela, às seis da manhã. Apesar do voto não ser obrigatório, podiam ser vistas filas em praticamente todos os centros de votações que percorri no Município El Libertador, a cidade de Caracas.

Durante as primeiras horas, o clima transcorreu com tranquilidade, sem incidentes. Os canais de televisão não têm reportado anormalidades em nenhuma região do país, nem sequer nos munícipios localizados na fronteira com a Colômbia, que se encontram sob estado de intervenção.

Os candidatos do chavismo e da direita votaram cedo. Ambos têm se engajado na chamado ao povo venezuelano a votar.

No sábado, pode ser visto um certo aumento nas filas dos supermercados, o que pode ser interpretado como um certo temor à repetição dos eventos do ano passado, 2014, quando a direita promoveu as “guarimbas”, as manifestações nas ruas de cunho fascistoide, que, em alguns lugares, chegou a deixar algumas ruas bloqueadas durante três meses.

Os observadores internacionais da Unasur e outros convidados se encontram na Venezuela como observadores. O presidente Nicolás Maduro os recebeu pessoalmente. O governo chavista não permitiu a presença de inspetores da OEA (Organização dos Estados Americanos) e da União Europeia conforme a direita exigia.

 

POR UM GOVERNO DE “COALISÃO NACIONAL”?

 

O secretario geral da OEA, o uruguaio Almagro, fez declarações conciliadoras, chamando a manter a paz e a se focar em resolver os problemas de Venezuela. Isto acontece após ter criado um forte mal estar no governo chavista devido às críticas realizadas há algumas semanas no marco da campanha que acusa o governo como ditatorial devido à prisão de elementos da extrema direita Venezuela, como Leopoldo López, no ano passado, após as “guarimbas”.

Os chavistas pedem à direita que reconheça os resultados dos comícios, sejam quaisquer que forem. A direita nem sequer reconheceu os mecanismos colocados em pé pelo CNE (Conselho Nacional Eleitoral).

As pesquisas eleitorais, controladas pelos grandes capitalistas, têm falado numa vitória “de lavada” da direita. O chavismo fala na sua vitória, mas apertada.

Por trás do show propagandístico há a crise econômica que avança num dos países onde a radicalização das massas tem levado o governo a direcionar nada menos que 42% do orçamento público aos programas sociais, apesar do colapso das finanças públicas devido à queda da renda petrolífera.

A Administração Obama pressiona para a integração da direita no governo, por um governo o mais de coalisão nacional possível. É a mesma política que foi aplicada no México e que acabou de ser aplicada na Argentina. A vitória de Macri tem como objetivo aplicar um ajuste econômico contra as massas trabalhadoras, e conta com o apoio direto da direita do peronismo, em geral, e do kirchnerismo e da maioria da burocracia sindical.

Um setor do chavismo busca o acordo com a direita e o imperialismo devido ao impacto do aprofundamento da crise capitalista mundial sobre a Venezuela. Mas o setor do chavismo vinculado aos movimentos sociais, que é encabeçado pelo próprio presidente Nicolás Maduro, vacila por medo à radicalização das massas.

 

DIREITA E CHAVISTAS: INIMIGOS MORTAIS?

 

No ano passado, a direita promoveu as “guarimbas”, os protestos nas ruas, promovidos em cima de setores de classe média, principalmente, estudantes universitários. À cabeça esteve o Partido Voluntad del Pueblo (Vontade do Povo), liderado por Leopoldo López, que é um elemento que pertence à mesma ala do alcalde (prefeito) da Grande Caracas, Ledezma, que hoje se encontra preso, e da deputada Corina. Esse partido é ligado à extrema direita norte-americana do Tea Party.

As mobilizações da direta provocaram a morte de mais de 40 pessoas, inclusive de dois membros do primeiro escalação chavista. Um deles, Robert Serra, ligado estreitamente aos movimentos sociais, foi encontrado morto com mais de 40 facadas no peito. Esse assassinato provocou um estado de comoção nacional. O governo declarou publicamente que haveria um plano, promovido por elementos direitistas, para assassinar Leopoldo López. Os chavistas fizeram um acordo com a ala de centro da MUD (Mesa de Unidad Democrática), liderada por Hugo Capriles. Leopoldo López acabou se entregando e hoje está preso, condenado a mais de 13 anos de prisão e se transformou num dos alvos da campanha da direita mundial contra o governo chavista.

