PREVISÕES PARA 2016 – Parte 10 – A AMÉRICA LATINA (6)

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A CRISE DO MERCOSUL

 

O aprofundamento da crise dos dois principais países do bloco, o Brasil e a Argentina, aumentará as rachaduras que têm se acentuado com a eleição de Maurício Macri na Argentina.

A América Latina foi atingida em cheio pelo aprofundamento da crise capitalista mundial. O imperialismo norte-americano impõe o aumento da espoliação dos recursos da região na tentativa de salvar os lucros dos monopólios. Os déficits públicos aumentaram de maneira acelerada. Os ataques contra os trabalhadores têm crescido e desgastado todos os governos. Esta é a base principal das derrotas eleitorais do kirchnerismo na Argentina.

O nacionalismo burguês tem buscado acordos com o imperialismo na tentativa de conter a crise. E o imperialismo tem tentado impulsionar a saída neoliberal. Mas se trata de um “neoliberalismo” de crise que nem sequer conseguiu colocar em pé a frente única que foi típica dos anos de 1990. A burguesia está dividida.

Manter os programas sociais nos níveis atuais é inviável por causa da queda dos recursos para sustenta-los. A aplicação das políticas neoliberais deve ser dosada por causa do período da aceleração do descontentamento social. Da mesma maneira, o Mercosul se encontra entre a espada e a parede. Como bloco tenta aumentar os acordos comerciais internos, mas, por causa da crise, precisa amplia-los para as demais potências. O problema é que os novos acordos abrem flancos e implicarão na entrega de setores estratégicos. Mas para onde correr? As alternativas são cada vez menores?

A tendência é ao aumento das tendências corrosivas no Mercosul a partir dos acordos com a União Europeia, os Estados Unidos e a Aliança Trans Pacífico. Mas essa tendência só poderá avançar de maneira contraditória, por meio de crises políticas e pelo surgimento de novos setores nacionalistas a partir do rompimento dos blocos atuais.

Na Argentina, as políticas neoliberais aplicadas pelo governo Macri tendem a entrar em crise rapidamente e a colocar o governo contra a parede conforme a crise continuar se aprofundando e deteriorando as condições de vida dos trabalhadores.

À já concedida isenção de impostos ao “agronegócio” e à entrega das reservas petrolíferas de Vaca Muerta aos monopólios norte-americanos, se somará o repasse de recursos para os fundos abutres, credores da dívida pública. O problema é que para viabilizar esses recursos o governo será obrigado a aumentar os ataques contra as massas.

A redução do gasto público será traduzido na redução dos gastos sociais e dos investimentos públicos.

O peso argentino continuará sendo desvalorizado, o que impulsionará a inflação a partir das importações. Por esse motivo, várias taxações aos produtos importados não poderão ser removidas.

Macri conseguirá manter, neste ano, o apoio da ala direita do kirchnerismo, principalmente dos governadores, e de outros setores do peronismo, como o liderado pelo ex candidato presidencial Sergio Massa, além de parte da burocracia sindical, como o ligado à central liderada por Moyano. Mas conforme a crise continuar avançando, principalmente, por causa da pressão internacional, a base de apoio ao governo deverá rachar.

Neste ano, a crise deverá criar o fermento para que se repita um novo Argentinazo no próximo ano.

Macri tentará avançar no sentido da aproximação com os Estados Unidos e a União Europeia em muito maior velocidade que os demais países do Mercosul. Mas devido à profundidade da crise e aos acordos já estabelecidos, a virada acontecerá de maneira gradual.

No Brasil, a nova equipe econômica, encabeçada por Barbosa, manterá a essência das políticas anteriores, do banqueiro Joaquim Levy. Essas políticas anti-povo, que buscam manter os lucros das grandes empresas, mantendo a estabilidade social, passam também pela maior aproximação com os Estados Unidos e a União Europeia. Mas o governo Dilma manterá a política geral em relação ao Mercosul que continua como destino importante das exportações brasileiras, mesmo apesar da crise na Argentina. A existência do Mercosul facilita os acordos de conjunto com outros blocos e instrumentos locais, como a União Euroasiática, a OCX (Organização de Cooperação de Xangai) e os bancos regionais.

A recessão industrial, o aumento do desemprego e da inflação acelerarão a política do “salve-se quem puder”. O Mercosul deverá se enfraquecer neste ano, mas ainda não morrerá.

No Uruguai, a crise continuará acelerando, com o crescente aumento da carestia de vida. O governo da ala direita da Frente Ampla, encabeçada pelo Dr. Tabaré Vázquez, tentará acelerar a aproximação com os Estados Unidos e a Europa. Sem conseguir romper com o Mercosul, procurará avançar em todos os sentidos possíveis, inclusive aderindo à nova política norte-americana da Aliança Trans Atlântica.

O certo sucesso da economia promovido em cima da depredação do país por meio do cultivo de soja transgênica e de eucaliptos, para alimentar as duas mega plantas industriais de celulose, continuará no centro da política econômica.

Todos os representantes do Mercosul concordaram na necessidade de avançar as relações com a China e a Rússia. Ao mesmo tempo, todos concordaram sobre a necessidade de ampliar os acordos comerciais com o maior número de países ou blocos.

