PETRÓLEO E CRISE NO ORIENTE MÉDIO … E NO MUNDO

ARABIA SAUDITA E IRÃ

 

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Recentemente, a monarquia da Arábia Saudita anunciou o rompimento das relações diplomáticas com a República Islâmica do Irã. A razão oficial foi o ataque à embaixada saudita em Teerã, a capital do Irã, por manifestantes em protestos pela execução do mais proeminente líder xiita na Arábia Saudita, o clérigo Nimr al-Nimr, que teriam sido facilitados pelo regime dos aiatolás.

Em seguida, outros países controlados pelos sauditas (Jordânia, Kuwait, Bahrein, Djibuti e Sudão) retiraram os embaixadores do Irã. O Egito e os Emirados Árabes Unidos rebaixaram as relações, sem rompe-las, apesar de encontrar-se num nível já muito baixo. A Turquia e o governo do Curdistão Iraquiano fizeram algumas críticas, mas qualificaram as execuções como assuntos internos dos sauditas. O governo da Nigéria tinha prendido alguns xiitas algumas semanas atrás, a pedido dos sauditas, mas não rompeu relações. Uma situação similar aconteceu no Paquistão. Este país tem na Arábia Saudita por volta de 1,5 milhões de trabalhadores, 500 mil somente na polícia e no exército.

Para camuflar o verdadeiro objetivo da ação, junto com o clérigo xiita foram condenados a morte mais de 45 pessoas, quase todos eles sunitas, por ligações com a al-Qaeda e o Estado Islâmico. Em paralelo, foi assinado um contrato por mais de US$ 1 bilhão para a compra de armas dos Estados Unidos e o destravamento do contrato com a Lockheed, a gigantente norte-americana do setor de armas, por mais de US$ 11 bilhões. Com a Rússia e a China, os sauditas acenaram com novos contratos para a compra de armas, além dos contratos já assinados na última Feira de São Petersburgo.

Os russos, a China e o Iraque se ofereceram como intermediários para tentar rebaixar as tensões. O governo do Irã ordenou à Promotoria Pública acelerar as investigações e chamou a monarquia saudita à distensão.

O clérigo Nimr al-Nimr tinha sido um dos principais líderes dos protestos de 2012, a “primavera árabe” saudita, que teve como foco a Província Oriental, habitada principalmente por xiitas, e onde se encontra o grosso das reserva do petróleo e a própria sede da Aramco, a empresa estatal de petróleo. Na época, os protestos foram sufocados com muita repressão e por meio de um pacote de ajuda econômica para os pobres, que superou os US$ 50 bilhões. Vários líderes foram presos na época e condenados a morte em 2014. Os pobres somam mais de quarta parte dos 20 milhões de habitantes do Reino e são majoritariamente os xiitas da Província Oriental. Mas por que a monarquia saudita decretou as execuções sabendo que poderiam enfraquecer o regime que já enfrenta a aceleração da crise?

 

ARÁBIA SAUDITA: A CRISE DO BALUARTE DO IMPERIALISMO NO ORIENTE MÉDIO

 

A monarquia saudita enfrenta o acelerado aprofundamento da crise capitalista por causa da forte queda dos preços do petróleo. A pobreza avança por causa da carestia da vida, principalmente os preços dos alimentos e a especulação imobiliária.

O déficit fiscal de 2015 superou os US$ 110 bilhões. De manter-se a situação atual, as reservas internacionais evaporariam em cinco anos. A crise da política internacional saudita tem provocado fortes rachaduras no interior da Casa dos Sauds. Os gastos para manter em pé a ditadura encabeçada pelo ex general al-Sisi no Egito, o pântano da guerra do Iêmen, o pântano da guerra da Síria, o distanciamento com a Administração Obama, a crescente aproximação da China com a Rússia às custas do distanciamento com os sauditas.

Somente no Egito, os sauditas têm injetado mais de US$ 12 bilhões, dos quais o repasse de US$ 3 bilhões foi assinado neste mês, mas a economia não tem saído do chão. Além do forte aprofundamento da crise econômica, da indústria têxtil e do turismo, há a crise da segurança interna, com a crescente atuação do Estado Islâmico e de outros grupos radicais que estão tomando o espaço da Irmandade Muçulmana que foi derrocada pelo golpe militar de 2013.

No Iêmen, os sauditas tem fortalecido os bombardeios assassinando milhares de civis. O que começou como quase um passeio na região sul, após a toma do Porto de Aden, se tornou um pântano após a tomada da cidade de Marib e o avanço em direção a Sanaa, a capital do pais, nas regiões montanhosas que são os bastiões dos Houthis, os rebeldes que são apoiados pelo Irã.

