RUSSIA E TURQUIA – ALÉM DA DERRUBADA DO CAÇA,

RELAÇÕES E AMARRAÇÕES DE AMOR E ÓDIO

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A derrubada do caça russo pela força aérea turca, no dia 24 de novembro, revelou, mais uma vez, a fragilidade das alianças e contra alianças no atual estágio do desenvolvimento da crise em escala mundial, que adquire caraterística críticas no Oriente Médio.

A Administração Obama se aliou a inimigos dos Estados Unidos para estabilizar a Síria, os russos, o Irã, com as milícias xiitas e o Hizbollah, os curdos e os chineses. O desespero da direita do imperialismo e da reação do Oriente Médio foi às alturas.

Agora o governo Erdogan, fortalecido pelos resultados das eleições que aconteceram no início deste mês, tenta conter o “ímpeto” russo contra os próprios rebeldes. O AKP, partido de Erdogan, conseguiu a maioria que não tinha conseguido em junho mediante a política militar de ataques contra os curdos turcos e, em alguma medida, os curdos sírios.

A contenção dos curdos sírios representa um dos pontos fundamentais da política Erdogan que busca uma saída “energética” para a crise. Os curdos turcos mantêm forte presença na Província da Anatólia Oriental por onde passam, ou passariam, os dutos de fornecimento de gás e petróleo à Europa.

A Rússia depende da derrota dos vários grupos rebeldes para estabilizar as fronteiras do sul, impedir a repetição dos conflitos na Tchetchênia e no Daguestão, assim como em outras regiões. O aumento da influência no Oriente Médio é crítico na disputa do comercio de armas, no mercado de energia e na participação do Novo Caminho da Seda chinês.

As contradições entre as duas potências regionais são grandes, mas também o são a dependência e relações mútuas.

 

A RÚSSIA PODE APLICAR SANÇÕES CONTRA A TURQUIA?

 

O governo da Federação Russa precisa dar uma satisfação à população russa, o que faz parte da política nacionalista de fortalecer a unidade nacional em torno do governo Putin conforme a crise se aprofunda. As medidas iniciais foram cortar os contatos militares e impor o bloqueio do espaço aéreo sírio por meio dos mísseis S-400. Já avançar com sanções econômicas profundas é muito mais complexo.

A Rússia é responsável por 10% das importações turcas. As exportações turcas representam 4% das importações russas. A Rússia fornece 55% do gás que os turcos consomem, que representa 13% das exportações de gás russo. Os gasodutos estão próximo ao limite de uso (Blue Stream e Gas-West) e por eles também trafega o gás que tem como destino a Ucrânia, a România e a Bulgária. Os 45% restantes são fornecidos pelo Irã e o Azerbaijão e por gás natural liquidefeito.

O corte do gás russo colocaria a economia turca em xeque. Mas também seria afetada a economia russa que se encontra em recessão há quatro anos, além de escalar os problemas na Europa Oriental. E ainda há a questão do gasoduto TurkStream que foi desviado no Mar Negro, da Bulgária para a Turquia com o objetivo de driblar as regulamentações da União Europeia contra a Gazprom, o gigante do gás russo.

O corte no fornecimento de minerais e metais (ferro, aço e alumínio) também não teria muito impacto devido à contração do mercado mundial. A Rússia fornece 70% do trigo, mas, com relativa facilidade, poderia ser trocado por outros fornecedores. E, em 2010, a Turquia conseguiu absorver sanções neste setor. Por outra parte, 40% das frutas e vegetais turcos têm como destino a Rússia, além de outros alimentos, como lácteos e carnes. O governo russo tem deixado estes segmentos de lado e passou a focar arremedos de sanções no turismo, que representa 12% do PIB da Turquia e dos quais os russos somam 14%. Outro dos pontos de pressão, que a Rússia já usou no passado, seria dificultar a passagem de caminhões em direção à repúblicas da Ásia Central e Oriental, por onde circulam aproximadamente US$ 2 bilhões anuais em produtos químicos e eletrônicos.

Vários acordos comerciais iriam ser assinados e desenvolvidos na visita que Erdogan faria à Rússia em dezembro. Isto revela o grau de crise em que o governo turco foi colocado com os bombardeios russos contra os “rebeldes” amiguinhos.

 

AS CONTRADITÓRIAS RELAÇÕES DA TURQUIA E A RÚSSIA

 

A Turquia é um país membro da OTAN e com relações próximas com a Arábia Saudita. Mas o governo Erdogan tem aplicado várias políticas de cunho nacionalista o que tem gerado contradições com o imperialismo, que tem tentado derruba-lo impulsionado a extrema direita. A Rússia tem tentado explorar essas contradições. Vários acordos comerciais tem sido assinados após das sanções aplicadas em relação à crise da Ucrânia. Mas também as contradições são seculares.

A Turquia foi contrária à invasão da Geórgia, em 2008, pela Rússia, mas não tomou nenhuma ação. As relações também são tensas em relação a todos os países onde há minorias ou maiorias turcomenas, que a Turquia considera sob sua zona de influência.

A recente aproximação da Rússia com o Azerbaijão, por meio da desescalação do conflito em Nagorno-Karabakh, com o a Armênia, é um dos pontos de conflito. A Rússia tenta desestimular o gasoduto BTC (Baku, Tbilisi, Ceylan) que beneficiaria a Turquia, já que a partir do porto turco de Ceylan o gás seguiria para a Europa pagando pelos direitos de transporte.

A Turquia tenta conter a Rússia na Síria, onde atua por meio de grupos “rebeldes”, inclusive o Estado Islâmico. Com esse objetivo busca utilizar a ameaça da OTAN. Mas até que ponto o governo turco estaria disposto a se submeter à política da OTAN de maneira mais aberta? Isso depende de quem pagar melhor. A União Europeia desviou para o governo de Erdogan, há dois meses, três bilhões de euros que supostamente teriam como destino evitar que os refugiados do Oriente Médio chegassem à Europa. Obviamente, esse dinheiro teve um papel importante nas eleições de novembro. O quanto os Estados Unidos estão dispostos a injetar na Turquia? E a Rússia, quanto representa? E quais os riscos?

É a política do “salve-se quem puder” em ação, cada vez mais intensa, conforme a crise capitalista se aprofunda.