Se Leopoldo López estava ameaçado por elementos da própria direita ou pelos Coletivos ou milícias chavistas é difícil de saber. Provavelmente, estava ameaçado por ambos. Mas também é um fato que os setores hegemônicos do chavismo e a direita compartilham algum temores, principalmente a busca pela contenção dos protestos sociais.

Os resultados destas eleições legislativas marcarão o rumo das reformas sociais chavistas. E independentemente dos resultados, o mais provável é que a Revolução Bolivariana, como a conhecemos hoje, o chavismo e a própria direita já não serão mais os mesmos. Deverá se fortalecer a tendência dos trabalhadores venezuelanos a se organizar de maneira independente pelo aprofundamento das reformas sociais, o que é impossível sem expropriar o capital, sem colocar abaixo o estado burguês e substitui-lo pelos órgãos do poder popular de cima a baixo, sem romper com as amarrações impostas pelo imperialismo.

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O CHAVISMO, A ESQUERDA PEQUENO BURGUESA E A LUTA REVOLUCIONÁRIA

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Às vésperas das eleições nacionais que acontecerão no dia 6 de dezembro na Venezuela, a campanha da direita pró-imperialista está esquentando. A Administração Obama tem focado os esforços na tentativa de estabilizar o Oriente Médio, perante as eleições nacionais que acontecerão nos Estados Unidos no próximo ano. Por esse motivo, o golpismo na América Latina tem sido desescalado, mas de maneira alguma tem sido eliminado. As engrenagens golpistas continuam em movimento, mas em velocidade cruzeiro, sem a histeria do ano passado ou do primeiro semestre deste ano.

A direita apertou a propaganda antichavista e a esquerda pequeno burguesa, que representa os interesses das camadas médias da sociedade, começou a repetir, que nem papagaio, os mantras direitistas.

Recentemente, um dos deputados mais esquerdistas do Psol, o ex BBB Jean Wyllys, se especializou em defender abertamente o golpismo anti-chavista. Entre outras várias pérolas: “Maduro expressa seu desprezo pela democracia e pelas liberdades democráticas”.

A limitação principal do chavismo não está na “falta de democracia” e “liberdade”. Esse é o discurso da direita.

QUAL É O CARÁTER DE CLASSE DO CHAVISMO?

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Hugo Chávez é um elemento de extração militar e ligado ao estado burguês, um representante do nacionalismo burguês, embora ele mesmo seja um elemento da pequeno burguesia.

Os setores da burguesia nacional obtêm lucros da exploração dos recursos nacionais e, por esse motivo, têm contradições com o imperialismo. Para enfrentar essa força poderosa, o imperialismo, fazem algumas concessões às massas com o objetivo de usa-las como massa de manobras para os próprios interesses. Devido ao temor à organização independente das massas, o nacionalismo burguês nunca é consequente na luta contra o imperialismo e tende a buscar acordos.

Nicolás Maduro, apesar da extração operária, é um representante do chavismo, um movimento nacionalista burguês que não tem na base os sindicatos ou as lutas operárias independentes, mas no movimento nacionalista surgido do exército. Uma avaliação siimilar também se aplicaria para os governos Kirchner, de Rafael Correa, de Humala, de Mujica e Tabaré Vázquez, de Michele Bachelet, de Humberto Ortega e os demais governos nacionalistas burgueses latino-americanos.

A diferença de Chávez, Lula, em 1989, era um candidato operário, surgido das lutas dos metalúrgicos do ABC e, nesse sentido, fazia, objetivamente, a luta pela formação de um partido independente avançar. A campanha de 1989 de Lula, foi uma campanha proletária e da pequeno-burguesia de esquerda. Lula teve grande votação nas fábricas. Os trabalhadores que levavam adiante uma luta sindical e política contra a burguesia tomaram a candidatura Lula como um instrumento da sua luta, embora apenas servisse de maneira muito limitada e parcial. Como o próprio Lula declarou anos mais tarde, se ele tivesse vencido em 1989 teria havido duas opções, ou um golpe de estado ou o avanço no sentido da revolução. O governo do PT de 2003 foi fruto de um acordo com a direita e o imperialismo.

A ESQUERDA PEQUENO BURGUESA E A “DEMOCRACIA”

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A campanha da direita propaga que as eleições na Venezuela seriam, supostamente, anti-democráticas. A democracia somente existiria nos países imperialistas. Jean Wyllys, ecoando a direita, chegou a declarar: “Pode chorar. O símbolo capitalista opressor está se tornando cada vez menos opressor das liberdades individuais”.