A pressão da ala direita do bloco passa pela aproximação com a União Europeia, os Estados Unidos e a Aliança Trans Pacífico. Desta aliança participam o Chile, a Colômbia, o México e o Peru, enquanto a Costa Rica e o Panamá solicitaram a adesão. A Argentina e o Uruguai encabeçam a pressão nesse sentido, mas os demais integrantes do Mercosul passaram a flexibilizar as posições.

VEJA TAMBÉM:

PARTE 1 – 2015: O ANO DA ACELERAÇÃO DA CRISE CAPITALISTA MUNDIAL

http://alejandroacosta.net/2015/12/31/previsoes-para-2016-parte-1/

PARTE 2 – O ORIENTE MÉDIO

http://alejandroacosta.net/2015/12/31/previsoes-para-2016-parte-2/

PARTE 3 – A EUROPA

http://alejandroacosta.net/2016/01/01/previsoes-para-2016-parte-3/

PARTE 4 – A PERIFERIA DA RÚSSIA

http://alejandroacosta.net/2016/01/01/previsoes-para-2016-parte-4/

PARTE 5 – A RÚSSIA

http://alejandroacosta.net/2016/01/02/previsoes-para-2016-parte-5/

PARTE 6 – A CHINA

http://alejandroacosta.net/2016/01/04/previsoes-para-2016-parte-6/

PARTE 7 – A CHINA E A REGIÃO PACÍFICO DA ÁSIA

http://alejandroacosta.net/2016/01/04/previsoes-para-2016-parte-7/

PARTE 8 – O JAPÃO

http://alejandroacosta.net/2016/01/11/previsoes-para-2016-parte-8/

PARTE 9 – OS ESTADOS UNIDOS

http://alejandroacosta.net/2016/01/13/previsoes-para-2016-parte-9/

PREVISÕES PARA 2016 – Parte 10 – A AMÉRICA LATINA (1)

http://alejandroacosta.net/2016/01/18/previsoes-para-2016-parte-10-a-america-latina-1/

PREVISÕES PARA 2016 – Parte 10 – A AMÉRICA LATINA (2)

http://alejandroacosta.net/2016/01/18/previsoes-para-2016-parte-10-a-america-latina-2/

PREVISÕES PARA 2016 – Parte 10 – A AMÉRICA LATINA (3)

http://alejandroacosta.net/2016/01/18/previsoes-para-2016-parte-10-a-america-latina-3/

PREVISÕES PARA 2016 – Parte 10 – A AMÉRICA LATINA (4)

http://alejandroacosta.net/2016/01/18/previsoes-para-2016-parte-10-a-america-latina-4/

PREVISÕES PARA 2016 – Parte 10 – A AMÉRICA LATINA (5)

http://alejandroacosta.net/2016/01/18/previsoes-para-2016-parte-10-a-america-latina-5/

 

 

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Dilma liga para Macri e o parabeniza pela vitória

 

 

Por Marcos Antº Padilha Ferreira

Um dia após a vitória do candidato a presidência da Argentina, Maurício Macri – representante da direita desse País – a presidente do Brasil, Dilma Rousseff ligou para cumprimentá-lo pelos seus 51,4% de votos. A confirmação do telefonema foi divulgada pela própria Secretaria de Comunicação Social (Secom) do Governo Federal.

De acordo com a Secom, o telefonema também serviu para preparar a viagem que Macri deve fazer nos próximos dias ao Brasil. Como é tradição desde os governos de Fernando Henrique Cardoso (FHC), sempre o presidente eleito na Argentina, antes de tomar posse – neste ano será no dia 10 de dezembro – viaja ao Brasil.

A mídia brasileira já dá como certa a viagem de Dilma a Buenos Aires para a posse de Macri. Ainda em dezembro, outro encontro deve ocorrer entre Dilma e Macri, porém, dessa vez, será no dia 21, quando os dois participarão da Cúpula do Mercosul, no Paraguai. Macri é a favor de retirar a Venezuela do bloco econômico, já que para ele a Venezuela persegue opositores do governo do presidente Nicolás Maduro.

Em suas palavras, de acordo com informações divulgadas pela Agência Brasil, Macri teria dito que espera dar “nova vitalidade ao Mercosul”. Segundo o presidente eleito, a relação com o Brasil será “dinâmica”. Macri crítica o ‘Kirchnerismo’ de ter enfraquecido o Mercosul com medidas que ele considera protecionistas.

Na Câmara dos Deputados hoje os discursos sobre a eleição na Argentina foram poucos. O represente do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), Ivan Valente, em seu discurso na Tribuna, não fez nenhuma referência à vitória de Macri, apenas se reservou a falar sobre o desastre ambiental ocorrido em Mariana (MG).

