MACRI E OS FUNDOS ABUTRES

ARGENTINA

A QUEM BENEFICIA O ACORDO? O QUE MOSTRA EM RELAÇÃO AO BRASIL?

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Segundo o acordo realizado pelo governo de Maurício Macri com os chamados fundos abutres, a Argentina deverá pagar US$ 4,5 bilhões até o dia 14 de abril deste ano. Esse valor representa 75% do valor cheio dos títulos renegociados pelo governo Nestor Kirchner, que conseguiu estabilizar a Argentina no início da década passada, quando o país entrou em colapso e declarou a moratória de US$ 88 bilhões da dívida pública, após as nefastas políticas neoliberais aplicadas principalmente pelos governo Menem.

A direita neoliberal propagandeia que com esse “brilhante” acordo a Argentina conseguirá “voltar aos mercados”, obtendo novos empréstimos. Na realidade, o governo Macri já está encaminhando o lançamento de novos US$ 15 bilhões em títulos públicos. E para onde irá esse dinheiro?

A Argentina nem sequer sentirá o cheiro desses recursos. O destino será US$ 6,5 bilhões adicionais para os especuladores norte-americanos e o restante para os especuladores europeus.

 

QUEM APOIA MACRI?

 

Em primeiro lugar, o governo Macri conta com o apoio do imperialismo, dos monopólios, e faz parte dos governos direitistas do México, encabeçado por Peña Nieto, e da Colômbia, encabeçado por Juan Manuel Santos.

Não por acaso, uma das primeiras medidas do novo governo de Macri foi isentar de impostos as exportações do chamado agronegócio, beneficiando, em primeiro lugar, à Monsanto.

No Congresso, o macrismo (88 deputados) negocia o apoio da fração peronista ligada ao peronista e ex candidato presidencial Sérgio Massa (37 deputados), do Frente de Renovação. A única diferença com Massa é que este exige que o teto da dívida seja aumentado em US$ 11 bilhões e não em US$ 15 bilhões, além de buscar maior participação no governo.

Os governadores peronistas e kirchneristas se transformaram em base de apoio direta de Macri. A disputa se concentra no percentual dos repasses do governo central para as províncias. Hoje esse repasse representa 15% do orçamento federal e Macri pretende reduzi-lo para 0% até 2021. Os governadores pedem uma compensação por meio do aumento dos repasses para obras de infraestrutura.

 

O KIRCHNERISMO E MACRI

 

A direção do kircherismo está paralisada. O objetivo é favorecer a “governabilidade”, e principalmente evitar acirrar o descontentamento social e “deixar a Macri governar”. Cristina Kirchner se “auto-exilou” na província de Santa Cruz (sul da Argentina).

A tentativa de confrontar a Macri no Congresso ficou complicada. Alguns congressistas da Frente para a Vitória estão se “bandeando” para o macrismo (casos Diego Bossio e Oscar Romero).

As bases do kirchnerismo pressionam por uma reação contra as medidas reacionárias e o ajuste macrista. La Campora (juventude kirchnerista), apesar do papel de contenção, participa dos protestos de rua, como não poderia deixar de faze-lo devido ao risco do kirchnerismo se implodir.

A esquerda argentina se opõe ao kirchnerismo e ao macrismo. Mas se trata de uma esquerda com escassos vínculos com a classe operária.

Os trabalhadores estão controlados pela burocracia sindical peronista, mesmo que rachada em meia dúzia de centrais, incluindo as duas CTA, mas que conta com representação fundamentalmente no funcionalismo.

Mas o rápido aprofundamento da crise coloca a Argentina na linha de frente da crise capitalista mundial. Sobre esta base, a classe operária argentina, com os poderosos sindicatos nacionais e a tradição de luta deverá colocar-se em movimento

 

O MACRISMO E O BRASIL

 

A política macrista representa o modelo que o imperialismo tenta impor na América Latina. As políticas passam por uma nova onda de ataques neoliberais, mas as bases materiais para isso se encontram muito enfraquecidas, o que coloca o governo Macri como um governo de crise.

A dívida pública foi transformada no eixo da espoliação financeira e a pressão neste sentido continua aumentando.

O kirchnerismo atua de maneira muito parecida com o governo do PT: abundante capitulação e cretinismo parlamentar, e contenção do “radicalismo” que, na prática, implica em canalizar o descontentamento social para os mecanismos parlamentares e evitar a organização independente dos trabalhadores.

Mas a carta dos governos semi nacionalistas latino-americanos atuais está sendo descartada pela burguesia devido à impossibilidade deles aplicarem um ajuste truculento contra os trabalhadores. A atual onda de nacionalismo burguês, que surgiu sobre o colapso do neoliberalismo, deverá se implodir no próximo período e ser ultrapassada pelas massas. Um novo nacionalismo, ainda mais radical deverá surgir, principalmente sobre a pressão da inevitável mobilização da classe operária.

Devem aumentar as tendências pela formação de um partido operário revolucionário, independente de todos os setores da burguesia.

ELEIÇÕES ARGENTINA – 2O TURNO (3) – O FIM DO MERCOSUL?