 

 

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RÚSSIA/ TURQUIA, POR TRÁS DA RETÓRICA,

A POLÍTICA DO “SALVE-SE QUEM PUDER”

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Os ataques da aviação russa na Síria têm como objetivo fortalecer as posições do governo de al-Assad para pressionar no sentido de uma saída negociada. A Rússia não tem condições de controlar a Síria com as próprias forças, pois entraria em rota de coalisão com as demais potências regionais e com o imperialismo. Mas, a partir do enclave criado nas províncias de Latákia e Tartus, as regiões habitadas pela minoria alawita que está no poder, os ataques avançaram sobre as regiões vizinhas.

A aviação russa tem possibilitado o avanço do Exército sírio, apoiado pelas milícias xiitas, controladas pela Guarda Revolucionária Islâmica iraniana, e o Hizbollah, a poderosa milícia libanesa, nas estratégicas províncias de Idlib e Aleppo, e sobre o coração do Califato do Estado Islâmico, Raqqa e Deir el-Zour. Localidade onde os “rebeldes” avançavam foram retomadas. Após dois anos, o Exército conseguiu controlar Sweida e a sitiada base aérea de Kweiris, na região oriental de Aleppo. Na região central da Síria, unidades de artilharia russas teriam ajudado na retomada de Mahin, que se encontrava sob controle do Estado Islâmico e estariam atuando na retomada de outros povoados, como Jabal Zuwayk, em Latákia. A ofensiva sofreu alguns revezes no norte de Hama, mas continua avançando em quase todas as frentes.

Em paralelo, os Estados Unidos têm atuado estreitamente com o YPG curdo, que passou a fazer parte da frente Forças Democráticas Sírias, que inclui também a Coalisão Árabe Síria, assírios e turcomenos. O governo turco tenta desesperadamente controlar uma faixa fronteiriça do território sírio e colocar os curdos na defensiva.

O envolvimento dos russos e do Irã na Síria, e mais recentemente dos chineses, tem limitações. A resistência dos “rebeldes” apoiados pelas potências regionais e pelo imperialismo tem obrigado a aumentar o envolvimento militar, colocando o risco do fantasma da derrota russa no Afeganistão. Por esse motivo, a política de Putin e dos aiatolás iranianos é conseguir uma saída negociada o mais rápido possível.

 

A QUESTÃO CURDA

 

O grupo “rebelde” preferencial do governo turco agora é o chamado Exército Sírio Livre, onde atuam milicianos de origem turco financiados pelo governo. O principal objetivo está relacionado com a contenção das milícias curdas do YPG e, principalmente, com uma eventual evolução no sentido da formação de um estado curdo. Os curdos turcos do PKK (Partido dos Trabalhadores) controlam a Província da Anatólia Oriental que é um dos componentes centrais do fornecimento de gás para a Europa.

A política da criação de uma zona de controle do espaço aéreo sírio na região foi implodida pela intervenção da aviação russa.

A derrubada do caça russo teve como objetivo criar um fato consumado para a Turquia avançar no controle do norte da Síria contra os curdos que têm se convertido num dos componentes em solo da “guerra contra o Estado Islâmico”. Com esse objetivo, criaram um fato consumado na tentativa de arrastar os Estados Unidos e a OTAN, contra a política da aliança com a Rússia que a Administração Obama colocou em pé.

Se trata de uma política arriscada, pois entra em conflito com a política da Rússia e, em certa medida, com a dos próprios Estados Unidos. Mas, conforme a crise tem se aprofundado, a política do “salve-se quem puder” passa a ocupar a linha de frente do cenário político. Erdogan acabou de sair triunfante da escalada da política militarista contra o PKK (Partido dos Trabalhadores curdos na Turquia), cancelando a trégua, com o objetivo de criar um clima de terror e facilitar a vitória, por maioria, do partido no governo, o AKP, nas novas eleições nacionais, que aconteceram no início de novembro, com este objetivo.

Os curdos iraquianos, os pershmergas, tem atuado com o apoio norte-americano numa grande ofensiva contra o Estado Islâmico a partir de Mosul em direção à fronteira síria. O Curdistão iraquiano mantém relações estreitas com o imperialismo norte-americano, os sionistas israelenses e com a Turquia.

 

O GÁS DO MAR CÁSPIO

 

Perante o acirramento das contradições pelo negócio do fornecimento de gás para a Europa, o gasoduto Trans-Cáspio voltou a ser colocado à ordem do dia para desespero dos russos. Se trata de 300 quilômetros que deverão unir o porto Turkmenbashi (Turcomenistão) e Baku (Azerbaijão). Com capacidade para o transporte de 30 bilhões de metros cúbicos (bmc), o próximo destino seria a Turquia, passando pela Geórgia, de onde chegaria à Europa.

Os interesses russos foram colocados em xeque, pois aos atuais 4,7 bmc que o Azerbaijão já transporta, ainda deverão ser adicionados 10 bmc em 2018, a partir do campo Shah Deniz II.

O fornecimento dos Balcãs e da Europa Oriental com gás do Azerbaijão e do Turcomenistão, por fora do controle da Gazprom, o gigante russo do setor, enfraqueceria o poder russo na região abrindo passo para uma maior escalada da agressividade militar da OTAN por meio desses países.

Por meio do aumento da pressão, mediante vários mecanismos econômicos e militares, o governo russo conseguiu afastar o Turcomenistão dessa política e envolver o países no direcionamento do gás para a Rússia e a China. Além disso, o governo do Irã está alinhado com essa política. Não por acaso, os 26 mísseis de longo alcance que a Marinha russa disparou contra o Estado Islâmico tiveram como origem a Frota do Mar Cáspio e sobrevoaram o Irã, com a permissão do regime dos aiatolás.

O governo turco de Recep Tayyip Erdogan tem tentado se contrapor à política russa no Mar Cáspio. No início de novembro, Erdogan esteve em Ashgabat, a capital do Turcomenistão, com o objetivo de assinar acordo de fornecimento de gás natural, apesar de não ter especificado como o gás seria transportado. Duas semanas depois, o presidente da empresa estatal de petróleo do Azerbaijão declarou, em visita ao Turcomenistão, que o governo estaria preparado para investir no gasoduto Trans-Cáspio.

A Turquia, que mantém proximidade nacional sobre esses países, busca se favorecer do aumento das contradições da Rússia com várias das antigas repúblicas soviéticas, enquanto a Rússia tem direcionado o grosso dos negócios para a China.

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POR QUE A TURQUIA DERRUBOU O CAÇA RUSSO?