 

ELEIÇÕES ARGENTINA – 2O TURNO (4) – CRISE POLÍTICA NA ARGENTINA E NA AMÉRICA LATINA

 

 

A crise política na Argentina deve ser avaliada no contexto da crise política regional e mundial. O aprofundamento da crise capitalista mundial está levando à implosão dos regimes políticos de conjunto principalmente após os preços das matérias primas terem despencado. Ainda há a ameaça do aumento das taxas de juros nos Estados Unidos, que ainda poderá começar em dezembro, de acordo com as declarações da Reserva Federal norte-americana, e que deverá aumentar a fuga de capitais. Os fundos abutres na Argentina, os crescentes déficits públicos na Venezuela e a perda do “grau de investimento” no Brasil geraram uma situação tão explosiva que esses países poderão ser empurrados a declarar a moratória nos pagamentos dos serviços das respectivas dívidas públicas, nos moldes do que aconteceu na década de 1980. Por esse motivo, a burguesia de conjunto avalia a necessidade de escalar os ataques contra as massas, embora que com diferente intensidade.

De acordo com as pequisas, que, em grande medida, são controladas pela direita, o presidente Maduro deverá perder as eleições do dia 6 de dezembro até por 30% de diferença. Apesar dos, possíveis e prováveis, exageros é evidente que há um sensível aumento da pressão sobre o chavismo. A direita pede o controle da União Europeia contra os mecanismos eleitorais do governo, enquanto este recusa e só aceita a fiscalização da Unasul. A direita não reconhece esses mecanismos com o objetivo de aumentar a pressão contra o governo chavista.

O presidente Maduro declarou, recentemente, que está em marcha um golpe contrarrevolucionário a partir de 6 de dezembro. Essa é uma possibilidade que deverá ser acompanhada. Mas, o mais provável, é que Maduro, também pressionado por um setor do próprio chavismo, avance na direção de um acordo com a direita, da mesma maneira que o kirchnerismo está fazendo com Macri ou o governo do PT com a direita brasileira. Maduro tem buscado um diálogo com Hugo Capriles, o líder da MUD, enquanto a Administração Obama pressiona por um governo de coalisão que inclua a MUD.

Na Venezuela, 40% do orçamento público é destinado aos programas sociais, as Misiones. Esses recursos veem da receita do petróleo, cujo preço despencou no mercado mundial. E esses recursos é o que está no centro da disputa, assim como o controle das maiores reservas de petróleo em escala mundial. Situações militares, embora que com programas sociais muito menores, devido ao grau diferente de desenvolvimento da luta de classe, existe em toda a América do Sul.

O papel do presidente argentino eleito, o direitista Maurício Macri, é pressionar contra o Mercosul para avançar no sentido da incorporação da Argentina na Aliança Trans Pacífico e até na Otan, como aconteceu com a Colômbia. A Unasul, que inviabilizou os golpes de estado contra Evo Morales e Rafael Correia, deverá ser enfraquecida, assim como os demais organismos que, em alguma medida se opõem ao controle imperialista sobre a região.

O governo Maduro deve ser apoiado contra um golpe contrarrevolucionário por meio da mobilização popular. Mas o voto nas próximas eleições deve ser em branco. Além de se tratar de um governo burguês, a linha política de Maduro é a do pacto com a direita, da mesma maneira que acontece com os demais governos nacionalistas que, conforme a crise tem se aprofundado, têm aumentado a capitulação ao imperialismo.

 

CONTRA A DIREITA E A CAPITULAÇÃO DA ESQUERDA

 

Considerar que o kirchnerismo e o macrismo são a mesma coisa, como o faz uma boa parte da esquerda, a começar pela FIT (a frente de esquerda argentina), não é uma política orientada a ganhar a base popular do kirchenismo, mas, no sentido contrário, a entrega à direita. Na realidade, o segundo turno já mostra que há duas alas políticas que representam duas políticas em disputa. A burguesia rachou. Mas a linha do kirchnerismo é ir ao pacto com Macri, da mesma maneira que acontece no Brasil e na Venezuela.

Por outra parte, o segundo turno enfraqueceu ambas alas da burguesia e dificultou a hegemonia no aparato de estado burguês já que nenhuma das duas alas terá hegemonia, maioria própria. A pressão é para que seja estabelecido um governo de pacto social, de unidade social, que com a cumplicidade da burocracia sindical tente impor o ajuste contra a população.

Para lutar contra a direita é precisa lutar contra o kirchnerismo na Argentina e a capitulação do governo do PT ou do chavismo na Venezuela que buscam um acordo com a direita para escalar os ataques contra as massas.

O aprofundamento da crise deverá pressionar o racha da base popular, pela esquerda, do kirchnerismo.

É preciso denunciar Macri e a direita macrista latino-americana que está a serviço do imperialismo. E preciso denunciar os acordos e as capitulações dos governos nacionalistas com essa direita neoliberal. É preciso dizer que a única maneira de combater a escalada dos ataques é por meio da mobilização das massas, nas ruas.

SÉRIE SOBRE AS ELEIÇÕES NA ARGENTINA, 2o. TURNO

1- Macri: Democracia neoliberal a la Obama

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-1-macri-democracia-neoliberal-a-la-obama/

2- Golpe de estado na América Latina

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-2-golpe-de-estado-na-america-latina/

3- O fim do Mercosul?

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-3-o-fim-do-mercosul/

4- Crise política na Argentina e na América Latina

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-4-crise-politica-na-argentina-e-na-america-latina/

 

ELEIÇÕES ARGENTINA – 2O TURNO (3) – O FIM DO MERCOSUL?

