França – O GRANDE PERDEDOR FOI O REGIME POLÍTICO

ELEIÇÕES REGIONAIS NA FRANÇA

 

00

 

No domingo 13 de dezembro, aconteceu o Segundo turno das eleições regionais na França.

A Frente Nacional, que tinha chegado à frente em seis das 13 regiões em disputa, acabou derrotada nas 13 regiões. Em princípio, essas derrotas poderiam ser interpretadas como um recuo da extrema direita. Mas está longe de ter sido isso. O número de votos obtido pela Frente Nacional passou de seis milhões, no primeiro turno, para 6,6 milhões no segundo turno, um aumento de seiscentos mil votos.

O bipartidarismo está com os dias contados, o que reflete o enfraquecimento do regime político e o aumento das dificuldades da burguesia para controlar o estado.

O grande vencedor foi o Partido Republicano, liderado pelo ex presidente Nicolás Sarkozy, com a vitória em sete regiões, inclusive nas duas onde tinham triunfado por longa distância, no primeiro turno, Marine Le Penn, a líder da Frente Nacional, e a sobrinha de Marine. Mas ao mesmo tempo, o Partido Republicano foi o grande derrotado, pois preciso da ajuda direta do PSF (Partido Socialista Francês). A política impulsionada por Sarkozy tinha como objetivo acelerar a adoção de políticas mais direitistas com o objetivo de crescer eleitoralmente às custas da Frente Nacional. Desta maneira, o triunfo de Sarkozy foi uma espécie de vitória de Pirro.

O Partido Socialista Francês venceu em cinco das regiões, o que representou uma grande queda em relação às 12 regiões que governava no período anterior. Em Córsega, a esquerda foi derrotada por um partido regional separatista.

As próximas eleições que acontecerão na França serão as eleições presidenciais, no ano próximo. A Frente Nacional tende a continuar concentrando a extrema direita por meio de políticas abertamente fascistoide e com o crescente apoio financeiro dos monopólios. A fortalecimento da extrema direita representa a política desesperada da burguesia imperialista por causa do acelerado aprofundamento da crise capitalista.

O movimento operário francês ainda não acordou do longo sono neoliberal. Mas as tradições de luta são de longa data e as organizações da classe operária são poderosas e de caráter nacional.

A esquerda francesa, assim como acontece com a esquerda mundial, ou bem se encontra integrada ao regime burguês ou está desligada do movimento de massas e envolvida em enorme confusão. As massas trabalhadoras deverão entrar em movimento no próximo período impulsionadas pela crise capitalista. Na Europa, a crise avança a passos largos sobre o coração do capitalismo europeu, a Alemanha, que também conta com uma classe operária poderosíssima. Esta será a base para o surgimento de uma nova esquerda revolucionária na Europa e no mundo.

 

 

 

FRANÇA – O GRANDE VENCEDOR, A EXTREMA DIREITA

FRANÇA – ELEIÇÕES REGIONAIS

FRANÇA

 

No domingo 6 de dezembro, o centro das atenções da política mundial esteve dividido entre a Venezuela e a França. Enquanto, o chavismo era colocado contra as cordas pela direita truculenta nas eleições legislativas, na França, a extrema direita, agrupada na Frente Nacional, foi a grande vencedora no primeiro turno das eleições regionais. As eleições aconteceram sob o estado de exceção que foi impostos após os recentes atentados terroristas de Paris.

De acordo com os resultados ainda parciais do Ministério do Interior, a FN (Frente Nacional) obteve quase 30% dos votos nas 13 regiões eleitorais em disputa, chegando na frente em seis delas. O crescimento foi gigantesco, na comparação com o primeiro turno das eleições regionais de 2010, quando tinha obtido 11,42%. A FN passou ao segundo turno em oito regiões e ficou em primeiro lugar em seis delas.

O Partido Republicano, liderado pelo ex presidente Nicolás Sarkozy, aliado ao MoDem e a UDI, obteve em torno de 2% de votos que a FN, um leve crescimento em relação à votação obtida em 2010. Chegou na frente em quatro regiões e passou ao segundo turno em 10 das 13 regiões. Das 22 regiões existentes hoje, somente governa uma, Alsácia. Mas com os resultados eleitorais obtidos poderá aumentar consideravelmente o número de regiões governadas, principalmente se contar com o apoio do PSF, que já se manifestou a favor de uma frente única contra a extrema direita nas regiões onde ela tiver chances de ganhar. Sarkozy se manifestou contra uma aliança com o PSF para o segundo turno, mas gerou posicionamentos em sentido contrário dos demais componentes da aliança.