Na Síria, aparece de maneira muito clara a política do wahabismo, a versão saudita do Islã, que é muito próxima dos tafquiris radicais, ou salafistas, como o Estado Islâmico e a al-Qaeda. A política golpista na região foi encabeçada pelo chefe dos serviços de inteligência, o príncipe al-Sultan, que foi retirado do cargo há dois anos quando a política exterior saudita começou a entrar em crise.

A partir do mês de junho do ano passado, a Administração Obama se aproximou da Rússia, do Irã e da China com o objetivo de conter a crise no Oriente Médio, a partir da Síria. O apoio aos “grupos rebeldes” pelos sauditas, o Catar, a Jordânia, os Emirados Árabes Unidos e pela Turquia ameaçava implodir a região, da mesma maneira que tinha acontecido na Líbia e na Somália. Com essa nova política, a Arábia Saudita acentuou a crise e, apesar de manter a aliança geral com os Estados Unidos, tentou avançar na direção da ofensiva contra o principal rival na região, o Irã.

 

NO CENTRO DA CRISE: O PETRÓLEO

 

A crise da monarquia saudita veio à tona com as manifestações públicas de vários príncipes contra a política aplicada pelo atual rei Salman, que poderia levar à implosão do Reino. Vários deles pedem a renuncia.

Na base da crise da Arábia Saudita, está a queda vertiginosa dos preços do petróleo que atingiu o menor nível desde 2004.

Uma das políticas que os sauditas poderiam aplicar seria impor a redução da produção a partir da OPEP (Organização dos Produtores de Petróleo). Essa medida é apoiada pela Venezuela, a Angola e a Nigéria, e inclusive pela Rússia que não é membro da OPEP, assim como por todos os países que dependem do petróleo. Mas com o levantamento das sanções contra o Irã, este país deverá passar a colocar no mercado mais de um milhão de barris diários adicionais.

Com a manutenção da produção, os sauditas buscam colocar em xeque a economia da Rússia, da mesma maneira que o fizeram com a antiga União Soviética na década de 1980, do Irã, o principal rival no Oriente Médio, e dos Estados Unidos, onde a Administração Obama tem se distanciado dos sauditas para se aproximar da Rússia e do Irã. Os preços baixos do petróleo inviabilizam a produção a partir do xisto, mesmo com os métodos ultra depredadores. Com a economia norte-americana em crise aumentam as chances da ala direita do imperialismo vencer as eleições presidenciais que acontecerão no final deste ano.

Além dos fatores sobre os quais a burguesia detém um certo controle, há os “incontroláveis”. O aprofundamento da crise capitalista não pode ser controlada por uma determinada política. A maior parte das políticas aplicadas têm na base a tentativa de defender os lucros, na concorrência com os competidores. São as leis do capital em ação e no piloto automático.

Para o próximo período, está colocado um novo colapso capitalista de proporções ainda maiores que o de 2008. Todos os fatores que estavam atuantes em 2008 se encontram presentes e com ainda mais força.

 

 

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Brigadeiro General iraniano ASSASSINADO NA SÍRIA

Ira Acordo Nuclear5Qual o significado?

O Brigadeiro General Hossein Hamedani, um veterano da Guerra Irã – Iraque, era um alto comandante do Corpo de  Guardiães da Revolução Islâmica do Irã (IRGC). Ele era um importante organizador das milícias xiitas no Iraque e na Síria.

No momento do assassinato, Hamedani se encontrava em Aleppo, a segunda cidade Síria em ordem de importância, o que revela o grau de intervenção e comprometimento do governo iraniano na Síria.

O Estado Islâmico realizou o ataque, mas, muito possivelmente, houve a mão dos serviços de inteligência por trás. Hamedani, assim como vários outros comandantes do primeiro escalão da IRGC e, principalmente dos Quds, as forças especiais da IRGC, estava na lista dos “assassináveis” do Mossad sionista havia tempo.

Israel escalou a campanha contra o Irã após a derrota de 2006 no Líbano. A poderosa milícia libanesa Hizbollah conseguiu fazer o que 11 exércitos árabes juntos não conseguiram em 1967 e 1971, derrotar os sionistas em termos militares. E o Irã esteve por trás.

O Hizbollah representa a milícia mais poderosa do Líbano, inclusive mais poderosa que o próprio exército. Em 2008, quando aumentou a pressão pelo seu desarmamento, chegou a tomar o controle da capital, Beirut, rapidamente, o que conduz aos acordos de Doha, que regem o sistema político no Líbano até hoje.

O Irã se encontra na linha de frente do combate aos “rebeldes” na Síria e no Iraque. Os Quds representam o principal instrumento militar de atuação do regime dos aiatolás no Oriente Médio. O principal comandante do Quds, o Brigadeiro General Soulemani esteve em Moscou recentemente para sincronizar a atuação.