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Uma das políticas que Macri deverá aplicar no terreno internacional passa pela tentativa de desmontar os blocos que, em alguma medida, se opõem aos interesses do imperialismo. Macri declarou que, na reunião cume do Mercosul, que acontecerá no dia 21 de dezembro, pressionará para que seja aplicada a “cláusula democrática” contra o governo venezuelano “pelos abusos na perseguição aos opositores e à liberdade de expressão”. Macri se refere ao conhecido elemento da extrema direita venezuelana Leopoldo López, que se encontra preso devido à participação em tentativas de promover um golpe de estado no país. O governo de Nicolás Maduro não seria compatível “com o compromisso democrático que assumimos os argentinos”.

O verdadeiro objetivo de Macri será desmontar o Mercosul para promover acordos comerciais direitos com a Europa e os Estados Unidos. O primeiro passo será acelerar esses acordos por meio do bloco. O governo Kirchner tinha sido o principal acordo para avançar nesse sentido devido à ameaça de desmantelar, ainda mais, a produção local.

O governo de Cristina Kichner foi colocado contra as cordas por causa do aprofundamento da crise capitalista e a incapacidade de romper com o aperto da espoliação imposta pelo imperialismo norte-americano, em primeiro lugar.

Com Macri a política do governo argentino tenderá a um alinhamento maior com as políticas neoliberais que os monopólios buscam impor, principalmente em relação ao ajuste e contra o “bolivarianismo”, a China, a Rússia e o Brasil.

 

A CRISE CAPITALISTA A POLÍTICA DO “SALVE-SE QUEM PUDER”

 

A Argentina foi um dos países que saiu à frente no processo de aprofundamento da crise capitalista mundial, impactada pela crise no Brasil e a queda dos preços das matérias primas no mercado mundial por causa da crise na China. A queda do comercio com o Brasil no ano passado foi de mais de 25%, à que deverá se somar um percentual ainda maior neste ano. Esse é o motivo do desespero da burguesia argentina que busca desesperadamente outros mercados. Por causa do sucateamento da produção manufatureira, o foco dos “novos parceiros” será, inevitavelmente, o aumento do modelo de produção de matérias primas e da importação de produtos manufaturados. No médio prazo, essa política deverá levar ao aumento do desemprego, por causa do fechamento das indústrias, e à inflação por causa da crescente dependência das importações.

A pressão da especulação financeira foi muito além dos “fundos abutres”. Há uma grande fuga de capitais, um alto déficit público, o crescente aumento do endividamento público e privado, a queda das exportações e a forte queda das reservas soberanas, que hoje somam apenas US$ 26 bilhões.

A pressão dos fundos abutres colocou uma pressão sobre o governo argentino de US$ 9 bilhões. A inflação semi oficial na Argentina se encontra em aproximadamente 30% ao ano. Só uma desvalorização do peso dos atuais 9,50 por dólar para 14 elevaria a inflação para 40%.

Macri aumentou a tarifa do Metrô de Buenos Aires a partir de 2012, de 1,10 pesos para 4,50 hoje. Se calcula que hoje deixem o país em torno de US$ 700 milhões por mês.

O governo Macri buscará relaxar as restrições contra as importações e a liberalização do câmbio, o que provocará uma mega desvalorização. Essa política, junto com o fim dos subsídios sobre os serviços públicos, como o transporte público, a energia elétrica, o gás e a água encanada, e a redução dos programas sociais, levará, inicialmente, a um enorme repasse da crise sobre os trabalhadores. A seguir as políticas recessivas deverão provocar o sensível aumento da pauperização dos trabalhadores argentinos, fazendo relembrar a situação que levou ao Argentinazo em 2001.

Até 2017 o Congresso estará dividido. A coalisão direitista terá 201 vagas, 109 do Frente Por La Victoria e 92 de Cambiemos, o que obrigará a ampliar a aliança com setores da direita do peronismo e da centro esquerda, tal como o tem feito na cidade de Buenos Aires e nas Províncias. Em 2017, no ano seguinte às eleições nos Estados Unidos, acontecerão as eleições legislativas na Argentina, onde a pressão do imperialismo deverá aumentar muito mais. Estarão em jogo 257 vagas na Câmara dos Deputados.

SÉRIE SOBRE AS ELEIÇÕES NA ARGENTINA, 2o. TURNO

1- Macri: Democracia neoliberal a la Obama

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-1-macri-democracia-neoliberal-a-la-obama/

2- Golpe de estado na América Latina

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-2-golpe-de-estado-na-america-latina/

3- O fim do Mercosul?

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-3-o-fim-do-mercosul/

4- Crise política na Argentina e na América Latina

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ELEIÇÕES ARGENTINA – 2O TURNO (2) – GOLPE DE ESTADO NA AMÉRICA LATINA?

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Com a vitória de Maurício Macri, a estratégia da Administração Obama para a América Latina conseguiu ser imposta na Argentina, a segunda maior potência da América do Sul, atrás do Brasil. A política neoliberal de alta intensidade pela via “democrática” ganhou um novo fôlego. Essa política segue o modelo do México, onde a Administração Obama impôs uma direita reciclada, encabeçada por Peña Nieto, do PRI (Partido Revolucionário Institucional), com o objetivo de privatizar Petróleos Mexicanos, Pemex, (o que já foi feito), o setor elétrico (o que está sendo encaminhado), a educação pública (o que tem enfrentado enorme pressão contrária por parte da população) e a reforma trabalhista (que já foi feita).