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Uma das políticas que Macri deverá aplicar no terreno internacional passa pela tentativa de desmontar os blocos que, em alguma medida, se opõem aos interesses do imperialismo. Macri declarou que, na reunião cume do Mercosul, que acontecerá no dia 21 de dezembro, pressionará para que seja aplicada a “cláusula democrática” contra o governo venezuelano “pelos abusos na perseguição aos opositores e à liberdade de expressão”. Macri se refere ao conhecido elemento da extrema direita venezuelana Leopoldo López, que se encontra preso devido à participação em tentativas de promover um golpe de estado no país. O governo de Nicolás Maduro não seria compatível “com o compromisso democrático que assumimos os argentinos”.

O verdadeiro objetivo de Macri será desmontar o Mercosul para promover acordos comerciais direitos com a Europa e os Estados Unidos. O primeiro passo será acelerar esses acordos por meio do bloco. O governo Kirchner tinha sido o principal acordo para avançar nesse sentido devido à ameaça de desmantelar, ainda mais, a produção local.

O governo de Cristina Kichner foi colocado contra as cordas por causa do aprofundamento da crise capitalista e a incapacidade de romper com o aperto da espoliação imposta pelo imperialismo norte-americano, em primeiro lugar.

Com Macri a política do governo argentino tenderá a um alinhamento maior com as políticas neoliberais que os monopólios buscam impor, principalmente em relação ao ajuste e contra o “bolivarianismo”, a China, a Rússia e o Brasil.

 

A CRISE CAPITALISTA A POLÍTICA DO “SALVE-SE QUEM PUDER”

 

A Argentina foi um dos países que saiu à frente no processo de aprofundamento da crise capitalista mundial, impactada pela crise no Brasil e a queda dos preços das matérias primas no mercado mundial por causa da crise na China. A queda do comercio com o Brasil no ano passado foi de mais de 25%, à que deverá se somar um percentual ainda maior neste ano. Esse é o motivo do desespero da burguesia argentina que busca desesperadamente outros mercados. Por causa do sucateamento da produção manufatureira, o foco dos “novos parceiros” será, inevitavelmente, o aumento do modelo de produção de matérias primas e da importação de produtos manufaturados. No médio prazo, essa política deverá levar ao aumento do desemprego, por causa do fechamento das indústrias, e à inflação por causa da crescente dependência das importações.

A pressão da especulação financeira foi muito além dos “fundos abutres”. Há uma grande fuga de capitais, um alto déficit público, o crescente aumento do endividamento público e privado, a queda das exportações e a forte queda das reservas soberanas, que hoje somam apenas US$ 26 bilhões.

A pressão dos fundos abutres colocou uma pressão sobre o governo argentino de US$ 9 bilhões. A inflação semi oficial na Argentina se encontra em aproximadamente 30% ao ano. Só uma desvalorização do peso dos atuais 9,50 por dólar para 14 elevaria a inflação para 40%.

Macri aumentou a tarifa do Metrô de Buenos Aires a partir de 2012, de 1,10 pesos para 4,50 hoje. Se calcula que hoje deixem o país em torno de US$ 700 milhões por mês.

O governo Macri buscará relaxar as restrições contra as importações e a liberalização do câmbio, o que provocará uma mega desvalorização. Essa política, junto com o fim dos subsídios sobre os serviços públicos, como o transporte público, a energia elétrica, o gás e a água encanada, e a redução dos programas sociais, levará, inicialmente, a um enorme repasse da crise sobre os trabalhadores. A seguir as políticas recessivas deverão provocar o sensível aumento da pauperização dos trabalhadores argentinos, fazendo relembrar a situação que levou ao Argentinazo em 2001.

Até 2017 o Congresso estará dividido. A coalisão direitista terá 201 vagas, 109 do Frente Por La Victoria e 92 de Cambiemos, o que obrigará a ampliar a aliança com setores da direita do peronismo e da centro esquerda, tal como o tem feito na cidade de Buenos Aires e nas Províncias. Em 2017, no ano seguinte às eleições nos Estados Unidos, acontecerão as eleições legislativas na Argentina, onde a pressão do imperialismo deverá aumentar muito mais. Estarão em jogo 257 vagas na Câmara dos Deputados.

SÉRIE SOBRE AS ELEIÇÕES NA ARGENTINA, 2o. TURNO

1- Macri: Democracia neoliberal a la Obama

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-1-macri-democracia-neoliberal-a-la-obama/

2- Golpe de estado na América Latina

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-2-golpe-de-estado-na-america-latina/

3- O fim do Mercosul?

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-3-o-fim-do-mercosul/

4- Crise política na Argentina e na América Latina

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-4-crise-politica-na-argentina-e-na-america-latina/

 

ELEIÇÕES ARGENTINA – 2O TURNO (2) – GOLPE DE ESTADO NA AMÉRICA LATINA?