Na realidade, se houve alguém que ganhou eleições, na Venezuela e no mundo, esse foi Hugo Chávez. E mais transparência que nas eleições venezuelanas é quase impossível. Nas eleições que a direita tentou boicotar após a morte de Chávez, foram recontados muitos mais votos do que a lei contemplava. Nas seguintes eleições locais, a diferença se alargou bastante e mais ainda nas municipais. O repúdio da direita na Venezuela é grande.

Chávez não precisou do BBB para ganhar as eleições. Ele encabeçou a luta contra o regime neoliberal em colapso na década de 1990.

A propaganda do imperialismo, que sempre esteve de olho no petróleo venezuelano, é assimilada em cheio pela esquerda pequeno burguesa (aquela que representa os interesses das classes médias). O fracassado golpe de estado de 2002 e o fracassado lockout (greve patronal) de 2003 na PDVSA jogaram a direita numa crise da qual não tem conseguido se recuperar até hoje.

As críticas ao governo chavista para terem um caráter revolucionário devem ser direcionadas aos aspectos negativos, às limitações do chavismo. Os pontos fracos do chavismo passam pelo não rompimento com o imperialismo e pelo controle da organização independente das massas por meio dos programas sociais. Os programas sociais, que consomem 40% do orçamento público (para desespero da direita) são assistencialistas. As políticas econômicas são muito frágeis e mantêm a dependência dos monopólios. O chavismo sempre pagou a corrupta dívida pública sem mais. A dependência do petróleo é absoluta. As importações ameaçam fazer o país entrar em colapso.

Os verdadeiros socialistas nunca devem repetir a crítica da direita que, principalmente na Venezuela, está ligada por cordão umbilical aos interesses do imperialismo: i) que o chavismo não é democrático, ii) que a RCTV não teve a concessão renovada, iii) que não há liberdade na Venezuela, iv) pior ainda, que não há liberdade de imprensa, v) que o Leopoldo López é um coitadinho encarcerado, vi) que o chavismo é comunista. Além de outras imbecilidades imperialistas parecidas.

O CHAVISMO E A DIREITA

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Jean Wyllys escreveu: “O que me espanta, por isso, é o esquematismo de parte da esquerda (e digo isso como militante e deputado de um partido de esquerda), que divide o mundo em bons e maus, amigos e inimigos, e acha que a retórica anti-imperialista de Maduro é suficiente para estar ao lado dele, sem levar em consideração situações graves como o culto à figura do líder, que lembra os totalitarismos do século XX, a militarização da sociedade, com milícias “bolivarianas” armadas pelo Estado que respondem ao partido, a repressão aos estudantes (tão ou mais violenta que a que nós do PSOL denunciamos quando ocorre no Brasil), a prisão de dirigentes da oposição (já tem até um promotor do Ministério Público venezuelano exilado, que denuncia ter sido pressionado para inventar provas contra um dirigente da oposição hoje preso) e uma lógica política autoritária que identifica como “inimigo da pátria” todo aquele que se opõe ao governo.”

A esquerda pequeno burguesa é uma grande apaixonada pela “liberdade” e a “democracia” em abstrato, isto é, da liberdade e da democracia imperialista.

Para a esquerda pequeno burguesa (aquela que representa os interesses das camadas médias da sociedade), os Estados Unidos, a Alemanha, a França e a Inglaterra, entre outros, seriam democráticos porque respeitam os direitos das mulheres, dos homossexuais. Os governos nacionalistas burgueses seriam anti democráticos: chavistas, Rafael Correia, Evo Morales, PT. Nem falar da Irmandade Muçulmana que não gostava de homossexuais. 
A análise, a conceição do mundo, dessa esquerda é moral. A visão dos interesses das classes sociais envolvidas é igual a zero. Não há uma única palavra sobre imperialismo, sobre a farsa da democracia burguesa, sobre a NSA (agência nacional de segurança norte-americana), sobre a cada vez mais brutal exploração capitalista, sobre o ultra parasitismo financeiro, sobre o estado policialesco etc. E o que falar ainda sobre o Brasil? Sobre a Rede Globo? Sobre esse verniz democrático que encobre a “nossa” brutal ditadura?