A política encabeçada por Obama agora conta com o México, a Colômbia e a Argentina para servirem como ponta de lança contra os governos nacionalistas da América do Sul, a começar pelo Brasil.

A política do golpe aberto continua desescalada, embora não eliminada, e em velocidade cruzeiro. No Equador, foi enviado o Papa há três meses para conter a histeria direitista. Na Venezuela, a direita histérica está relativamente “tranquila”, na comparação do que tem acontecido nos últimos anos, a apenas duas semanas das eleições que acontecerão no dia 6 de dezembro. A Administração Obama pressiona pela incorporação da direita ao governo. O governo Maduro, apesar da retórica, tem buscado uma saída negociada com o líder da MUD, que agrupa a direita, Hugo Capriles. A pressão sobre o governo Maduro tem aumentado pela ameaça da direita de desconhecer as eleições caso “haja fraude”, o que equivale a dizer caso os resultados não lhe sejam favoráveis.

A direita tradicional norte-americana, encabeçada por Obama, disputa contra a direita truculenta do Tea Party, agrupada no Partido Republicano, o fortalecimento da dita “contrarrevolução democrática” no contexto das eleições presidenciais que acontecerão em 2016. A prioridade se tornou a estabilização do Oriente Médio, o principal ponto de conflito em escala mundial. Por esse motivo, o conflito na Ucrânia, da mesma maneira que aconteceu com as tensões no Mar do Sul da China e na América Latina, foi desescalado.

O desenvolvimento da situação política depende do aprofundamento da crise capitalista mundial, que tende a avançar de maneira acelerada sobre os países centrais no próximo período arrastando o mundo inteiro para um colapso de proporções gigantescas. A burguesia imperialista continua fortalecendo a carta da extrema direita para usa-la no momento em que as outras alternativas se esgotarem. Um ponto chave da evolução política mundial serão as eleições do próximo ano nos Estados Unidos.

 

OS GOVERNOS NACIONALISTAS BURGUESES, ENGRENAGENS DA DIREITA

 

O principal responsável pela vitória de Macri foi o governo Kirchner com a política de capitulação ao imperialismo. A base eleitoral do kirchnerismo foi rachada pela pressão dos monopólios. Uma ala direita, encabeçada por Daniel Scioli, Sergio Berni (um elemento ligado à ditadura militar e que tem ocupado vários cargos no primeiro escalão dos governos kirchneristas), Granados e vários governadores kirchneristas, acabou se aproximando das políticas da direita e ficando à cabeça do kirchnerismo. O governo acompanhou essa virada, ele mesmo criando as bases para os ataques contra os trabalhadores, o ajuste.

Com o objetivo de evitar explosões sociais, o governo de Cristina tem mantido subsídios sobre os serviços públicos que consomem 4% do PIB e que a burguesia considera como os vilões do esvaziamento das reservas internacionais. O déficit público esperado para este ano é de 8% do PIB. A direita, e inclusive a direita do kirchnerismo, busca reduzir sensivelmente esses subsídios e aumentar o direcionamento dos recursos públicos para o pagamento da ultra corrupta dívida pública e outros mecanismos especulativos.

O programa de Macri representa “mais do mesmo” neoliberalismo a la Menen. Uma maior desvalorização do peso, o aumento do direcionamento dos recursos públicos para a especulação financeira e o corte dos subsídios com aumentos brutais das tarifas dos serviços públicos. A recessão industrial deverá acelerar, assim como também aumentará a entrega dos recursos naturais para os monopólios, principalmente o petróleo, o gás e a agropecuária. A diferença entre Macri e Scioli é a intensidade, a velocidade, com que essa política seria aplicada.

O racha e a direitização do kirchnerismo estão na base do fortalecimento do macrismo, que venceu as eleições logo após de quase ter perdido o controle da Prefeitura da cidade de Buenos Aires. A capitulação dos governos nacionalistas burgueses ao imperialismo representam, na situação política atual, um dos principais componentes do avanço da direita que cria as condições para o fortalecimento do golpismo. Por esse motivo, é preciso denunciar essa capitulação e mobilizar os trabalhadores contra a escalada dos ataques.

SÉRIE SOBRE AS ELEIÇÕES NA ARGENTINA, 2o. TURNO

1- Macri: Democracia neoliberal a la Obama

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-1-macri-democracia-neoliberal-a-la-obama/

2- Golpe de estado na América Latina

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-2-golpe-de-estado-na-america-latina/

3- O fim do Mercosul?

http://alejandroacosta.net/2015/11/23/eleicoes-argentina-2o-turno-3-o-fim-do-mercosul/

4- Crise política na Argentina e na América Latina

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ELEIÇÕES ARGENTINA – 2O TURNO (1) – MACRI: “DEMOCRACIA NEOLIBERAL” A LA OBAMA

Eleicoes Argentina 2o turno 3

 

O direitista Maurício Macri, do Cambiemos (Vamos Mudar em português), derrotou, no segundo turno das eleições presidenciais, o candidato do governo de Cristina Kirchner, Daniel Scioli, do Frente para la Victória, por 51,4% dos votos contra 48,6%.

