ELEIÇÕES ARGENTINA – 2O TURNO (4) – CRISE POLÍTICA NA ARGENTINA E NA AMÉRICA LATINA

 

 

A crise política na Argentina deve ser avaliada no contexto da crise política regional e mundial. O aprofundamento da crise capitalista mundial está levando à implosão dos regimes políticos de conjunto principalmente após os preços das matérias primas terem despencado. Ainda há a ameaça do aumento das taxas de juros nos Estados Unidos, que ainda poderá começar em dezembro, de acordo com as declarações da Reserva Federal norte-americana, e que deverá aumentar a fuga de capitais. Os fundos abutres na Argentina, os crescentes déficits públicos na Venezuela e a perda do “grau de investimento” no Brasil geraram uma situação tão explosiva que esses países poderão ser empurrados a declarar a moratória nos pagamentos dos serviços das respectivas dívidas públicas, nos moldes do que aconteceu na década de 1980. Por esse motivo, a burguesia de conjunto avalia a necessidade de escalar os ataques contra as massas, embora que com diferente intensidade.

De acordo com as pequisas, que, em grande medida, são controladas pela direita, o presidente Maduro deverá perder as eleições do dia 6 de dezembro até por 30% de diferença. Apesar dos, possíveis e prováveis, exageros é evidente que há um sensível aumento da pressão sobre o chavismo. A direita pede o controle da União Europeia contra os mecanismos eleitorais do governo, enquanto este recusa e só aceita a fiscalização da Unasul. A direita não reconhece esses mecanismos com o objetivo de aumentar a pressão contra o governo chavista.

O presidente Maduro declarou, recentemente, que está em marcha um golpe contrarrevolucionário a partir de 6 de dezembro. Essa é uma possibilidade que deverá ser acompanhada. Mas, o mais provável, é que Maduro, também pressionado por um setor do próprio chavismo, avance na direção de um acordo com a direita, da mesma maneira que o kirchnerismo está fazendo com Macri ou o governo do PT com a direita brasileira. Maduro tem buscado um diálogo com Hugo Capriles, o líder da MUD, enquanto a Administração Obama pressiona por um governo de coalisão que inclua a MUD.

Na Venezuela, 40% do orçamento público é destinado aos programas sociais, as Misiones. Esses recursos veem da receita do petróleo, cujo preço despencou no mercado mundial. E esses recursos é o que está no centro da disputa, assim como o controle das maiores reservas de petróleo em escala mundial. Situações militares, embora que com programas sociais muito menores, devido ao grau diferente de desenvolvimento da luta de classe, existe em toda a América do Sul.

O papel do presidente argentino eleito, o direitista Maurício Macri, é pressionar contra o Mercosul para avançar no sentido da incorporação da Argentina na Aliança Trans Pacífico e até na Otan, como aconteceu com a Colômbia. A Unasul, que inviabilizou os golpes de estado contra Evo Morales e Rafael Correia, deverá ser enfraquecida, assim como os demais organismos que, em alguma medida se opõem ao controle imperialista sobre a região.

O governo Maduro deve ser apoiado contra um golpe contrarrevolucionário por meio da mobilização popular. Mas o voto nas próximas eleições deve ser em branco. Além de se tratar de um governo burguês, a linha política de Maduro é a do pacto com a direita, da mesma maneira que acontece com os demais governos nacionalistas que, conforme a crise tem se aprofundado, têm aumentado a capitulação ao imperialismo.

 

CONTRA A DIREITA E A CAPITULAÇÃO DA ESQUERDA

 

Considerar que o kirchnerismo e o macrismo são a mesma coisa, como o faz uma boa parte da esquerda, a começar pela FIT (a frente de esquerda argentina), não é uma política orientada a ganhar a base popular do kirchenismo, mas, no sentido contrário, a entrega à direita. Na realidade, o segundo turno já mostra que há duas alas políticas que representam duas políticas em disputa. A burguesia rachou. Mas a linha do kirchnerismo é ir ao pacto com Macri, da mesma maneira que acontece no Brasil e na Venezuela.