O PSF (Partido Socialista Francês), do presidente François Hollande, que controlava 12 das 13 regiões em disputa, e 21 das 22 regiões totais, obteve, em aliança com o PRG e outros grupos menores, quase 23% dos votos, e chegou na frente em duas províncias. O PSF foi o grande derrotado.

A esquerda anti-capitalista e os ecologistas chegaram na frente em Córcega.

Dos 44 milhões de eleitores habilitados, o abstencionismo somou 60%.

O segundo turno acontecerá no próximo domingo, 13 de dezembro. Serão as últimas eleições antes das eleições presidenciais de 2017.

 

QUAL É O SIGNIFICADO DAS ELEIÇÕES REGIONAIS FRANCESAS?

 

As eleições aconteceram a apenas 18 meses das eleições presidenciais e após três semanas dos atentados terroristas de Paris que deixaram um saldo de 130 pessoas mortas e pelo menos 350 feridos.

O resultado representa um forte giro à direita do regime político francês. Apesar da direita tradicional, encabeçada pelo ex presidente Nicolás Sarkozy, ter passado ao segundo turno na maioria das regiões, o principal fato é o forte crescimento da extrema direita, que não somente chegou à frente na maioria das regiões em disputa, mas também ditou à pauta eleitoral. A direita liderada por Sarkozy adotou algumas das bandeiras da extrema direita, da mesma maneira que o tinha feito em 2012.

A bancarrota da socialdemocracia se expressa pela forte perda eleitoral, inclusive em centros operários, apesar da virada direitista que se intensificou após a nomeação do primeiro ministro Manuel Valls. O aumento dos ataques contra os trabalhadores e os ataques contra as liberdades democráticas acabou gerando o repúdio da população, principalmente da base eleitoral de apoio entre os trabalhadores. A região de Nord Pas de Calais Picardie, onde Marine Le Penn ganhou de lavada, é uma região operária tradicionalmente ligada ao PSF e ao PCF.

Há uma clara movimentação da burguesia imperialista no sentido de endurecer o regime político. Os governos regionais, na França, controlam os portos, aeroportos, o transporte público local e as escolas municipais. Mas a importância vai muito além dessas questões.

O aprofundamento da crise capitalista na Europa e no mundo tem colocado em xeque os lucros dos grandes capitalistas. A França se encontra a anos luz da potência e da estabilidade social estabelecida nas três décadas seguintes à Segunda Guerra Mundial. O mesmo acontece nas demais potências europeias, na Inglaterra, na Itália e na Espanha. Os estados nórdicos também enfrentam problemas estruturais sérios, que aparecem principalmente na Suécia e na Finlândia. E o problema ainda mais crítico é que a crise escalou na coluna vertebral da Europa, na Alemanha.

A Alemanha entrou em recessão industrial. O principal banco alemão, o Deutsche Bank também entrou em situação falimentar.

A principal empresa alemã, a Volkswagen foi atingida em cheio pelas denuncias, que tiveram como origem os Estados Unidos, sobre a fraude dos índices da contaminação ambiental. Este fato revelou o aparecimento de rachaduras mais sérias na frente única imperialista colocada em pé, sob a hegemonia do imperialismo norte-americano, após a Segunda Guerra Mundial. Por trás, estava a tentativa dos Estados Unidos de conter a aproximação da Alemanha com a Rússia e, fundamentalmente, com o novo eixo impulsionado pelo Novo Caminho da Seda chinês.

A crise econômica está na base do regime político que avança em todo o mundo. A burguesia tenta impulsionar a extrema direita como carta a ser usado quando todos os outros instrumentos de controle do poder tenham fracassado.

 

A EVOLUÇÃO À DIREITA DOS RESULTADOS ELEITORAIS REGIONAIS

 

Marine Le Pen, a presidente da Frente Nacional, conquistou, na região nórdica de Nord Pas de Calais Picardie, 43% dos votos . Uma “coincidência” é que a região de Calais se encontra localizada na porosa fronteira com a Bélgica, que ali chegou uma grande quantidade de refugiados e que dali procediam uma parte dos terroristas. Le Pen disputará o segundo turno com Christian Estrosi, do Partido Republicano, aliado ao MoDem e a UDI, que obteve pouco mais de 26% dos votos; o PSF obteve apenas 16,11%.

Marion Marechal Le Pen, a sobrinha de Marine, conquistou, na região do sul de Provence Alpes Côte d’Azur, 41,7% dos votos. Disputará o segundo turno com Xavier Bertrand, do Partido Republicano. O PSF obteve 17,67%.

Em Alace Lorraine Champagne Ardenne, a FN obteve mais de 36% dos votos, do Partido Republicano, aliado ao MoDem e a UDI, obteve quase 26% dos votos e o PSF mais de 16%. Aqui a FN concorreu com o vice presidente do Partido, Florian Philippot.