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No dia 24 de novembro, um caça russo SU-24 foi derrubado perto da fronteira Síria-Turquia por dois caças turcos F-16 que teriam usado mísseis ar-ar. Os dois pilotos russos saltaram e acabaram sendo, provavelmente, mortos por grupos “rebeldes” em território sírio.

De acordo com a versão oficial turca, o caça teria sido avisado dez vezes antes de ser abatido. O governo russo declarou possuir evidências de que se encontra em território sírio a seis mil metros de altura.

Desde o começo das operações da Rússia na Síria, tinham sido feito acordos com a Turquia, os Estados Unidos, Israel, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos com o objetivo de evitar o confronto militar.

O governo turco, ao invés de buscar um entendimento imediato com os russos, chamou uma reunião em caráter de urgência com a OTAN. Até o momento, as retaliações foram preventivas. O governo do presidente Vladimir Putin suspendeu a colaboração militar com a Turquia, foi anunciado que o sistema anti-mísseis S-300 será atualizado para o padrão S-400 na base aérea de Khmeimim e todos os ataques aéreos passarão a contar com cobertura aérea por aviões de combate. Os canais diplomáticos continuam aberto no primeiro escalão dos ministérios das Relações Exteriores.

 

A FRENTE ÚNICA DE OBAMA COM PUTIN

 

A Síria tem um enorme potencial de contágio desestabilizador no Oriente Médio. A presença militar da Federação Russa na Síria data de várias décadas atrás, da época da antiga União Soviética. A Rússia possui no porto de Tartus, localizado ao norte do Líbano, a única base naval no Mar Mediterrâneo. Assim que os “rebeldes”, financiados pelo imperialismo e a reação, conseguiram infiltrar e controlar os protestos de massas que estouraram há quatro anos, os russos e o Irã passaram a atuar na defesa do governo al-Assad. Mas o ponto de virada aconteceu em junho deste ano.

O secretario do Departamento de Estado norte-americano esteve no balneário de Sochi, localizado no sul da Rússia, onde manteve encontros de primeiro nível. O objetivo foi colocar em pé uma frente única com o objetivo de estabilizar a Síria e evitar que se convertesse numa nova Líbia ou Somália. Em contrapartida a Administração Obama desescalou as tensões na Ucrânia, no Mar do Sul da China e na América Latina. Essa política acabou aumentando as tensões com os aliados tradicionais do imperialismo, a começar com Israel e a Arábia Saudita e reflete o grau de crise. Para estabilizar a situação, os Estados Unidos precisaram se aliar com inimigos tradicionais.

Obama encabeça a direita tradicional nos Estados Unidos que disputa com a direita truculenta a política a ser implementada no próximo período, com o objetivo de enfrentar o inevitável aprofundamento da crise capitalista. Os cinco debates dos pré-candidatos do Partido Republicano às eleições presidenciais que acontecerão no próximo ano oferecem uma amostra da política da ala direita do imperialismo. Guerra, inclusive atômica, contra o Irã. Guerra contra a Rússia. Guerra contra a China.

 

AS RELAÇÕES RÚSSIA – TURQUIA

 

As relações entre os governos Putin e Erdogan tem evoluído positivamente no último período. A Turquia, apesar de ser um membro da OTAN, tem mantido uma relação ambivalente com os Estados Unidos e a Europa. A Rússia tem buscado influenciar essas relações desenvolvendo as relações comerciais energéticas, que representam o principal componente da política econômica turca após a crise da indústria têxtil que estourou a partir de 2008. O gasoduto SouthStream foi desviado, no Mar Negro, da Bulgária para a Turquia para driblar as regulamentações da União Europeia relacionadas com o monopólio da Gazprom, o gigante do gás russo, no fornecimento de gás.

A saída da Frota russa do Mar Negro depende do Estreito de Bósforo, que é controlado pela Turquia.

As relações entre a Rússia e a Turquia começaram a entrar em rota de colisão com a escalada da intervenção russa na Síria. A Turquia depende do controle da região para viabilizar a própria política. O lucrativo e disputado fornecimento de gás à Europa, com a perspectiva da Turquia se converter num nó (hub) depende dessa política. Está em jogo não somente o transporte do gás russo, mas também do gás do Catar, Irã, Azerbaijão, Turcomenistão e até do Líbano e Israel.

A Rússia também tem pretensões de potência regional e depende do sucesso da intervenção na Síria para aumentar o mercado de armas no Oriente Médio e no mundo, reduzir as sanções relacionadas à Ucrânia, disputar o mercado de fornecimento de gás e de energia nuclear na região. Além disso, há a questão dos grupos guerrilheiros financiados pelas monarquias do Oriente Médio que podem começar a atuar no Cáucaso, nas repúblicas da Ásia Central e no sul da Rússia (Tchetchênia e Daguestão) no caso do governo sírio colapsar.

O governo turco, encabeçado pelo primeiro ministro Erdogan, tem impulsionado os próprios “rebeldes” com o objetivo de conter o avanço dos curdos e de aumentar a própria influência na região. O Estado Islâmico tem sido um dos principais favorecidos por meio da facilitação de rotas logísticas e para a comercialização do petróleo que eles controlam. A mesma política tem sido aplicada pela Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, e, em alguma medida, pelo Catar e o imperialismo.

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ELEIÇÕES NA TURQUIA – GUERRA OU PAZ?

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O AKP (Partido Desenvolvimento e Justiça), o partido do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, conseguiu a maioria absoluta no parlamento após as novas eleições legislativas que aconteceram no domingo 1 de novembro.

O AKP obteve quase a metade dos votos e 317 das vagas, de um total de 550. O CHP (Partido Popular Republicano) obteve o 25,4% dos votos e 134 vagas. O MHP (Partido de Ação nacionalista), de extrema direita, 11,9% e 41 vagas. O HDP (Partido Popular Democrático) 10,7% dos votos e 59 vagas.

Com o resultado, Erdogan aparece como o grande vencedor, pois conseguiu que o seu partido superasse com folga o mínimo necessário para governar sem necessidade de coligações. Nas eleições que aconteceram em junho, o AKP tinha perdido a maioria absoluta. Por esse motivo, chamou a novas eleições. Com o objetivo de retomar os votos que tinham migrado para a extrema direita do MHP e para o Partido curdo HDP rompeu a trégua que tinha promovido com a guerrilha curda do PKK (Partido dos Trabalhadores), ao mesmo tempo que aconteceram grandes atentados terroristas sobre os quais existe a suspeita da intervenção dos serviços de inteligência turcos.