Por outra parte, o segundo turno enfraqueceu ambas alas da burguesia e dificultou a hegemonia no aparato de estado burguês já que nenhuma das duas alas terá hegemonia, maioria própria. A pressão é para que seja estabelecido um governo de pacto social, de unidade social, que com a cumplicidade da burocracia sindical tente impor o ajuste contra a população.

Para lutar contra a direita é precisa lutar contra o kirchnerismo na Argentina e a capitulação do governo do PT ou do chavismo na Venezuela que buscam um acordo com a direita para escalar os ataques contra as massas.

O aprofundamento da crise deverá pressionar o racha da base popular, pela esquerda, do kirchnerismo.

É preciso denunciar Macri e a direita macrista latino-americana que está a serviço do imperialismo. E preciso denunciar os acordos e as capitulações dos governos nacionalistas com essa direita neoliberal. É preciso dizer que a única maneira de combater a escalada dos ataques é por meio da mobilização das massas, nas ruas.

SÉRIE SOBRE AS ELEIÇÕES NA ARGENTINA, 2o. TURNO

1- Macri: Democracia neoliberal a la Obama

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-1-macri-democracia-neoliberal-a-la-obama/

2- Golpe de estado na América Latina

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-2-golpe-de-estado-na-america-latina/

3- O fim do Mercosul?

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-3-o-fim-do-mercosul/

4- Crise política na Argentina e na América Latina

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-4-crise-politica-na-argentina-e-na-america-latina/

 

Anúncios

ELEIÇÕES ARGENTINA – 2O TURNO (2) – GOLPE DE ESTADO NA AMÉRICA LATINA?

1

 

Com a vitória de Maurício Macri, a estratégia da Administração Obama para a América Latina conseguiu ser imposta na Argentina, a segunda maior potência da América do Sul, atrás do Brasil. A política neoliberal de alta intensidade pela via “democrática” ganhou um novo fôlego. Essa política segue o modelo do México, onde a Administração Obama impôs uma direita reciclada, encabeçada por Peña Nieto, do PRI (Partido Revolucionário Institucional), com o objetivo de privatizar Petróleos Mexicanos, Pemex, (o que já foi feito), o setor elétrico (o que está sendo encaminhado), a educação pública (o que tem enfrentado enorme pressão contrária por parte da população) e a reforma trabalhista (que já foi feita).

A política encabeçada por Obama agora conta com o México, a Colômbia e a Argentina para servirem como ponta de lança contra os governos nacionalistas da América do Sul, a começar pelo Brasil.

A política do golpe aberto continua desescalada, embora não eliminada, e em velocidade cruzeiro. No Equador, foi enviado o Papa há três meses para conter a histeria direitista. Na Venezuela, a direita histérica está relativamente “tranquila”, na comparação do que tem acontecido nos últimos anos, a apenas duas semanas das eleições que acontecerão no dia 6 de dezembro. A Administração Obama pressiona pela incorporação da direita ao governo. O governo Maduro, apesar da retórica, tem buscado uma saída negociada com o líder da MUD, que agrupa a direita, Hugo Capriles. A pressão sobre o governo Maduro tem aumentado pela ameaça da direita de desconhecer as eleições caso “haja fraude”, o que equivale a dizer caso os resultados não lhe sejam favoráveis.

A direita tradicional norte-americana, encabeçada por Obama, disputa contra a direita truculenta do Tea Party, agrupada no Partido Republicano, o fortalecimento da dita “contrarrevolução democrática” no contexto das eleições presidenciais que acontecerão em 2016. A prioridade se tornou a estabilização do Oriente Médio, o principal ponto de conflito em escala mundial. Por esse motivo, o conflito na Ucrânia, da mesma maneira que aconteceu com as tensões no Mar do Sul da China e na América Latina, foi desescalado.

O desenvolvimento da situação política depende do aprofundamento da crise capitalista mundial, que tende a avançar de maneira acelerada sobre os países centrais no próximo período arrastando o mundo inteiro para um colapso de proporções gigantescas. A burguesia imperialista continua fortalecendo a carta da extrema direita para usa-la no momento em que as outras alternativas se esgotarem. Um ponto chave da evolução política mundial serão as eleições do próximo ano nos Estados Unidos.