Em Bourgogne Franche Comté, a FN obteve 31,48% dos votos, o Partido Republicano, aliado ao MoDem e a UDI, 24% e o PSF 23%.

Em Centre Val de Loire, a FN obteve 30,49% dos votos, o Partido Republicano, aliado ao MoDem e a UDI, 26,25% e o PSF 24,31%.

Em Languedoc Roussillon Midi Pyrénées, a FN obteve 32,65% dos votos, o PSF 24% e o Partido Republicano, aliado ao MoDem e a UDI, 18,63%.

O Partido Republicano, em aliança com o MoDem e a UDI, chegou em primeiro lugar em Ilê de France, a mais populosa do país, com 12 milhões de habitantes, onde disputará o segundo turno com o PSF e aliados.

A Frente Nacional também passou ao segundo turno em Auvergne Rhône Alpes, onde obteve por volta de 26% dos votos. O Partido Republicano, aliado ao MoDem e a UDI, venceu com 29,5% enquanto o PSF obteve 24,2%.

Na Normandie, a FN foi ao segundo turno com quase 28% dos votos. O Partido Republicano, aliado ao MoDem e a UDI, venceu por uma diferença de décimos percentuais enquanto o PSF obteve menos de 24%.

O PSF (Partido Socialista Francês)

 

O COLAPSO DO REGIME POLÍTICO FRANCÊS

 

O fortalecimento da extrema direita tem acontecido de maneira semi camuflada, mas, no fundamental, continua sendo a mesma direita fascista de sempre. Apesar da tentativa desses partidos de camuflar a sua política, se tirarmos a palavra imigrantes ou muçulmanos e colocarmos no lugar “judeu”, a diferença com o fascismo ou o nazismo passará a ser mínima.

A Frente Nacional francesa é o partido de extrema direita mais forte da Europa e agora está sendo alavancado para a frente do cenário político francês oficial.

O presidente François Hollande foi eleito em cima de um programa de crescimento, contra as políticas de austeridade. Seis meses depois da eleição presidencial, o PSF (Partido Socialista Francês) passou a controlar o parlamento com a maioria absoluta. Hollande até tentou. Ele fez algumas negociações com a chanceler alemã, Angela Merkel, mas desistiu o “crescimento” rapidamente e se converteu, ele próprio, num dos paladinos da austeridade. No ano passado, conforme a crise continuou se aprofundando, colocou com primeiro ministro um elemento da ala direita do PSF que se confunde com a direita ligada a ex presidente Nicolás Sarkozy, Manuel Valls.

A queda eleitoral do PSF reflete o colapso da alternativa socialdemocrata na atual situação política. Sarkozy tenta reciclar a direita tradicional, agrupada na UMP (Unidade por um Movimento Popular), mudando o nome para Partido Republicano, apertando os controle sobre a ala de extrema direita, liderada por Copé, e adotando parte das bandeiras da extrema direita. Essa movimentação, que já tinha sido ensaiada nas eleições gerais anteriores, pelo próprio Sarkozy, foi acelerada após a crise dos refugiados na Europa que colocou em xeque não somente o governo Hollande, mas também a direitista CDU/CSU alemã, liderada por Angela Merkel.

De acordo com as pesquisas eleitorais, a Frente Nacional deverá passar ao segundo turno nas próximas eleições presidenciais.

 

FRENTE ÚNICA DA DIREITA IMPERIALISTA TRADICIONAL?

 

Com o fortalecimento da extrema direita francesa, cresce na França a pressão da ala direita do PSF, com o próprio Manuel Valls à cabeça, e dos Republicanos de Sarkozy para a formação de uma “Grande Coalizão” entre ambos partidos, uma versão a la alemã, com o objetivo de enfrentar a Frente Nacional.

O problema dessa política é que ela chega em momento em que a burguesia aparece dividida por causa da crise econômica. O próprio Sarkozy é contrário à “Grande Coalizão” e tenta se fortalecer em cima do espólio da socialdemocracia.

O que está colocado é como salvar os lucros, como aplicar o ajuste contra a classe operária. A burguesia sabe que a socialdemocracia tem limitações na aplicação dessa política, apesar de que consegue com maior facilidade do que os outros manter o controle das massas. Sarkozy já poderia avançar mais forte contra os trabalhadores, e poderia usar o PSF como muleta de contenção das massas. Mas quem poderia aplicar o ajuste ao “belo prazer” é a extrema direita. O problema é que essa política conduz, inevitavelmente, ao acirramento das contradições sociais. Por esse motivo, a burguesia imperialista continua alimentando os seus pitch bulls, mas, como sabe que pode facilmente perder o controle e incendiar o país, a Europa e o mundo, somente os colocará em cena quanto não houver outra opção.

FRANÇA1