Erdogan não foi o candidato do AKP, pois os estatutos do Partido lhe impedem se candidatar por mais de três mandatos. Em contrapartida, ele acabou se tornando o primeiro presidente da República a ter sido eleito no primeiro turno nas eleições realizadas em 2014. O novo primeiro ministro será o antigo ministro das Relações Exteriores, Ahmet Davutoglu.

O QUE VEM DEPOIS?

Na campanha eleitoral, o AKP prometeu um aumento do salário mínimo, para 300 euros mensais, e ajudas para os jovens que contraírem matrimônio. A inflação continua subindo e a perda do valor da lira, perante o dólar, em 25% apenas neste ano, tem provocado o aumento dos preços dos crescentes produtos importados.

Enquanto a crise capitalista se aprofunda na Turquia, as regiões vizinhas se encontram em chamas. Ao sul, a crise na Síria e no Iraque escalaram. Ao norte, a Ucrânia se encontra em chamas, apesar da desescalação do conflito, e as tensões aumentam no Mar Negro.

Erdogan tem manobrado. Nos próximos dias, acontecerá na cidade turca mediterrânea de Antalya a reunião cume dos G20, os 20 países mais importantes. Apenas a duas semanas das eleições, o governo conseguiu uma ajuda por três bilhões de euros da União Europeia para conter a migração dos sírios para a Europa, a promessa de facilitar os visados, o que lhe valeu o aumento do apoio nas camadas médias da sociedade, convites para participar das futuras reuniões cumes da União Europeia e o atraso de um relatório sobre as perseguições a jornalistas na Turquia.

Mas agora as manobras deverão ser transformadas em políticas para evitar a explosão dos protestos sociais. Como o governo do AKP irá colocar em prática essa mágica?

Como ficarão as relações com os Estados Unidos?

Como ficará a questão curda?

E qual será a política para a contenção da crise capitalista?

O EQUILIBRISMO DO GOVERNO NACIONALISTA TURCO

As relações do governo Erdogan com os Estados Unidos têm sido complexas. Em 2003, a invasão ao Iraque não pode ser realizada a partir da Turquia.

A Turquia faz parte da OTAN, tem mísseis nucleares no território, mas o exército não tem entrado em confrontos militares na região, apesar de enfrentar os guerrilheiros do PKK, o Partido dos Trabalhadores curdo, há mais de 30 anos.

O pior cenário para o governo de Erdogan é a formação de um estado independente curdo na Síria. O YPD, que governa essas regiões curdas, está intimamente vinculado ao PKK turco. As milícias de autodefesa do YPD, o YPG, fazem parte da frente única impulsionada pela Administração Obama para estabilizar a região e têm desempenhado um importante papel em campo contra o Estado Islâmico e a al-Nusra, a al-Qaeda na Síria. Além disso, há as relações do YPD com o Curdistão Iraquiano que é apoiado pelos Estados Unidos e até pelos sionistas israelenses. O grosso do petróleo consumido por Israel vem do Curdistão Iraquiano que, com seus pershmergas (soldados), tem desempenhado um papel muito importante em campo contra os “rebeldes” do Estado Islâmico.

Com o aprofundamento da crise capitalista, a principal indústria turca, a indústria têxtil, se viu envolvida em grave recessão. Os projetos faraônicos, em andamento ou em planejamento, estão ameaçados, o que colocaria em xeque o apoio dos setores dominantes da burguesia nacionalista turca. O déficit das contas públicas só tem crescido e tem sido fechado com os petrodólares sauditas.

A política econômica que Erdogan tem impulsionado, como “saída” para a crise, tem como eixo transformar o país num nó (hub) do fornecimento de gás e petróleo para a Europa. Há acordos assinados e em andamento com a Rússia e o Irã. Há a perspectiva de reativação do projeto B-T-C (Bakú, Tbilisi, Ceylan) para o escoamento do gás do Azerbaijão. Há a possibilidade de participar do projeto impulsionado pelo Catar e pelos sauditas para transportar o gás do mega campo de Pars, a partir do Catar. Todos esses projetos passam pela Província da Anatólia Oriental, que é habitada majoritariamente pelos curdos e onde o PKK tem forte atuação.

O papel da Turquia é estratégico por causa do controle do Estreito do Bósforo que une o Mar Negro ao Mar Mediterrâneo e também porque representa a porta de entrada para o contágio da desestabilização do Oriente Médio em direção ao Cáucaso e ao sul da Rússia. As relações e as concessões obtidas dos russos passa por este fator. A deterioração das relações poderia bloquear o acesso da poderosa Frota russa do Mar Negro, que está estacionada em Sebastopol (Crimeia), ao Mar Mediterrâneo. O fechamento colocaria em risco um importante volume comercial, deixaria aberto um flanco importante da Rússia para o OTAN e teria o potencial de escalar para um conflito militar. Ao mesmo tempo, a partir do aprofundamento da crise na Ucrânia, os Estados Unidos têm fortalecido as relações com a România como contrapeso à presença russa no Mar Negro. O aumento das das tensões apresenta séria implicações para a Turquia.

A POLÍTICA TURCA SOBRE A QUESTÃO CURDA

Umas das políticas defensivas que o governo Erdogan adotou com o objetivo de conter o avanço dos curdos foi passar a participar da coalisão contra o Estado Islâmico, abrindo uma base aérea, Incirlik, para a aviação norte-americana.

Os ataques promovidos, nos últimos meses, pelo Exército turco, contra os guerrilheiros curdos liquidaram com a trégua, que estava em andamento com o PKK. Mas o principal objetivo, era acirrar as contradições internas para viabilizar a vitória do AKP nas eleições deste domingo.

A blindagem do espaço aéreo sírio pela Federação Russa, mediante os mísseis S-300, criou entraves para a Turquia confrontar, em termos militares, os curdos, principalmente, se levarmos em conta que a atuação dos russos passa pelo acordo com a Administração Obama. O ponto de largada deste acordo foi dado com a visita de John Kerry, o chefe do Departamento de Estado norte-americano, a Sochi em junho. Ao mesmo tempo, o apoio turco ao Estado Islâmico e a outros “rebeldes” ficou dificultado.