Ao analisar os interesses materiais das forças políticas envolvidas na Venezuela, vemos que, os chavistas, para se manterem no poder, repassam 40% do orçamento estatal aos programas sociais. Os recursos veem do petróleo e é exatamente isso o que está em jogo. A direita, unificada na MUD, é ligada aos Estados Unidos, sendo que a extrema direita (Leopoldo López e outros) é ligada ao Tea Party, a extrema direita norte-americana. Essa direita quer entregar em bandeja a PDVSA (a empresa estatal de petróleo) para os monopólios. O modelo a seguir seria o México.

QUAL LIBERDADE DE IMPRENSA?

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Jean Wyllys declarou: [Na Venezuela], “há eleições periódicas e funcionam lá jornais e canais de televisão oposicionistas. Contudo, essa liberdade foi ameaçada mais de uma vez pelo governo, por exemplo quando ordenou cortar o sinal do canal de notícias colombiano NT24 e anunciou que poderia expulsar do país os repórteres da CNN e cancelar as licenças da emissora, ou quando usa a televisão pública para difamar opositores e promover o ódio, como foi feito contra o ex-candidato presidencial Henrique Capriles”

A rede televisiva RCTV tinha se envolvido diretamente no golpe de 2002 contra Hugo Chávez. Hugo Capriles esteve envolvido no golpe de 2002 e no lockout da PDVSA. Ele é ligado ao Partido Republicano, apesar de que comparado com o Leopoldo López, possamos dizer que ele é um esquerdista. A família do Capriles controla uma parte importante da imprensa pró-norte-americana.

Leopoldo López já é um fascista, ligado ao Tea Party, a extrema direita norte-americana. Ele esteve envolvido diretamente em operações contra o governo. Foi preso e, posteriormente, anistiado por Chávez. E novamente preso há um ano e pouco. Na realidade, de tão reacionário nem o Capriles tem boas relações com ele.

Sobre a imprensa é preciso lembrar a questão das concessões. Apesar de algumas famílias, ligadas aos monopólios, considerarem essas concessões como propriedade, elas são prerrogativas do estado que pode concede-las, renova-las ou não. A tal “liberdade de imprensa” não passa da liberdade dos capitalistas comprarem tudo. E mais ainda no Brasil, onde a grande imprensa é grotescamente nojenta.

A política dos verdadeiros socialistas não pode levantar a bandeira da liberdade de imprensa para os capitalistas como o faz a esquerda pequeno burguesa. A bandeira revolucionária é a da estatização total da imprensa, o controle do trabalhadores, a divisão dos tempos na imprensa eletrônica entre as organizações sociais, pelo fim dos repasses de recursos públicos para os capitalistas, pelo fim do monopólio do papel etc.

A CRISE CAPITALISTA E A OPOSIÇÃO DE ESQUERDA AO CHAVISMO

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O aprofundamento da crise capitalista alterou em termos quantitativos as relações do chavismo com a burguesia nacional e com as massas. O racha na base do chavismo foi impulsionado pelo imperialismo sobre setores que com os quais se aproxima por serem contrários aos repasses gigantescos para os programas sociais. Já a direita o que teria a oferecer além da entrega da PDVSA aos vampiros capitalistas?

O racha no chavismo não tem na base o repúdio popular que estaria buscando um governo “moderno”, “neoliberal”. Esse racha passa, em primeiro lugar, pela política geral do governo norte-americano que busca rachar a base eleitoral de todos os governos latino-americanos de cunho nacionalista. Essa política fica ainda mais evidente no caso do PT/PMDB ou do kirchnerismo, os dois países mais importantes da América do Sul.

As questões colocados são: 1- Reduzir o repasse para os programas sociais, os subsídios ao consumo de petróleo (US$1= 50 litros de gasolina) e outros. Direcionar esses recursos para investimentos na PDVSA, pagar a dívida pública etc. O efeito colateral é a escalada do descontentamento social. E deve-se considerar que parte da população se armou em 2002 para enfrentar o golpe de estado que acabou fracassando. Essa é a política do setor chavismo que se aproxima do imperialismo. 2- Entregar tudo em bandeja para o imperialismo. Essa é a política da direita. 3- Manter tudo como está. É o que o governo tenta fazer, devido ao temor das massas, mas enfrenta muitas dificuldades por causa dos preços do petróleo.