 

OS GOVERNOS NACIONALISTAS BURGUESES, ENGRENAGENS DA DIREITA

 

O principal responsável pela vitória de Macri foi o governo Kirchner com a política de capitulação ao imperialismo. A base eleitoral do kirchnerismo foi rachada pela pressão dos monopólios. Uma ala direita, encabeçada por Daniel Scioli, Sergio Berni (um elemento ligado à ditadura militar e que tem ocupado vários cargos no primeiro escalão dos governos kirchneristas), Granados e vários governadores kirchneristas, acabou se aproximando das políticas da direita e ficando à cabeça do kirchnerismo. O governo acompanhou essa virada, ele mesmo criando as bases para os ataques contra os trabalhadores, o ajuste.

Com o objetivo de evitar explosões sociais, o governo de Cristina tem mantido subsídios sobre os serviços públicos que consomem 4% do PIB e que a burguesia considera como os vilões do esvaziamento das reservas internacionais. O déficit público esperado para este ano é de 8% do PIB. A direita, e inclusive a direita do kirchnerismo, busca reduzir sensivelmente esses subsídios e aumentar o direcionamento dos recursos públicos para o pagamento da ultra corrupta dívida pública e outros mecanismos especulativos.

O programa de Macri representa “mais do mesmo” neoliberalismo a la Menen. Uma maior desvalorização do peso, o aumento do direcionamento dos recursos públicos para a especulação financeira e o corte dos subsídios com aumentos brutais das tarifas dos serviços públicos. A recessão industrial deverá acelerar, assim como também aumentará a entrega dos recursos naturais para os monopólios, principalmente o petróleo, o gás e a agropecuária. A diferença entre Macri e Scioli é a intensidade, a velocidade, com que essa política seria aplicada.

O racha e a direitização do kirchnerismo estão na base do fortalecimento do macrismo, que venceu as eleições logo após de quase ter perdido o controle da Prefeitura da cidade de Buenos Aires. A capitulação dos governos nacionalistas burgueses ao imperialismo representam, na situação política atual, um dos principais componentes do avanço da direita que cria as condições para o fortalecimento do golpismo. Por esse motivo, é preciso denunciar essa capitulação e mobilizar os trabalhadores contra a escalada dos ataques.

SÉRIE SOBRE AS ELEIÇÕES NA ARGENTINA, 2o. TURNO

1- Macri: Democracia neoliberal a la Obama

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-1-macri-democracia-neoliberal-a-la-obama/

2- Golpe de estado na América Latina

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-2-golpe-de-estado-na-america-latina/

3- O fim do Mercosul?

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-3-o-fim-do-mercosul/

4- Crise política na Argentina e na América Latina

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-4-crise-politica-na-argentina-e-na-america-latina/

 

ELEIÇÕES ARGENTINA – 2O TURNO (1) – MACRI: “DEMOCRACIA NEOLIBERAL” A LA OBAMA

Eleicoes Argentina 2o turno 3

 

O direitista Maurício Macri, do Cambiemos (Vamos Mudar em português), derrotou, no segundo turno das eleições presidenciais, o candidato do governo de Cristina Kirchner, Daniel Scioli, do Frente para la Victória, por 51,4% dos votos contra 48,6%.

Agora, a direita passou a encabeçar o governo federal, a Prefeitura de Buenos Aires e a Província de Buenos Aires, onde o candidato de Scioli foi derrotado no dia 25 de outubro. Em 22 de novembro, Scioli obteve a maioria dos votos na Província de Buenos Aires.

Cambiemos é o sucessor do Compromiso por el Cambio (Compromisso pela Mudança em português), fundado por Macri em 2003, que deu origem ao PRO (Proposta Republicana) em 2005. Em 2007, Macri venceu as eleições para a Prefeitura da cidade de Buenos Aires, derrotando o kirchnerismo. Ele se beneficiou como então presidente do clube de futebol Boca Juniors, que tinha acabado de ganhar a Libertadores, e também pela expulsão de Ibarra do governo por causa do massacre do Cromanón. Macri foi reeleito quatro anos mais tarde.