A política mais provável para o próximo é que o governo do AKP tente dar continuidade à política de acordos com o PKK. O ponto em que as negociações tinham ficado era a ampliação da autonomia nas regiões curdas. O principal dirigente curdo, Abdullah Ocalan, que se encontra numa prisão turca desde 1999, abriu mão da independência curda para assumir uma posição semi-anarquista baseada na organização popular nos municípios, algo assim como a política aplicada pelos zapatistas no sul do México.

O HDP, o partido pró-curdo, não representa uma ameaça para o AKP, principalmente agora com a maioria parlamentar. Se trata de um partido de cunho socialdemocrata, integrado ao regime, com relações muito tênues com o PKK, algo assim como o Polo Democrático colombiano com um vínculo nacionalista com as reivindicações curdas.

O ponto chave para o AKP avançar nas negociações com os curdos passa por duas questões principais. A primeira questão se relaciona com o aprofundamento da crise capitalista, pois os acordos implicarão na realização de investimentos nas regiões curdas para promover a estabilização em termos materiais. Erdogan tenta extrair tudo o que puder da União Europeia usando a ameaça da crise imigrantória. Ao mesmo tempo, a Turquia avança nas negociações com todos os países que disputam o fornecimento de gás à Europa.

O segundo fator se relaciona com as negociações sobre a Síria. Erdogan tentou depor o regime sírio de al-Assad, assim como o tentaram os sauditas, o imperialismo e as demais monarquias reacionárias da região. Essa política confrontou a tradicional política turca da não interferência nos assuntos internos dos países vizinhos. O objetivo era evitar o fortalecimento dos curdos. O principal objetivo do governo turco nas negociações continua sendo exatamente esse, a busca pela garantia de que um estado curdo independente na Síria não sairá do papel. A criticidade dessa política, para os turcos, é revelada pelo acirramento do conflito militar, nos últimos meses, e até pelos brutais atentados terroristas contra os curdos, onde a mão dos serviços de inteligência turcos aparecem de maneira bastante clara.

A Turquia cumpre um papel de primeira importância no Oriente Médio. A desestabilização terá efeito muito mais catastrófico da crise na Síria e no Iraque. Conforme a crise capitalista se aprofunda, o avanço sobre o coração do capitalismo europeu e mundial se torna mais iminente.

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ATENTADOS NA TURQUIA – A SERVIÇO DE QUEM?

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No dia 10 de outubro, aconteceram dois brutais atentados terroristas, em Ankara, a capital da Turquia, a apenas três semanas das eleições nacionais.

Os atentados tiveram como alvo uma manifestação do Partido Democrático do Povo Curdo, o HDP. Dois terroristas suicidas detonaram poderosas bombas em duas saídas da principal estação de trens. O saldo de mortos ultrapassa os 130 e o de feridos supera os 200.

Esse atentado guarda bastante similaridade com o atentado que aconteceu no dia 20 de julho em Suruc, quando ativistas curdos se dirigiam em direção à cidade de Kobani, localizada na Síria, perto da fronteira, palco de fortes combates entre os curdos e o Estado Islâmico. Anteriormente, no mês de junho, em outra manifestação do HDP, que aconteceu dois dias antes das eleições nacionais de junho, um atentado similar aconteceu em Diyarbakir.

O atentado representa uma resposta à uma mudança da situação política. A Administração Obama passou de apoiar os “rebeldes moderados” sunitas a apoiar os curdos. A solução Obama-Putin-Irã na Síria contraria os interesses da Turquia, em primeiro lugar, e da Arábia Saudita e dos sionistas israelenses a seguir, estes últimos aliados estreitos da extrema direita norte-americana.

A aviação turca não consegue mais dar cobertura aérea ao Estado Islâmico e aos demais “rebeldes” devido à interferência russa. Existe a perspectiva da derrota do AKP (Partido da Justiça e do Desenvolvimento) nas eleições que acontecerão em novembro.

As monarquias do Golfo Pérsico e os sionistas israelenses tentam chegar a um acordo para impedir que a situação saia de controle. Netanyahu já manteve um encontro com Putin, colocando como linha vermelha o repasse de armas russas à milícia libanesa Hizbollah. Reuniões de alto nível aconteceram entre Putin, e as monarquias dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita.

QUAL FOI O OBJETIVO DOS ATAQUES?

O primeiro ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, chamou novas eleições após não ter conseguido a maioria necessária para estabelecer um governo forte nas eleições de junho. O partido oficial, o AKP, perdeu votos principalmente para o HDP curdo, que obteve mais de 12%, e para a direita turca.

Com o objetivo de “estornar” esses votos para o AKP, Erdogan ordenou a quebra da trégua com o PKK (Partido dos Trabalhadores), a milícia curda que luta pelo direito à autodeterminação desde a década de 1980. O PKK tinha participado ativamente, junto com o YPD (as milícias dos curdos sírios) os pershmengas (os curdos iraquianos) e a aviação norte-americana, na derrota do Estado Islâmico na cidade de Kobani.

O cálculo da liderança do AKP ao atacar o PKK era reduzir o apoio ao HDP, que tinha concentrado também parte dos votos de setores da esquerda turca, e da extrema direita que tinha crescido em cima da campanha contrária aos acordos de paz promovidos por Erdogan. O governo de Erdogan, ao mesmo tempo, aderiu à frente única da Administração Obama, permitindo o uso de base aéreas na Turquia e promovendo o ataque a alvos do Estado Islâmico, e também curdos, pela própria aviação. Essa política tinha como objetivo reduzir o papel dos curdos e minimizar o potencial do apoio da ala “esquerda” do imperialismo (Obama, Merkel, Hollande) à formação de um estado curdo.

As contradições do governo Erdogan têm aumentado não somente com os curdos, mas também com o Estado Islâmico, com quem mantinham uma relação incestuosa, assim como com as monarquias do Golfo Pérsico. O fortalecimento da presença russa e o início dos bombardeios pela aviação russa, colocaram em xeque a política de Erdogan de “criar uma zona buffer (alívio)” na região fronteiriça, nos moldes do que tinha sido feito na Líbia. Os russos alocaram os mísseis S-300 na Síria para impedir os “excessos” da aviação turca e sionista.

O ataque terrorista do Estado Islâmico coloca em xeque o próprio partido de Erdogan, o AKP, cujos militantes têm atacado as sedes do HDP acusando-o de terrorismo. O objetivo do AKP era restringir as votações nas regiões curdas alegando ameaça de confrontos, com o PKK, inclusive com o eventual remanejamento de urnas.