Os chamados “rebeldes” atuam, em determinados graus, como instrumentos das potências regionais e do imperialismo no Oriente Médio, inclusive o Estado Islâmico.

Neste momento, se formaram dois blocos principais no Oriente Médio:

O primeiro bloco é formado pela Rússia, o Irã, a China e a ala “esquerda” do imperialismo: Obama, Merkel, Hollande. Este bloco inclui os curdos (sírios, turcos e iraquianos) e o Hizbollah.

O segundo bloco é formado pela Arábia Saudita, os Emirados Árabes, Israel e a ala direita do imperialismo. Este bloco inclui uma miríade de grupos “rebeldes”, com diversos graus de aproximação e controle. O principais são a al-Nusra (a al-Qaeda na Síria) e o Estado Islâmico sobre os quais o controle e os acordos são fluidos, principalmente em relação a o último.

Em terceiro lugar, há os países que oscilam entre os dois blocos, principalmente a Turquia, o Catar e o Egito.

O IRÃ PODE ATACAR ISRAEL?

O acordo sobre o programa nuclear do Irã foi viabilizado pela Administração Obama. O objetivo foi colocar em pé uma frente única que permitisse conter a desestabilização do Oriente Médio. O apoio do Irã, por meio das milícias no Iraque, e do Hizbollah na Síria é a condição fundamental para conter o avanço do Estado Islâmico e para conter os demais grupos guerrilheiros, em primeiro lugar a al-Nusra, a al-Qaeda na Síria.

Essa política busca conter a crise no Oriente Médio e manter a política da chamada “contrarrevolução democrática” como uma alternativa perante as eleições que acontecerão nos Estados Unidos no próximo ano, no contexto em que o Partido Republicano já controla ambas câmaras do Congresso impulsionado, em grande medida, pela extrema direita agrupada no Tea Party.

A ala direita do imperialismo não concorda com essa política e busca impor uma saída de força para a crise. No Oriente Médio, os sionistas israelenses e a Arábia Saudita são aliados da direita norte-americana e possuem contradições com a Administração Obama.

Essas contradições ficaram evidentes a partir das últimas eleições eleições presidenciais quando o candidato Republicano derrotado, Mitt Rommey, levantou como solução para a crise com o Irã e a China a guerra, inclusive a guerra nuclear.

NETANYAHU E A AMEAÇA DO IRÃ

O primeiro ministro israelense, Benjamin Netanyahu, tem ficado à cabeça da campanha histérica sobre o “perigo” do Irã para a existência do estado do Israel.

Em primeiro lugar, a histeria busca agrupar os setores de extrema direita, com o objetivo de dar sustentabilidade ao governo, e pressionar o governo norte-americano para continuar recebendo a ajuda militar de US$ 3 bilhões anuais, além de se manter como um aliado preferencial do imperialismo norte-americano.

Os próprios generais do Exército israelenses e o Mossad, o serviço de inteligência sionista, descartaram a possibilidade do Irã atacar Israel e alertaram sobre os perigos de Israel atacar o Irã.

A política do Irã no Oriente Médio é fundamentalmente defensiva e busca, em primeiro lugar, garantir a estabilidade perante a agressividade da Arábia Saudita e dos sionistas israelenses. A atuação no Iraque e na Síria tem como objetivo garantir a estabilidade da fronteira ocidental, de onde tiveram origem os ataques com o Irã, o último dos quais foi feito por Saddam Husseim após a Revolução de 1979, apoiado pelo imperialismo norte-americano, a União Soviética, Israel e a Arábia Saudita.

No Líbano, o Hizbollah, que é amplamente apoiado e financiado por Irã, representa o principal instrumento de contenção da agressividade da reação na região e um dos principais aliados dos palestinos. Sendo estes sunitas e o Hizbollah e o regime dos aiotolás iranianos xiitas, esta aliança representa um alerta vermelho para a política imperialista na região que tem na base promover o sectarismo e a divisão dos povos árabes.

IRÃ PODE ATACAR ISRAEL?

A probabilidade é muito remota. A política do regime dos aiatolás é fundamentalmente defensiva. O Líder Supremo tem declarado em várias ocasiões que o Irã não desenvolverá a bomba atômica, que é contra o Islã etc. Mas, mesmo se o Irã conseguisse desenvolver a bomba atômica, dificilmente conseguiria usa-la contra Israel.

Apesar do programa nuclear israelense ser mantido em segredo, os sionistas possuem em torno de 200 mísseis nucleares. O Irã ainda teria que enfrentar a retaliação dos Estados Unidos que conta com a VI Frota, armada até os dentes, estacionada no vizinho Catar.