Agora, a direita passou a encabeçar o governo federal, a Prefeitura de Buenos Aires e a Província de Buenos Aires, onde o candidato de Scioli foi derrotado no dia 25 de outubro. Em 22 de novembro, Scioli obteve a maioria dos votos na Província de Buenos Aires.

Cambiemos é o sucessor do Compromiso por el Cambio (Compromisso pela Mudança em português), fundado por Macri em 2003, que deu origem ao PRO (Proposta Republicana) em 2005. Em 2007, Macri venceu as eleições para a Prefeitura da cidade de Buenos Aires, derrotando o kirchnerismo. Ele se beneficiou como então presidente do clube de futebol Boca Juniors, que tinha acabado de ganhar a Libertadores, e também pela expulsão de Ibarra do governo por causa do massacre do Cromanón. Macri foi reeleito quatro anos mais tarde.

O macrismo conseguiu aglutinar setores do peronismo e do radicalismo (a União Cívica Radical, que entrou em colapso em 2001). Em aliança com esses setores, tem aplicado uma política de terra arrasada na cidade de Buenos Aires, desde 2007, e também nas províncias em aliança com o “radicalismo” e o GEN (Generación para un Encuentro Nacional), liderado por Margarita Stolbizer.

 

UMA SAÍDA DE CONTENÇÃO DA CRISE FRACA

 

O “macrismo” aparece como uma saída fraca à crise capitalista argentina, pela direita, impulsionada pelo imperialismo. Seria a saída imperialista, impulsionada pela Administração Obama, contra os governos nacionalistas na América Latina. Para o próximo período, esta ala do imperialismo deve aumentar o impulso dessa política, principalmente, no Brasil, no Equador e na Venezuela, que já foi aplicada com sucesso no México e nas recentes eleições municipais na Colômbia, dois países de grande importância regional.

O calcanhar de Aquiles da política Obama, e do “macrismo”, reside em que as chances da “direita democrática” latino-americana para aplicar o plano de “ajuste” que os monopólios exigem são escassas. Por esse motivo, a continuidade do endurecimento do regime será inevitável, apesar de uma certa descompressão conjuntural. As eleições que acontecerão nos Estados Unidos, no próximo ano, e o grau do aprofundamento da crise capitalista representam dois dos principais fatores que poderão aumentar ou reduzir o fortalecimento da política abertamente golpista.

O próprio Macri, que no ano passado era repudiado como um “neoliberal”, mudou o discurso para se apresentar como um “renovador” que iria manter os aspectos positivos da política kirchnerista, como os programas sociais e as “nacionalizações” a la Kirchner.

O capitalismo não conseguiu colocar em pé uma política alternativa ao neoliberalismo que colapsou em 2008. Por esse motivo, os grandes capitalistas pressionam por maiores doses da política neoliberal. Nos elos mais fracos do sistema capitalista mundial, a desestabilização social gerada por essa política tende a se acelerar.

A crise tirou, em boa medida, a base social dessa direita latino-americana, que agora aparece como uma espécie de zumbi cuja política quase exclusiva é o aumento da entrega dos respectivos países ao imperialismo. A desagregação do regime político reflete o aprofundamento da crise em escala mundial. Uma evolução semelhante, e anterior, pode ser observada nos países mediterrâneos da Europa. Na Espanha, por exemplo, o bipartidarismo está dando lugar a vários partidos, integrados ao regime, onde o “Ciudadanos” tenta colocar em pé uma alternativa direitista “pragmática”, um verdadeiro vale tudo perante o fortalecimento contraditório de Podemos (o Syriza espanhol), para as eleições que acontecerão no dia 20 de dezembro.

A divisão interna da burguesia dificulta a formação de uma frente única que consiga aplicar uma nova onda de políticas neoliberais, tal como foi feito por Menem (1989-1999) na Argentina e por FHC (1995-2003) no Brasil.

Macri tenta impulsionar uma coalisão “neoliberal” incluindo a ala direita do peronismo e do kirchnerismo que inclui os governadores, os setores ligados a Sergio Massa, o candidato derrotado no primeiro turno, e parte da burocracia sindical. Essa aliança deverá ser implodida com a ascensão do movimento de massas.

A atomização do Congresso facilitará a ação da direita turbinada pelo dinheiro dos monopólios. O kirchnerismo deverá continuar como uma força importante, pois ainda conta com a força de choque juvenil, a Campora, e fortes laços com a burocracia sindical e estatal, e com setores da burguesia argentina.

 

SÉRIE SOBRE AS ELEIÇÕES NA ARGENTINA, 2o. TURNO

1- Macri: Democracia neoliberal a la Obama

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2- Golpe de estado na América Latina

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3- O fim do Mercosul?

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4- Crise política na Argentina e na América Latina

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ARGENTINA – ELEIÇÕES E “GOLPISMO”

O que representam os resultados do primeiro turno das eleições nacionais (25 de outubro)?

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No primeiro turno das eleições argentinas, que aconteceu no dia 25 de outubro, a “grande surpresa” foi a apertada vitória (vitória de Pirro!) do candidato do governo Cristina Kirchner, Daniel Scioli, que significou a abrupta queda da votação no kirchnerismo em 11%.