OS “INSTÁVEIS” ALIADOS TURCOS

A política de Erdogan para o Oriente Médio ficou ameaçada, principalmente porque após 2013 quando mudou a tradicional “neutralidade” turca para buscar a deposição de al-Assad na Síria.

A Turquia representa uma potência regional de primeira ordem no Oriente Médio. Mas as contradições existentes entre os próprios interesses e os das demais potências regionais e imperialistas têm provocado o acirramento das contradições e o vaivém da política turca. Isto pode ser observado principalmente em relação à Rússia e o Irã, a Israel e à Arábia Saudita. As contradições com os chineses também têm aumentado devido às relações e ao apoio do governo Erdogan a vários grupos “rebeldes” na região norte da Síria, como os grupos guerrilheiros islâmicos provenientes da Ásia Central e os Uyghur, da instável província ocidental da China.

O que resta ser analisado, e depende da análise posterior da evolução da situação política, é se o atentado foi apenas uma ação do Estado Islâmico, ou se houve o envolvimento de algum dos outros apoiadores desse grupo que tinha interesse em debilitar a Turquia e fortalecer a extrema direita. A Arábia Saudita e a extrema direita norte-americana aparecem como os suspeitos número um, mas ainda é cedo para afirma-lo. Há o interesse em comum de desenvolver o lucrativo gasoduto Qatar/ Arábia Saudita/ Síria/ Turquia em direção à Europa, o que inclusive está na base da intervenção dessas potências regionais na Síria.

A Turquia está se transformando em mais um ponto fraco na desestabilização do Oriente Médio, e se trata de um país membro da OTAN, que detém armas atômicas e que conta uma posição estratégica de primeira ordem. Depende do acordo entre a Administração Obama e as monarquias do Golfo aumentar a pressão sobre o governo Erdogan suspendendo o financiamento de US$ 60 bilhões anuais do déficit público anual e os US$ 300 bilhões da dívida externa turca.

RÚSSIA SÍRIA30

TURQUIA – ERDOGAN CONTRA O ESTADO ISLÂMICO OU CONTRA OS CURDOS?

O governo do presidente Recep Tayyip Erdogan durante um bom período aplicou uma política de “neutralidade” em relação ao Estado Islâmico na tentativa de direciona-lo para enfraquecer o governo de al-Assad. Exatamente a mesma política foi aplicada pela Arábia Saudita.

Conforme o Estado Islâmico começou a ficar fora de controle, a Administração Obama impulsionou uma política que tem como objetivo conter a desestabilização generalizada do Oriente Médio e, em primeiro lugar, os grupos islâmicos mais radicais.

Sobre a pressão dos norte-americanos tanto a Turquia como os sauditas acabaram aderindo a essa política. Mas o governo de Erdogan enfrentou um novo problema interno nas eleições gerais que aconteceram há dois meses. A margem da vitória do partido no governo não lhe permitirá realizar as reformas necessárias para estabelecer um governo mais forte. Além disso, o partido curdo e a extrema direita se fortaleceram. Perante a eventual possibilidade de ter que governar com uma coalisão fraca que poderia ser implodida, Erdogan adotou uma “saída alternativa”.

Erdogan cancelou a trégua e as negociações de paz com o PKK (Partido dos Trabalhadores) curdo, usou a cobertura dos ataques ao Estado Islâmico para bombardear as posições do PKK e convocou novas eleições para o dia 1 de novembro. Com esta política, o AKP, o partido no governo, busca enfraquecer tanto a extrema direita como o partido curdo e obter uma maioria folgada nas eleições.

O próprio discurso de Erdogan deu uma guinada à direita, conforme vários atentados, reivindicados por várias organizações se sucederam em várias regiões da Turquia. O PKK foi colocado no alvo dos ataques que têm deixado um crescente número de civis mortos.

POR TRÁS DA POLÍTICA DO GOVERNO TURCO

Ao retomar a guerra contra os guerrilheiros curdos, Erdogan busca enfraquecer o apoio à extrema direita e ao Partido Curdo que obteve mais de 12% dos votos nas eleições passadas atraindo votos de vários setores sociais. Ao mesmo tempo, aderindo à frente única impulsionada por Obama e abrindo bases para o uso pela aviação norte-americana, Erdogan busca se colocar à frente do combate ao Estado Islâmico, papel que até agora somente os curdos conseguiram desempenhar de maneira eficiente e integrada.

O fortalecimento dos curdos na Turquia e na Síria, tanto nos aspectos militar e político, fortalece as movimentações para a formação de um estado Curdo. Os curdos turcos habitam majoritariamente na Província da Anatólia Oriental que é o centro do nó (hub) por onde passarão os gasodutos que transportam gás do Azerbaijão e do Irã para a Europa. Perante a crise da tradicional indústria têxtil, a Turquia busca se transformar num fornecedor intermediário de energia, onde essa província desempenha um papel central.

A política da Turquia é contraditória, da mesma maneira que acontece em todo o Oriente Médio e em escala mundial, conforme a crise capitalista se aprofunda. O governo turco mantém relações com o Curdistão Iraquiano, cujo governo é muito próximo ao imperialismo norte-americano. Ao mesmo tempo que se posiciona como inimigo aberto de al-Assad, tenta conter o fortalecimento do Curdistão Sírio, cuja principal força, o PYD (as forças de autodefesa) mantém relações próximas com o PKK. Com o Irã, além das contradições na disputa pelo papel de potência regional, compartilha a oposição à criação de um estado Curdo. Com a Arábia Saudita, a outra grande potência regional, apoia os mesmos grupos guerrilheiros, a maior parte deles ligados a al-Qaeda e, durante um certo período, o próprio Estado Islâmico. Mas, ao mesmo tempo, a Arábia Saudita tenta conter o papel da Turquia na região.

A crise no Oriente Médio tem transformado a região na ponta do iceberg das contradições regionais em escala mundial. A Síria é o grande centro do contágio da crise que avança a passos largos na direção do coração da região, a Arábia Saudita.