Na situação política atual, Israel somente pode ser destruído a partir da evolução das contradições internas e não a partir de uma agressão externa.

As agressões genocidas contra os palestinos ainda não conseguiram colocar em movimento as massas israelenses. Grandes protestos aconteceram há dois anos por causa da carestia da vida.

No dia 31 de julho terroristas de extrema direita botaram fogo em duas casas de palestinos em Douma, perto da cidade de Nablus. Uma criança de um ano e meio de idade foi queimada viva e o pai dela faleceu uma semana depois. As agressões contra a população da Faixa de Gaza, que é um presídio a céu aberto, continuam de maneira recorrente. Mas a evolução da situação política poderá converter esses acontecimentos em faíscas altamente desestabilizadoras no próximo período.

DO SIONISMO AO GRANDE ISRAEL

O sionismo é uma corrente nacionalista de extrema direita que tem a origem na segunda metade do século XIX, quando onda migratórias de judeus se assentaram na Palestina. Os representantes das origens do sionismo, Ahad Haam (Asher Ginsberg) e Zeev Jabotinsky, este um dos fundadores do Irgun, responsável pelo massacre de palestinos logo após a Segunda Guerra Mundial, buscavam impor um estado de Israel contra os palestinos. Jabotinsky chegou a dizer, em 1923, que era necessário construir um muro de ferro contra os árabes.

Israel representa o principal instrumento do imperialismo norte-americano para controlar o Oriente Médio, um revolver apontado contra os povos árabes. Os tratados de paz com a Jordânia e o Egito garante a estabilidade das fronteiras. O chamado Conselho de Segurança do Golfo Pérsico, liderado pela ultra reacionária monarquia saudita, representa o segundo pilar do controle da região pelo imperialismo. Mas neste caso o controle é mais contraditório e existem interesses próprios que, às vezes, se contrapõem à política imperialista.

O Hizbollah e os grupos guerrilheiros islâmicos têm pouca capacidade de ação contra Israel, mas a evolução política geral da região tende a apertar o cerco contra o estado sionista.

Os sionistas israelenses tentam aplicar o velho sonho de criar o Grande Israel, que passa por ampliar as fronteiras a partir da expulsão dos palestinos. Essa política tem impulsionada o desenvolvimento das tendências revolucionárias na região. A própria existência do Hizbollah, a milícia mais forte que existe em escala mundial, em grande medida, justifica sua existência por causa dessa política. Mas essa política é contraditória e enfrenta crescentes dificuldades para se sustentar por causa da crescente desestabilização da região.

O papel da extrema direita sionista tende a se transformar num fator desestabilizar que pode quebrar a unidade nacional em Israel conforme a crise se desenvolver no próximo período. Rachaduras já começaram a aparecer, apesar de Netanyahu tentar oculta-las. Foi estabelecida uma frente única entre os sionistas israelenses, os golpistas egípcios e o Hamas para combater o Estado Islâmico na Península do Sinai. Membros do governo falam em permitir a criação de um porto em Gaza e aceitar trabalhadores palestinos em Israel em troca de estabilidade durante 10 anos.

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IRÃ – DE MOCINHO A PÁREA …

Qual foi o significado e a evolução da Revolução de 1979?

A Revolução Iraniana de 1979 foi o principal acontecimento político após o colapso capitalista mundial de 1974. A chamada crise mundial do petróleo foi a lápide para a política que tinha conseguido manter a estabilidade do capitalismo mundial após a Segunda Guerra Mundial. O chamado keynesianismo, começou a dar sinais de esgotamento já na década de 1960.

A Guerra do Vietnam elevou os gastos do governo norte-americano e levou ao calote de 1971 quando o governo de Richard Nixon decretou o fim dos Tratados de Bretton Woods que estipulavam a conversibilidade do dólar ao padrão ouro.

As tendências inflacionárias e o desemprego dispararam após 1974. A desestabilização política teve como sinal de largada a Revolução Iraniana de 1979, no país que era o principal, e mais forte, aliado do imperialismo norte-americano no Oriente Médio. A partir daí todas as ditaduras militar colapsaram no mundo inteiro. Era o final de uma etapa em que os Estados Unidos colocaram em pé ditaduras ferozes, em praticamente todos os países atrasados, dignas de dar inveja ao próprio Adolf Hitler.

DO GOLPE DE ESTADO DE 1953 À BRUTAL DITADURA DO SHAH REZA PALEVI

Em 1953, o golpe de estado promovido pela CIA contra o governo nacionalista de Mohammad Moussadegh abria caminho para os golpes militares semi fascistas que passaram a predominar em todo o mundo. O Shah Reza Palevi, que na época vivia na França encabeçou o novo governo. A primeira medida foi devolver a Persian Oil, que tinha sido nacionalizada por Moussadegh, para os britânicos, apesar de que os norte-americanos ficaram com 55% do total.