O macrismo conseguiu aglutinar setores do peronismo e do radicalismo (a União Cívica Radical, que entrou em colapso em 2001). Em aliança com esses setores, tem aplicado uma política de terra arrasada na cidade de Buenos Aires, desde 2007, e também nas províncias em aliança com o “radicalismo” e o GEN (Generación para un Encuentro Nacional), liderado por Margarita Stolbizer.

 

UMA SAÍDA DE CONTENÇÃO DA CRISE FRACA

 

O “macrismo” aparece como uma saída fraca à crise capitalista argentina, pela direita, impulsionada pelo imperialismo. Seria a saída imperialista, impulsionada pela Administração Obama, contra os governos nacionalistas na América Latina. Para o próximo período, esta ala do imperialismo deve aumentar o impulso dessa política, principalmente, no Brasil, no Equador e na Venezuela, que já foi aplicada com sucesso no México e nas recentes eleições municipais na Colômbia, dois países de grande importância regional.

O calcanhar de Aquiles da política Obama, e do “macrismo”, reside em que as chances da “direita democrática” latino-americana para aplicar o plano de “ajuste” que os monopólios exigem são escassas. Por esse motivo, a continuidade do endurecimento do regime será inevitável, apesar de uma certa descompressão conjuntural. As eleições que acontecerão nos Estados Unidos, no próximo ano, e o grau do aprofundamento da crise capitalista representam dois dos principais fatores que poderão aumentar ou reduzir o fortalecimento da política abertamente golpista.

O próprio Macri, que no ano passado era repudiado como um “neoliberal”, mudou o discurso para se apresentar como um “renovador” que iria manter os aspectos positivos da política kirchnerista, como os programas sociais e as “nacionalizações” a la Kirchner.

O capitalismo não conseguiu colocar em pé uma política alternativa ao neoliberalismo que colapsou em 2008. Por esse motivo, os grandes capitalistas pressionam por maiores doses da política neoliberal. Nos elos mais fracos do sistema capitalista mundial, a desestabilização social gerada por essa política tende a se acelerar.

A crise tirou, em boa medida, a base social dessa direita latino-americana, que agora aparece como uma espécie de zumbi cuja política quase exclusiva é o aumento da entrega dos respectivos países ao imperialismo. A desagregação do regime político reflete o aprofundamento da crise em escala mundial. Uma evolução semelhante, e anterior, pode ser observada nos países mediterrâneos da Europa. Na Espanha, por exemplo, o bipartidarismo está dando lugar a vários partidos, integrados ao regime, onde o “Ciudadanos” tenta colocar em pé uma alternativa direitista “pragmática”, um verdadeiro vale tudo perante o fortalecimento contraditório de Podemos (o Syriza espanhol), para as eleições que acontecerão no dia 20 de dezembro.

A divisão interna da burguesia dificulta a formação de uma frente única que consiga aplicar uma nova onda de políticas neoliberais, tal como foi feito por Menem (1989-1999) na Argentina e por FHC (1995-2003) no Brasil.

Macri tenta impulsionar uma coalisão “neoliberal” incluindo a ala direita do peronismo e do kirchnerismo que inclui os governadores, os setores ligados a Sergio Massa, o candidato derrotado no primeiro turno, e parte da burocracia sindical. Essa aliança deverá ser implodida com a ascensão do movimento de massas.

A atomização do Congresso facilitará a ação da direita turbinada pelo dinheiro dos monopólios. O kirchnerismo deverá continuar como uma força importante, pois ainda conta com a força de choque juvenil, a Campora, e fortes laços com a burocracia sindical e estatal, e com setores da burguesia argentina.

 

SÉRIE SOBRE AS ELEIÇÕES NA ARGENTINA, 2o. TURNO

1- Macri: Democracia neoliberal a la Obama

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-1-macri-democracia-neoliberal-a-la-obama/

2- Golpe de estado na América Latina

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-2-golpe-de-estado-na-america-latina/

3- O fim do Mercosul?

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-3-o-fim-do-mercosul/

4- Crise política na Argentina e na América Latina

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-4-crise-politica-na-argentina-e-na-america-latina/