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Silopi'deki zirhli polis araci hurdaya dondu

AMERİKAN KONSOLOSLUĞU'NDA YAŞANAN ÇATIŞMA KAMERALARA YANSIDI

SÍRIA – O ORIENTE MÉDIO EM CHAMAS – Parte 11

OS CURDOS e a QUESTÃO NACIONAL na TURQUIA

3Os curdos (que em árabe significa “o povo das montanhas”) representam a maior população mundial sem estado, com 30 milhões de pessoas, dos quais a metade vive na Turquia. O Curdistão se estende por quatro países, Turquia, Síria Iraque e Irão. Em torno de dois milhões vivem nas ex repúblicas soviéticas e na Europa.
O Tratado de Versalhes, que pôs fim à Primeira Guerra Mundial, dividiu o mapa da Europa e do Oriente Médio de acordo com os interesses da potências imperialistas vencedoras. A independência da Turquia, liderada por Kemal Ataturk, levou ao Tratado de Lausanne, em julho de 1923, que excluiu a autonomia dos curdos turcos. Três revoltas curdas foram esmagadas pela força militar. Em 1925, a de Sheik Said. Em 1927, a do partido Khoybun (Independência), que havia sido fundado no Líbano e que apoiou uma revolta liderada pelo general Ihsan Pasha. Entre 1936 a 1938, a revolta Dersim, dirigida por Sheikh Sayyid Riza.
A língua, as roupas e os nomes curdos foram proibidos. A atual Constituição afirma: “A determinação de que não haverá qualquer proteção a pensamentos ou opiniões contrárias aos interesses nacionais turcos, ao princípio da existência da Turquia como entidade indivisível”.
A lei antiterrorista, aprovada em abril de 1991, permite criminalizar a defesa dos direitos dos curdos. O Código Penal penaliza quem “provocar ódio ou animosidade entre grupos de raças, religiões, regiões ou classes sociais diferentes”. A “propaganda separatista” é condenada com prisão.
Os novos acordos entre o governo turco e o PKK (Partido dos Trabalhadores Curdos, na Turquia) tem levado a algumas concessões dentro do contexto da autonomia. Provavelmente, no próximo período, por causa do enfraquecimento nas recentes eleições do primeiro ministro turco, Erdogan, as negociações deverão ser retomadas.

QUAL É A POLÍTICA DO PKK?

0O PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) foi fundado em 1978 por um grupo onde predominavam os estudantes, liderado por Abdullah Öcalan. Dois anos depois adotou a luta armada, com o objetivo de enfrentar radicalizados a partir do golpe de estado desferido pelos militares turcos (1980-1983).
Preso, julgado e condenado à morte, Öcalan passou a defender a paz com a Turquia, ordenou a retirada das tropas do PKK do território da Turquia para o Norte do Iraque e abandonou a defesa da luta pela independência do Curdistão, passando a defender a autonomia curda nos marcos de uma federação turca. Ocalan passou a adotar as ideias do chamado “comunalismo libertário”, inspirado em Murray Bookchin, autor de “Ecologia e Liberdade”, entre outros. A experiência do governo autónomo do Curdistão sírio estaria inspirada nestas ideias.
Ocalan se encontra preso na Turquia, condenado a prisão perpétua.
O governo turco simplesmente tem enquadrado a questão curda, que é uma minoria que conta com 15 milhões de pessoas somente na Turquia, como sendo a luta contra o terrorismo, para o qual conta com o apoio da UE (União Europeia) e dos Estados Unidos. O Curdistão foi desmembrado após a Primeira Guerra Mundial em quatro partes que estão localizadas em quatro países – Turquia, Síria, Iraque e Irão. Na Turquia, ocupa a região de Anatólia Oriental. O que está por trás dos ataques contra os curdos? A política econômica do País, que enfrenta forte aprofundamento da crise capitalista, é transformar-se num nó (hub) do transporte de petróleo e gás para a Europa proveniente das repúblicas do Cáucaso, das repúblicas da Ásia Central, do Irã e do Curdistão Iraquiano. Deste projeto dependem, em grande medida, as pretensões de tornar-se uma potência regional de primeira ordem. Os imperialistas franceses e alemães mantêm uma aliança estreita com o governo turco, que faz parte da OTAN. As exigências nas negociações de paz entre o líder do PKK, Abdullah Öcalan, preso desde 1999, e o governo turco foram reduzidas. Da luta pela independência, que era o objetivo original, a negociação passou a se focar no estabelecimento de uma região autônoma, onde, entre outras coisas, a língua oficial fosse o Curda. A desestabilização da Síria provocou uma virada nas negociações que foram, na prática, congeladas no final do ano passado. O Curdistão sírio conseguiu um enorme grau de autonomia sob a direção do PYD (Partido da União Democrática) que é muito próximo ao PKK. A instauração de conselhos populares e a formação de um exército curdo na Síria que tem enfrentado o avanço das milícias e do exército sírio nas regiões curdas fortaleceu enormemente as posições e a luta do PKK na Turquia. A partir de meados de 2012, tem acontecido uma nova escalada dos enfrentamentos. O temor do governo turco e do imperialismo ainda se relaciona com o enfraquecimento da Turquia, uma potência nuclear, que poderia tornar-se um alvo e, ao mesmo tempo, uma ponte para o crescimento dos movimentos muçulmanos radicais que têm se fortalecido na Síria e nos demais países árabes, e que ameaçam se expandir na direção das repúblicas do Cáucaso e da Ásia Central, e das regiões do sul da Rússia.

O que REPRESENTA o AVANÇO ELEITORAL dos CURDOS na TURQUIA?