A CIA colocou em pé uma das mais sanguinárias polícias políticas do planeta, a Savak. O Irã foi armado até os dentes e passou a garantir o consumo de petróleo por Israel.

Todos os partidos políticos e organizações sociais e sindicais foram perseguidas. Houve massacres dos curdos e de outras minorias.

O Shah esteve na linha de frente do choque do petróleo de 1973, incentivado pelo então secretario do Departamento de Estado Henry Kissenger, quando ficou evidente que os Estados Unidos seriam derrotados no Irã. O objetivo era garantir recursos extras, por meio do aumento dos preços do petróleo, para possibilitar o aumento das compras de armas que agora não poderia ser enviadas para o Vietnam. O complexo industrial-militar já tinha se consolidado.

Cinco da sete maiores petrolíferas eram norte-americanas, três delas controladas diretamente pela família Rockefeller (Exxon, Mobil e Socal). Os lucros foram obscenos ao mesmo tempo que o desenvolvimento industrial europeu e japonês foi colocado em xeque.

No Irã, a população era majoritariamente agrária. Devido à falta de uma reforma agrária, as periferias das grandes cidades passaram a ser habitadas por um proletariado empobrecido e inculto que acabou sendo um dos principais combustível da mão de obra barata, semi escrava, mas também da Revolução de 1979.

A REVOLUÇÃO DE 1979

Durante a década de 1970, os Estados Unidos começaram a impulsionar um programa nuclear no Irã com o objetivo de intimidar o nacionalismo árabe. O regime do Shah parecia todo poderoso, da mesma maneira que hoje parecem ser os sionistas israelenses ou as potências imperialistas.

A desestabilização do regime do Shah começou no mês de setembro de 1978 por causa do aumento da carestia da vida. O movimento de massas crescia enquanto a repressão assassinava alguns dos manifestantes. O regime chegou a propor ao aiatolá Khomenei, que se encontrava em Paris, a criação de uma espécie de Vaticano na cidade de Qom, o centro religioso xiita localizado a duas horas de Teerã. A situação política se desenvolveu rapidamente e o regime desabou como um castelo de cartas, em apenas uma semana, no início de 1979.

Khomeini contava com uma força organizada que não tinha sido atingida pela repressão da Savak, 160 mil mullahs que mobilizaram as camadas mais pobres da população.

No início Khomeini estabeleceu negociações com elementos da burguesia local, como Mehdi Bazargan, que foi nomeado primeiro ministro, e Bani Sadr, que foi nomeado presidente. Em pouco tempo, Saddam Hussein, impulsionado pelo imperialismo norte-americano, os sauditas, os sionistas israelenses e a União Soviética, invadia o Irã declarando que em cinco dias estaria tomando café da manhã em Teerã. A situação política se radicalizou. Khomeini buscou fortalecer a unidade nacional com o objetivo de enfrentar a agressão. O exército foi remontado, junto com a Guarda Republicana e as milícias. A política interna foi endurecida e uma enorme repressão se sucedeu contra todos os grupos de oposição ao regime.

A guerra do Iraque contra o Irã se estendeu de 1980 a 1988. O Iraque foi derrotado e as tropas de Saddam Hussein foram expulsas do país.

As potências imperialistas aplicaram sanções contra o novo regime na tentativa de sufoca-lo e de impedir o contágio na região. US$ 60 bilhões que o Shah tinha roubado dos cofres públicos não foram devolvidos até hoje.

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ACORDO NUCLEAR COM O IRÃ – O QUE VEM DEPOIS?

Quais são as contradições entre as principais potências regionais do Oriente Médio?

O acordo nuclear com o Irã foi impulsionado pela Administração Obama perante a necessidade colocar em pé uma frente única que conseguisse conter a crescente desestabilização do Oriente Médio.

O levantamento das sanções permitiu a imediata inclusão do Irã na OCX (Organização de Cooperação de Xangai), impulsionada pela China e pela Rússia.

Os monopólios petrolíferos estão de olho no Irã. A italiana ENI, a britânica BP e a Shell já encaminharam negociações. Esta última tem uma dívida de US$ 2 bilhões com a Companhia Nacional de Petróleo do Irã que não tinha sido paga por causa das sanções.

O Irã possui mais de 30 milhões de barris de petróleo armazenados, o que representa a capacidade de influenciar uma queda ainda maior dos preços. No mesmo sentido, o Irã tem a capacidade de aumentar as exportações, que hoje se encontram em um milhão de barris diários, em 500 mil a um milhão adicionais. Com investimentos na infraestrutura esses números podem aumentar sensivelmente.