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Com a vitória de Maurício Macri, a estratégia da Administração Obama para a América Latina conseguiu ser imposta na Argentina, a segunda maior potência da América do Sul, atrás do Brasil. A política neoliberal de alta intensidade pela via “democrática” ganhou um novo fôlego. Essa política segue o modelo do México, onde a Administração Obama impôs uma direita reciclada, encabeçada por Peña Nieto, do PRI (Partido Revolucionário Institucional), com o objetivo de privatizar Petróleos Mexicanos, Pemex, (o que já foi feito), o setor elétrico (o que está sendo encaminhado), a educação pública (o que tem enfrentado enorme pressão contrária por parte da população) e a reforma trabalhista (que já foi feita).

A política encabeçada por Obama agora conta com o México, a Colômbia e a Argentina para servirem como ponta de lança contra os governos nacionalistas da América do Sul, a começar pelo Brasil.

A política do golpe aberto continua desescalada, embora não eliminada, e em velocidade cruzeiro. No Equador, foi enviado o Papa há três meses para conter a histeria direitista. Na Venezuela, a direita histérica está relativamente “tranquila”, na comparação do que tem acontecido nos últimos anos, a apenas duas semanas das eleições que acontecerão no dia 6 de dezembro. A Administração Obama pressiona pela incorporação da direita ao governo. O governo Maduro, apesar da retórica, tem buscado uma saída negociada com o líder da MUD, que agrupa a direita, Hugo Capriles. A pressão sobre o governo Maduro tem aumentado pela ameaça da direita de desconhecer as eleições caso “haja fraude”, o que equivale a dizer caso os resultados não lhe sejam favoráveis.

A direita tradicional norte-americana, encabeçada por Obama, disputa contra a direita truculenta do Tea Party, agrupada no Partido Republicano, o fortalecimento da dita “contrarrevolução democrática” no contexto das eleições presidenciais que acontecerão em 2016. A prioridade se tornou a estabilização do Oriente Médio, o principal ponto de conflito em escala mundial. Por esse motivo, o conflito na Ucrânia, da mesma maneira que aconteceu com as tensões no Mar do Sul da China e na América Latina, foi desescalado.

O desenvolvimento da situação política depende do aprofundamento da crise capitalista mundial, que tende a avançar de maneira acelerada sobre os países centrais no próximo período arrastando o mundo inteiro para um colapso de proporções gigantescas. A burguesia imperialista continua fortalecendo a carta da extrema direita para usa-la no momento em que as outras alternativas se esgotarem. Um ponto chave da evolução política mundial serão as eleições do próximo ano nos Estados Unidos.

 

OS GOVERNOS NACIONALISTAS BURGUESES, ENGRENAGENS DA DIREITA

 

O principal responsável pela vitória de Macri foi o governo Kirchner com a política de capitulação ao imperialismo. A base eleitoral do kirchnerismo foi rachada pela pressão dos monopólios. Uma ala direita, encabeçada por Daniel Scioli, Sergio Berni (um elemento ligado à ditadura militar e que tem ocupado vários cargos no primeiro escalão dos governos kirchneristas), Granados e vários governadores kirchneristas, acabou se aproximando das políticas da direita e ficando à cabeça do kirchnerismo. O governo acompanhou essa virada, ele mesmo criando as bases para os ataques contra os trabalhadores, o ajuste.

Com o objetivo de evitar explosões sociais, o governo de Cristina tem mantido subsídios sobre os serviços públicos que consomem 4% do PIB e que a burguesia considera como os vilões do esvaziamento das reservas internacionais. O déficit público esperado para este ano é de 8% do PIB. A direita, e inclusive a direita do kirchnerismo, busca reduzir sensivelmente esses subsídios e aumentar o direcionamento dos recursos públicos para o pagamento da ultra corrupta dívida pública e outros mecanismos especulativos.

O programa de Macri representa “mais do mesmo” neoliberalismo a la Menen. Uma maior desvalorização do peso, o aumento do direcionamento dos recursos públicos para a especulação financeira e o corte dos subsídios com aumentos brutais das tarifas dos serviços públicos. A recessão industrial deverá acelerar, assim como também aumentará a entrega dos recursos naturais para os monopólios, principalmente o petróleo, o gás e a agropecuária. A diferença entre Macri e Scioli é a intensidade, a velocidade, com que essa política seria aplicada.

O racha e a direitização do kirchnerismo estão na base do fortalecimento do macrismo, que venceu as eleições logo após de quase ter perdido o controle da Prefeitura da cidade de Buenos Aires. A capitulação dos governos nacionalistas burgueses ao imperialismo representam, na situação política atual, um dos principais componentes do avanço da direita que cria as condições para o fortalecimento do golpismo. Por esse motivo, é preciso denunciar essa capitulação e mobilizar os trabalhadores contra a escalada dos ataques.

SÉRIE SOBRE AS ELEIÇÕES NA ARGENTINA, 2o. TURNO

1- Macri: Democracia neoliberal a la Obama

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-1-macri-democracia-neoliberal-a-la-obama/

2- Golpe de estado na América Latina

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-2-golpe-de-estado-na-america-latina/

3- O fim do Mercosul?

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-3-o-fim-do-mercosul/

4- Crise política na Argentina e na América Latina

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-4-crise-politica-na-argentina-e-na-america-latina/