O candidato da direita, o ex prefeito da cidade de Buenos Aires, Maurício Macri, filho de um dos maiores empresários argentinos, disparou nas expectativas de votos apontadas pelas pesquisas, ficou no calcanhar de Scioli e ameaça vencer o segundo turno.

Após o candidato de Macri, Horacio Rodríguez Larreta, ter vencido as eleições municipais na cidade de Buenos Aires, agora a candidata do “macrismo”, Maria Eugenia Vidal (vice de Macri na cidade de Buenos Aires), venceu na Província de Buenos Aires após 28 anos de governos peronistas e kirchneristas. Vidal obteve 39,49% dos votos contra 35,18% de Anibal Fernández, o candidato kirchnerista de carteirinha.

O cenário atual é muito diferente de 2011 quando Cristina Kirchner venceu com 54% dos votos, favorecida pelo boom econômico em cima dos altos preços das matérias primas (commodities) no mercado mundial.

As eleições ficaram polarizadas em certa medida. Mas a candidatura do kirchnerista dissidente Sergio Massa, ex prefeito do El Tigre, o município localizado na Grande Buenos Aires, capitalizou mais de 21% dos votos com um discurso anti kirchnerista. O abstencionismo foi baixo, apenas superou os 3%.

Macri acabou concentrando os votos da direita, revitalizando o sonho dos direitistas argentinos de colocar em pé uma espécie de MUD venezuelana. Scioli, a candidatura direitista do peronismo, apoiada por Cristina Kichner, acabou perdendo até o bastião de muitos anos, a Província de Buenos Aires.

A candidatura da Frente de Esquerda não decolou e acabou mantendo a votação das primárias, as Paso. Em grande medida esses votos foram capitalizados a partir do colapso eleitoral da “Alianza Progresistas”, encabeçada por Margarita Rosa Stolbizer, uma ex deputada do direitista UCR (União Cívica Radical) e fundadora (2007) do socialdemocrata “Generación para un Encuentro Nacional”. Stolbizer obteve 2,54% dos votos, ainda menos que os 3,22% de Carrió em 2011.

CALCANHAR DE AQUILES DO “MACRISMO”

O “macrismo” aparece como uma saída fraca à crise capitalista argentina, pela direita, impulsionada pelo imperialismo. Seria a saída imperialista, impulsionada pela Administração Obama, contra os governos nacionalistas na América Latina. Para o próximo período, esta ala do imperialismo deve aumentar o impulso dessa política, principalmente, no Brasil, no Equador e na Venezuela, que já foi aplicada com sucesso no México e nas recentes eleições municipais na Colômbia, dois países de grande importância regional.

O calcanhar de Aquiles da política Obama, e do “macrismo”, reside em que as chances da “direita democrática” latino-americana para aplicar o plano de “ajuste” que os monopólios exigem são escassas. Por esse motivo, a continuidade do endurecimento do regime será inevitável, apesar de uma certa descompressão conjuntural. As eleições que acontecerão nos Estados Unidos, no próximo ano, e o grau do aprofundamento da crise capitalista representam dois dos principais fatores que poderão aumentar ou reduzir o fortalecimento da política abertamente golpista.

O próprio Macri, que no ano passado era repudiado como um “neoliberal”, mudou o discurso para se apresentar como um “renovador” que iria manter os aspectos positivos da política kirchnerista, como os programas sociais e as “nacionalizações” a la Kirchner.

O ENFRAQUECIMENTO DO NACIONALISMO BURGUÊS

O colapso capitalista de 2008, tirou, em boa medida, a base social dessa direita latino-americana, que agora aparece como uma espécie de zumbi cuja política quase exclusiva é o aumento da entrega dos respectivos países ao imperialismo. A desagregação do regime político reflete a crise mundial. Uma evolução semelhante, e anterior, pode ser observada nos países mediterrâneos da Europa. Na Espanha, por exemplo, o bipartidarismo está dando lugar a vários partidos, integrados ao regime, onde o “Ciudadanos” tenta colocar em pé uma alternativa direitista “pragmática”, um verdadeiro vale tudo perante o fortalecimento contraditório de Podemos (o Syriza espanhol), para as eleições que acontecerão no dia 20 de dezembro.

A divisão interna da burguesia dificulta a formação de uma frente única que consiga aplicar uma nova onda de políticas neoliberais, tal como foi feito por Menem (1989-1999) na Argentina e por FHC (1995-2003) no Brasil.

Macri representa a saída “a la Obama” para a crise latino-americana. O imperialismo deve apostar em cheio em Macri para o segundo turno, da mesma maneira que o fez nas últimas eleições no México quando impuseram, de maneira ultra fraudulenta, o direitista reciclado Peña Nieto, pelo PRI (Partido Revolucionário Institucional), contra o eterno candidato fraudado, o socialdemocrata López Obrador do PRD.

Seja qual for o resultado do segundo turno das eleições na Argentina, é evidente que sairá fortalecida a política da direita, contra as políticas nacionalistas aplicadas pelos governos Kichner, principalmente o primeiro governo de Nestor Kichner. O governo de Cristina Kichner se encontra contra as cordas por causa do aprofundamento da crise capitalista e a incapacidade de romper com o aperto da espoliação imposta pelo imperialismo norte-americano, em primeiro lugar.