O mesmo acontece em relação ao gás. A partir do mega campo de Pars, que compartilha com o Catar, as exportações devem aumentar em 50%, a partir de 800 milhões de metros cúbicos diários, em cinco anos. Mas para isso acontecer são necessários maciços investimentos.

Grandes negócios apareceram no horizonte. Os sócios preferencias da OCX, principalmente a China e a Rússia estão entre os primeiros na fila, mas entram na disputam os monopólios imperialistas.

A TURQUIA E O IRÃ

Enquanto a Arábia Saudita é o principal rival do Irã no Oriente Médio, a Turquia possui relações contraditórias. Uma quarta parte do consumo da Turquia depende do petróleo iraniano. Em termos políticos, ambos governos se opõem à autodeterminação dos curdos.

Já no início do governo liderado pelo aiatolá Khomeini, uma forte repressão sufocou as tendências separatistas no Curdistão iraniano, onde vivem em torno de sete milhões de curdos. O grupo guerrilheiro ligado ao PKK turco acabou sendo derrotando e se retirando do Irã. Ao mesmo tempo, ambos governos usam os grupos curdos na tentativa de obter vantagens sobre o outro.

Em relação ao Estado Islâmico, o governo Erdogan tem adotado uma posição de semi neutralidade com o objetivo de usa-lo para desestabilizar o governo de al-Assad, que é um aliado do Irã, e o governo do Iraque, que também é um aliado do Irã. Somente, mais recentemente o governo turco tem se envolvido na luta contra os curdos conforme a atividade do grupo começou a ficar fora de controle, inclusive com ações no território turco, e a pressão do governo norte-americano tem aumentado. Mas a atuação é contraditória, pois os curdos fazem parte da frente contra o Estado Islâmico e inclusive são a força mais forte no campo de batalha. A tentativa de criar uma área de exclusão aérea, ao estilo do que foi feito na Líbia, tem como objetivo atingir o controle curdo das regiões do nordeste da Síria e do sul da Turquia, na Província de Anatólia Oriental.

A ARÁBIA SAUDITA E O IRÃ

As contradições entre a monarquia saudita e o regime dos aiatolás iranianos é muito maior que as contradições existentes com a Turquia. O wahabismo saudista é muito próximo à ideologia salafista do Estado Islâmico.

Os xiitas compõem em torno a 15% da população da Arábia Saudita, habitando principalmente a Província onde se encontra localizadas as principais reservas de petróleo. Em 2011 e 2012, a repressão contra os xiitas sauditas foi intensa.

Em 2011, a repressão contra os xiitas em Bahrein foi feroz. E agora a mesma política agressiva se repete no Iêmen.

A tentativa de desestabilizar a situação na Síria e de derrubar o governo de al-Assad passa, em grande medida pela contenção da influência do Irã no país e dificultar o suprimento do Hizbollah, a milícia libanesa. Os sauditas também tentaram se valer do Estado Islâmico com estes objetivo durante um período e somente abandonaram esta política quando a situação começou a escapar de controle. O apoio à al-Nusra, a al-Qaeda na Síria teria diminuído. Mas os sauditas, assim como a Turquia, a Jordânia e os Emirados Árabes Unidos financiam uma miríade de grupos guerrilheiros e tribos, de maneira contraditória.

Em relação aos curdos a tendência dos sauditas é a manter certo apoio tanto com o objetivo de eventualmente usa-los, por exemplo apoiando um Curdistão autônomo na Síria, para desestabilizar o Irã assim como para conter as pretensões de potência regional da própria Turquia.

Após o fracasso da política de força, abertamente golpista, que a Arábia Saudita tentou impor no Oriente Médio por meio do chefe dos serviços de inteligência Bin Sultan, o ex embaixador nos Estados Unidos durante 20 anos, houve, em 2014, a tentativa de uma aproximação diplomática com o Irã. Essa tentativa foi abortada por causa da explosão da crise no Iêmen, onde os Houthis, apoiados pelo Irã, capturaram a capital do país, Sanaa, e quase capturaram o principal porto do país, Aden.

Enquanto a situação política tem evoluído para o acordo com o Irã na Síria e no Iraque, no Iêmen, o conflito tem escalado.

O EGITO E O IRÃ

O Egito tem representado um dos principais componentes do controle do Oriente Médio pelo imperialismo norte-americano a partir dos acordos de paz com Israel de 1979.

O governo golpista do general al-Sisi, imposto pela Arábia Saudita, contra o governo da Irmandade Muçulmana, encabeçado por Mohammed Morsi, criou alguns constrangimentos iniciais para a política Administração Obama, mas as relações se encontram a todo vapor novamente. A ajuda militar de US$ 1,5 bilhões anuais foi retomada com a desculpa de que é importante para enfrentar o Estado Islâmico.