5O grande destaque nas recentes eleições presidenciais na Turquia foi o avanço eleitoral do partido curdo, o PDG (Partiya Demokratik a Gelan), que obteve quase 13% dos votos, ou 80 deputados de um total de 550. E esses votos não somente foram obtidos na Anatólia Oriental, o reduto curdo, mas também em importante cidades turcas como Ankara e Istambul, o que revela o desvio de votos do AKP para a esquerda e o enfraquecimento dos mecanismos de controle que estão colocados em pé.
O PDG é uma frente de cunho socialdemocrata, reformista, que conta com o apoio do PKK (Partido dos Trabalhadores), o grupo guerrilheiro curdo que tem negociado um cessar fogo com o governo Erdogan. As bandeiras são tímidas, considerando a gravidade da situação do povo curdo, e inclui a renúncia programática à independência do Curdistão. O líder do Partido, Selahattin Demirtas, aparece como um Alexis Tsipras (o líder do Syriza grego) ou um Pablo Iglesias (o líder do Podemos espanhol), ou seja, um jovem que tem muitas promessas, mas também a impossibilidade de cumpri-las por causa de que não é capaz de romper com as amarrações a burguesia local e o imperialismo.
Erdogan não conseguiu capitalizar as negociações com os curdos, apesar da alta dose de demagogia sobre o “vilayet”, o status de semi autonomia que promete outorgar ao Curdistão turco. Na prática, as promessas têm se materializado, a partir de março de 2014, na permissão do uso do idioma curdo nas escolas, na literatura e nas campanhas políticas, além do rebaixamento das condições para acessar o fundo partidário turco, que permitiram capitalizar o PDG nas eleições.
A política exterior turca para o Oriente Médio tem funcionado como uma espécie de boomerang em relação à política interna. O apoio semi velado ao Estado Islâmico e aberto ao Exército Sírio Livre tem impulsionado não somente o separatismo curdo como também o nacionalismo turco.
O desarmamento do PKK fracassou. As concessões foram muito poucas. Ao mesmo tempo, o MHP também pegou carona na atual situação política e capitalizou parte do poder eleitoral.
O AKP, na prática, congelou as negociações de paz com os curdos. A retomada pode ser uma carta que pode ser usada por Erdogan, da mesma maneira que a estabilização da Anatólia Oriental a partir do cessar fogo tem sido colocada na base do impulso à política de converter a Turquia num nó (hub) para o trânsito de gás para a Europa.
Da mesma maneira que acontece na Rússia e na China, o imperialismo corre por fora na tentativa de derrubar os governos de cunho nacionalistas e impor governos imperialistas. Mas a evolução da situação política poderá mudar conforme a crise capitalista continuar se desenvolvendo. Ao mesmo tempo, a burguesia deverá enfrentar a retomada do movimento de massas.
No próximo período, deverá ser analisado o fôlego de Erdogan para cooptar o PDG, o que já tem feito, de maneira parcial e contraditória com o PKK, e a evolução das contradições com o MHP (Partido de Ação Nacionalista), que é anti curdo e propõe a recomposição do império otomano, principalmente a partir da Ásia Central. Uma aproximação muito forte com o MHP pode reacender a luta armada do PKK.

OS CURDOS e a CRISE CAPITALISTA na TURQUIA

2A política econômica do País, que enfrenta forte aprofundamento da crise capitalista, é transformar-se num nó (hub) do transporte de petróleo e gás para a Europa proveniente das repúblicas do Cáucaso, das repúblicas da Ásia Central, do Irã e do Curdistão Iraquiano. Deste projeto dependem, em grande medida, as pretensões de tornar-se uma potência regional de primeira ordem. Os imperialistas franceses e alemães mantêm uma aliança estreita com o governo turco, que faz parte da OTAN.
As exigências nas negociações de paz entre o líder do PKK, Abdullah Öcalan, preso desde 1999, e o governo turco foram reduzidas. Da luta pela independência, que era o objetivo original, a negociação passou a se focar no estabelecimento de uma região autônoma, onde, entre outras coisas, a língua oficial fosse o Curda.
A desestabilização da Síria provocou uma virada nas negociações que foram, na prática, congeladas no final do ano passado. O Curdistão sírio conseguiu um enorme grau de autonomia sob a direção do PYD (Partido da União Democrática) que é muito próximo ao PKK. A instauração de conselhos populares e a formação de um exército curdo na Síria que tem enfrentado o avanço das milícias e do exército sírio nas regiões curdas fortaleceu enormemente as posições e a luta do PKK na Turquia. A partir de meados de 2012, tem acontecido uma nova escalada dos enfrentamentos.
O temor do governo turco e do imperialismo ainda se relaciona com o enfraquecimento da Turquia, uma potência nuclear, que poderia tornar-se um alvo e, ao mesmo tempo, uma ponte para o crescimento dos movimentos muçulmanos radicais que têm se fortalecido na Síria e nos demais países árabes, e que ameaçam se expandir na direção das repúblicas do Cáucaso e da Ásia Central, e das regiões do sul da Rússia.
A desestabilização do Oriente Médio, apesar de tratar-se de países secundários, tem uma importância fundamental para a evolução da política mundial devido à questão do petróleo. Além das enormes reservas, as monarquias do Golfo Pérsico vendem o petróleo em dólares norte-americanos, o que se encontra na base dos petrodólares que sustentam a ditadura do dólar. Sob esta operação se sustenta o grosso da especulação financeira, que representa o coração da economia capitalista mundial. O colapso dos petrodólares significaria a bancarrota imediata do dólar como divisa mundial, do sistema financeiro e a entrada do mundo capitalista numa tremenda espiral hiperinflacionária e na depressão econômica.

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VEJA TAMBÉM:

Parte 1- O ORIENTE MÉDIO EM CHAMAS

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Parte 2- A QUEDA INEVITÁVEL de AL-ASSAD

https://www.facebook.com/alejandro.acosta.7547031/posts/866756043390828

Parte 3- FRENTE ÚNICA CONTRA o ESTADO ISLÂMICO?

https://www.facebook.com/alejandro.acosta.7547031/posts/867282816671484

Parte 4- QUAIS SÃO AS FORÇAS QUE SE ENFRENTAM NA SÍRIA?

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Parte 5- ONDE ESTÁ A ESQUERDA REVOLUCIONÁRIA NA SÍRIA?

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Parte 6- QUAIS SÃO AS FORÇAS QUE SE ENFRENTAM NA SÍRIA? OS ALAWITAS

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Parte 7- QUAIS SÃO AS FORÇAS QUE SE ENFRENTAM NA SÍRIA? AL NUSRA E O ESL

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Parte 8- QUAIS SÃO AS FORÇAS QUE SE ENFRENTAM NA SÍRIA? O ESTADO ISLÂMICO

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Parte 9- QUAIS SÃO AS FORÇAS QUE SE ENFRENTAM NA SÍRIA? O HIZBOLLAH LIBANÊS

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Parte 10- QUAIS SÃO AS FORÇAS QUE SE ENFRENTAM NA SÍRIA? OS CURDOS

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Parte 11- O CURDOS E A QUESTÃO NACIONAL NA TURQUIA

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Parte 12- A AL-QAEDA MORREU?

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Parte 13- DA SÍRIA AO IRAQUE. DO IRAQUE AO IRÃ E À ARÁBIA SAUDITA

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Parte 14- IEMEN, QUEM SERÁ O PRÓXIMO?

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Parte 15- GUERRA TOTAL = CAOS TOTAL

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O ORIENTE MÉDIO EM CHAMAS (Parte 16)

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