Se Macri for eleito presidente da República, a política do governo tenderá a um alinhamento maior com as políticas neoliberais que os monopólios buscam impor, principalmente em relação ao ajuste e contra o “bolivarianismo”, a China, a Rússia e o Brasil. Se o vencedor for Scioli, o bloco nacionalista anterior tenderá a ser implodido por meio do surgimento de um novo grupo hegemônico, mais à direita que o liderado por Cristina Kirchner, que ficou enfraquecido por causa da derrota de Anibal Fernández, o kirchnerista de carteirinha e candidato derrotado à província de Buenos Aires. Ao mesmo tempo, as contradições entre as várias facções deverão se acirrar conforme a crise se aprofundar.

A atomização do Congresso facilitará a ação da direita turbinada pelo dinheiro dos monopólios.

O kirchnerismo deverá continuar como uma força importante, pois ainda conta com a força de choque juvenil, a Campora, e fortes laços com a burocracia sindical e estatal, e com setores da burguesia argentina. A comparação com o estado em que o país se encontrava antes do Argentinazo, em 2001, ainda tem um certo peso na memória dos argentinos. A miséria tinha chegado aos 57% da população, o desemprego tinha alcançado quase os 30% e a economia entrou em coma profundo como produto das políticas neoliberais aplicadas durante os governo Menem.

Conforme a crise continuar se desenvolvendo, inevitavelmente surgirão novos setores nacionalistas que poderão evoluir conforme aumentar a ameaça da organização independente das massas.

A FIT (FRENTE DE ESQUERDA)

O estancamento eleitoral da Frente de Esquerda, apesar da virada à direita promovida a partir do candidato morenista do PTS (Partido dos Trabalhadores Socialistas), que a encabeçou, representou um elemento marcante para a esquerda argentina e latino-americana. A queda da votação foi expressiva; menos de 800 mil votos em relação aos 1.379.991 obtidos em 2013.

A tentativa de captação eleitoral por meio de uma política eleitoreira, abertamente oportunista, não conseguiu avançar. A política da “frente de esquerda” é eleitoreira, tem como objetivo central a eleição de deputados (e outros parlamentares) a qualquer custo. A frente não saiu do chão a não ser dos objetivos eleitorais. O trabalho de massas, principalmente no movimento operário não tem ido muito além de movimentações oportunistas aparelhistas. Esta política conduz inevitavelmente ao fortalecimento dos setores direitistas desta frente, que são encabeçados pelos morenistas.

Desde as primárias, as Pasos (Primárias Abertas Simultâneas e Obrigatórias), o morenista PTS, um dos três principais componentes da FIT, junto com o PO (Partido Obrero) e a IS (Izquierda Socialista) tem propagandeado a necessidade de “renovar” a FIT. O “bonitão” e jovem Nicolás del Caño, candidato do PTS nas primárias, contra o ancião Jorge Altamira (o dirigente histórico do PO), fez parte de clássicos métodos eleitorais, onde questões programáticas são deixadas de lado em prol de conseguir votos e eleger deputados a qualquer custo.

O PO acabou sendo engolido pela própria política eleitoralista que ficou mais evidente após a virada “anti-capitalista” e “syrizante” (apoiadora do Syriza grego) dos últimos anos. O morenismo está engolindo o PO, que representa, ou pelo menos representou, o principal partido da esquerda argentina. Jorge Altamira chegou a declarar que os votos que Macri obteve, contra Scioli, seriam “progressistas” e que não representariam uma “tendência à direita”. As consequências dessa política seriam a eventual evolução até o apoio, velado, ou até aberto, aos “setores progressistas” que votaram no direitista Mauricio Macri no segundo turno das eleições.

A entrada em cheio na política eleitoralista tem na base o longo refluxo neoliberal, quando os elementos direitistas levantaram cabeça, como sempre acontece no refluxo. A direção do PO “virou” aceleradamente à direita após o esgotamento do movimento piqueteiro, fruto do “Argentinazo de 2001, em meados na década passada, quando o “kirchnerismo” conseguiu conter a crise capitalista e o movimento de massas.

A política da “frente de esquerda” tem como objetivo juntar grupos e partidos de esquerda numa frente permanente, fundamentalmente, em cima de questões eleitorais, para, futuramente, formar um núcleo de militantes, que deveria ser a base da atuação no período de ascensão. Um dos componentes dessa política, na frente de esquerda, busca “roubar” os militantes dos demais grupos. Essa política, de base morenista, é defensiva e oportunista, e conduz, na prática, ao fortalecimento dos elementos direitistas.

A política da “frente única” estruturada nos quatro primeiros congressos da III Internacional Comunista tem como objetivo agrupar os trabalhadores para facilitar a luta. A união entre grupos políticos revolucionários deve ser realizada em cima de um programa de luta. Acordos pontuais, com qualquer tipo de grupos, não podem ser transformados em permanentes contra o programa revolucionário e, particularmente, atrela-los ao cretinismo parlamentar e à colaboração de classes.

No Brasil, essa política é impulsionada, em primeiro lugar, pelo PSTU. O objetivo é aderir à política de total integração ao regime burguês tupiniquim promovida pelo Psol.

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