A relação do Egito com o Irã é contraditória. Ao mesmo tempo que participa da coalisão contra os Houthis no Iêmen e mantem acordo com os sionistas, tem se aproximado do governo russo na tentativa de coordenar ações contra o Estado Islâmico, que avança no Egito e de estabilizar a situação na Síria.

O vácuo de poder criado em vários lugares a partir das revoluções árabes de 2011 continuará impulsionando relações contraditórias entre as potências regionais, e o imperialismo, com novos componentes na situação política que ainda deverão se tornar mais voláteis no próximo período conforme a crise capitalista se aprofundar.

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IRÃ e OBAMA

Irã

COMO “MATAR UM COELHO” E LEVAR UMA CASSETADA?

IrãA Administração Obama impulsionou um acordo com o Irã. Ofereceu o levantamento das sanções sobre o programa nuclear em troca do envolvimento, mais a fundo, do regime dos aiatolás na frente única para conter a crise no Oriente Médio.
Neste momento, a crise passa pelo controle do Estado Islâmico, uma espécie de cachorro louco que saiu de controle.
O efeito colateral é que o levantamento das sanções colocará imediatamente o Irã como membro pleno da OCX (Organização de Cooperação de Xangai), liderada pela China e a Federação Russa.
Um bloco continua se desenvolvendo em cima dos próprios interesses, contra os interesses do imperialismo, em boa medida.
Os chineses, com a OCX por trás, têm impulsionado o chamado “Novo Caminho da Seda”, que busca facilitar o comercio da China com a Europa, incluindo vários países asiáticos e do Oriente Médio. Essa política tem o potencial de implodir a frente única que o imperialismo norte-americano colocou em pé após a Segunda Guerra Mundial. A Alemanha e a França participam. 

O PAPEL DO IRÃ NO ORIENTE MÉDIO

O Irã é uma potência regional de primeira ordem que tem importantes contradições com a Arábia Saudita. O Irã é um componente chave no Caminho da Seda por causa do fornecimento de petróleo e gás.
O recente investimento bilionário dos chineses no Paquistão (U$ 90 bilhões) tem como objetivo viabilizar oleodutos e gasodutos, estes com o objetivo de bombear gás a partir do megacampo de Pars, localizado na fronteira com o Catar. Os chineses querem (precisam) ultrapassar o Estreito de Malacca (localizado entre a Malásia e a Indonésia), que conta com apenas 30 quilômetros de largura e pode ser facilmente bloqueado pela marinha norte-americana. Os Estados Unidos direcionaram nada menos que a metade do orçamento do Pentágono para a região com o objetivo de conter a expansão da China.
No Oriente Médio, o papel estabilizador do Irã é importante já que controla as milícias xiitas no Iraque e é um aliado próximo da poderosa milícia xiita libanesa, o Hizbollah.
Essa política da Administração Obama tem como objetivo estabilizar a região e se apresentar como alternativa viável para as eleições nacionais que acontecerão nos Estados Unidos no próximo ano. Mas essa política se contrapõe à política da ala direita do imperialismo, principalmente do Tea Party, a extrema direita agrupada no Partido Republicano, aliada, de primeira ordem, dos sionistas israelenses e das obscurantistas monarquias do Oriente Médio.

IRÃ: DE PÁREA A “MOCINHO”?

  • O que mostram as recentes negociações para chegar a um acordo sobre o programa nuclear do Irã?
  • Por que há um esforço “enorme” da Administração Obama para conseguir o acordo?
  • Qual é o verdadeiro significado desse acordo?

As negociações com o Irã, que estão acontecendo em Viena, Áustria, ultrapassaram a data limite (“dead line” em inglês, data da morte literalmente) de 30 de junho. Uma nova data limite foi estabelecida para o dia 7 de julho, com a perspectiva de submeter o acordo a aprovação do Congresso dos Estados Unidos no dia 9 de julho.
Esse acordo está sendo tentado há mais de dois anos, mas foi acelerado, neste ano, pela iniciativa da Administração Obama, que colocou o próprio John Kerry à frente da delegação e das amarrações com os demais participantes, a Rússia, Estados Unidos, França, Grã Bretanha, Alemanha e a China.
Há problemas importantes para fechar o acordo que se relacionam com as contradições existentes entre o imperialismo e o Irã, em primeiro lugar. As contradições também existe com as demais potências regionais, como a Rússia, a China, a Turquia e, principalmente, a Arábia Saudita.
O aprofundamento da crise capitalista tende a acelerar as tendências desagregadora, acordos e desacordos que anteriores seriam impensáveis. E conforme a crise continua avançando e a situação se desestabilizando, o imperialismo tende a fortalecer a política de força, militarista e fascista.
O resultado das eleições presidenciais, que acontecerão nos Estados Unidos, no final do próximo ano, será um evento de importância fundamental, onde duas políticas serão colocadas.