As massas apoiam o chavismo, por causa dos programas sociais. O “engessamento” é grande, tanto no PSUV (Partido Socialista Unificado), como nos sindicatos, nas organizações sociais e nas Misiones. As massas são práticas e querem resultados materiais imediatos. Não gostam das conversas típicas de intelectuais universitários. Mas essa situação Esse é um problema gigantesco para a luta independente dos trabalhadores, mas que deverá evoluir conforme a crise capitalista continuar se aprofundando e a política chavista encontrar mais dificuldades para ser mantida.

A oposição pela esquerda ao chavismo é muito fraca. A esquerda pequeno burguesa é nanica e muito paralisada. Orlando Chirino foi do PSUV. Rachou e formou a Unidad Socialista de Izquierda que agora se chama Partido Socialismo y Libertad. Sem qualquer mera coincidência, aplica a mesma política oportunista típica do Psol no Brasil.

EM QUEM UM SOCIALISTA DEVERIA VOTAR NA VENEZUELA?

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Chamar a votar na direita golpista, como a MUD, liderada por Capriles, que Jean Wyllys defende, é o cúmulo do pró-imperialismo. Mas, chamar ao voto no PSUV gera enorme confusão, apesar do apoio da população ao chavismo ser massivo. Está colocado o problema da contraposição entre a independência de classe e o apoio condicional e crítico a determinadas reformas chavistas.

Votar nas eleições burguesas para os socialistas revolucionários não passa de uma plataforma de propaganda. O golpe que a direita pró-imperialista e o imperialismo estão tentando viabilizar não será contido votando no chavismo, na Dilma ou em Scioli, mas pela reação popular nas ruas.

A luta central é contra a direita que aposta no fracasso do chavismo para retomar o poder, com consequências nefastas para os trabalhadores. Ela está indo às eleições com esse objetivo. É preciso derrotá-la, mas sem sacrificar a independência  da classe operária diante do chavismo, que corresponde a outra classes social, a burguesia nacional.

A tática do socialismo revolucionário nas eleições deve seguir o mesmo princípio da luta geral, ou seja, a luta pelo desenvolvimento da consciência de classe e, portanto, de uma organização política de classe, a forma prática da consciência de classe. As eleições não passam de uma questão secundária da luta da classe operária, uma vez que o capitalismo não pode ser eliminado em forma parlamentar e eleitoral e a época das reformas parlamentares ficou há muito no passado. Tratam-se apenas de uma tribuna de propaganda pelo programa revolucionário.

Deveria ser sacrificada a independência de classe por uma tribuna de propaganda? Se tivermos força suficiente para eleger um deputado, o próprio processo da eleição já seria uma tribuna importante.

A preocupação fundamental dos revolucionários deve ser a separação da classe operária da burguesia, a delimitação permanente, achar e aplicar a política que permita avançar em direção à independência da classe operária e à revolução. É necessário mostrar os interesses diferentes, a necessidade dela ser uma classe independente. Por esse motivo, nunca devemos chamar a votar em candidatos de partidos burgueses ou em candidatos pequeno-burgueses e burgueses de esquerda, mesmo que se apresentem sob o rótulo de “socialistas”.

Sobre a questão nacional e a luta democrática há duas” soluções, a da burguesia e a operária. Há políticos que estão vinculados à luta operaria, apesar da política burguesa. Os únicos candidatos do nacionalismo burguês latino-americano em quem os revolucionários operários poderiam chamar a votar, neste momento, seriam Lula e Evo Morales, pois ambos têm raízes vinculadas às lutas operárias e camponesas. Mesmo assim trata-se de uma questão meramente tática que deve ser analisada, caso a caso, no sentido da evolução da luta revolucionária pela independência da classe operária.

O ideal seria lançar um candidato proletário próprio, levando em conta que as eleições burguesas, sob o ponto de vista marxista, não passam de uma tribuna propagandística. É neste sentido que os revolucionários deveriam estar trabalhando para estas eleições, ou em vista ao futuro, independentemente de ter poucos votos.

Encarando o processo eleitoral como uma tribuna, é preciso focar-se na divulgação do programa revolucionário ao invés de “eleger um deputado de esquerda” como propõe, por exemplo, a frente de esquerda argentina ou brasileira.

A política da frente de esquerda é uma política centrista, oportunista e focada em questões eleitorais que visa mostrar um tamanho, desses grupos, numericamente maior. Não tem nada a ver com a política de frente única operária e anti-imperialista da III e da IV Internacional, nem com a experiência revolucionária prática posterior, por exemplo, a da revolução boliviana de 1952.