POR QUE OBAMA BUSCA (desesperadamente) o ACORDO com o IRÃ?

O negociador iraniano com John Kerry

O negociador iraniano com John Kerry

A desestabilização do Oriente Médio colocou em xeque a política aplicada pela Administração Obama, que encabeça a “direita tradicional” norte-americana, contra os setores de extrema direita, principalmente os que se agrupam no Partido Republicano, dentro do “Tea Party”. A chamada “contrarrevolução democrática” teve a pá de cal com o golpe pinochetista no Egito, promovido pela obscurantista monarquia saudita, os sionistas israelenses e a ala direita do imperialismo norte-americano.
A crescente desestabilização do Oriente Médio colocou em xeque a política de Administração Obama, mas, ao mesmo tempo, a crise política dificultou a solução militar. Perante as eleições nacionais que acontecerão nos Estados Unidos no próximo ano, a ala direita ameaça controlar também o poder executivo, após já ter passado a controlar as duas câmaras do Congresso.
Nas eleições presidenciais anteriores, o candidato Republicano Mitt Rommey levantou como proposta para superar a crise políticas abertamente de extrema direita. Para “resolver” a crise com o Irã, a proposta era uma guerra contra o Irã, abrindo, inclusive, a possibilidade do ataque nuclear. Para “resolver” as contradições com a crise, guerra com a China. Para “resolver” a crise da Síria, envio de tropas. Para conter a crise econômica e á queda dos lucros dos monopólios, acabar com os programas sociais, aumentar os repasses de recursos para os capitalistas e apertar em muito maior escala os países atrasados, principalmente a América Latina. A burguesia norte-americana não “comprou” a “solução” Rommey, que acabou sendo vencido por Obama. Mas agora, perante o avanço da crise e a perspectiva de um novo colapso de proporções ainda maiores que o de 2008, essa política voltou a ser colocada à ordem do dia. Obama, como representante de uma política “mais moderada” busca uma certa estabilização na região, ou, pelo menos, evitar uma maior desestabilização com o objetivo de evitar o colapso no Oriente Médio e, no curto prazo, apresentar algum mínimo sucesso como uma carta nas eleições. Com esse objetivo, a Administração Obama tenta estabelecer uma frente única, direcionada, em primeiro lugar, contra o Estado Islâmico, e da qual o Irã representa uma carta de primeira ordem, principalmente, por causa do controle das milícias xiitas no Iraque e da influência sobre o Hizbollah libanês.

AS CONTRADIÇÕES com o REGIME dos AIATOLÁS

Ali Khamenei

Ali Khamenei

Várias questões têm dificultado o acordo, apesar do enorme esforço da Administração Obama. O Irã rebaixou o percentual do enriquecimento do urânio e permitiu a retomada das inspeções pelas Nações Unidas, mas restam contradições críticas. O governo do Irã se opõe a visitas irrestritas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, inclusive relacionadas com o programa de mísseis balísticos, e exige o levantamento de todas as sanções, o que inclui o descongelamento de US$ 110 bilhões.
No dia 24 de junho, o parlamento do Irã aprovou uma lei que estabelece restrições muito estritas sobre as inspeções nas centrais nucleares. A equipe de negociação ficou proibida de incluir o acesso a locais militares e a áreas estratégicas para a segurança do país, mesmo não estando relacionadas ao programa nuclear. O acesso aos cientistas também não poderá ser negociado. A lei ainda precisa ser negociada pelo Conselho de Guardiões, que é ligado ao líder Supremo, Ali Khamenei.
O levantamento das sanções abriria o mercado iraniano aos monopólios, mas ao mesmo tempo, aceleraria a integração no chamado “Caminho da Seda”, promovido pelos chineses. O levantamento das sanções das Nações Unidas permitirá a imediata adesão à Organização de Cooperação de Xangai, liderada pela China e a Rússia.
A Arábia Saudita, os sionistas israelenses e a direita norte-americana se opõem ao acordo com o Irã, e procuram fortalecer a “saída” de força para a crise no Oriente Médio que inclui o enfraquecimento do Irã.

Ali Khameni, o líder supremo do Irã, com o líder do Hizbollah

Ali Khameni, o líder supremo do Irã, com o líder do Hizbollah

A Guarda Republicana

A Guarda Republicana

Ali Khamenei e a cúpula da Guarda Republicana

Ali Khamenei e a cúpula da Guarda Republicana