PETRÓLEO E CRISE NO ORIENTE MÉDIO … E NO MUNDO

ARABIA SAUDITA E IRÃ

 

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Recentemente, a monarquia da Arábia Saudita anunciou o rompimento das relações diplomáticas com a República Islâmica do Irã. A razão oficial foi o ataque à embaixada saudita em Teerã, a capital do Irã, por manifestantes em protestos pela execução do mais proeminente líder xiita na Arábia Saudita, o clérigo Nimr al-Nimr, que teriam sido facilitados pelo regime dos aiatolás.

Em seguida, outros países controlados pelos sauditas (Jordânia, Kuwait, Bahrein, Djibuti e Sudão) retiraram os embaixadores do Irã. O Egito e os Emirados Árabes Unidos rebaixaram as relações, sem rompe-las, apesar de encontrar-se num nível já muito baixo. A Turquia e o governo do Curdistão Iraquiano fizeram algumas críticas, mas qualificaram as execuções como assuntos internos dos sauditas. O governo da Nigéria tinha prendido alguns xiitas algumas semanas atrás, a pedido dos sauditas, mas não rompeu relações. Uma situação similar aconteceu no Paquistão. Este país tem na Arábia Saudita por volta de 1,5 milhões de trabalhadores, 500 mil somente na polícia e no exército.

Para camuflar o verdadeiro objetivo da ação, junto com o clérigo xiita foram condenados a morte mais de 45 pessoas, quase todos eles sunitas, por ligações com a al-Qaeda e o Estado Islâmico. Em paralelo, foi assinado um contrato por mais de US$ 1 bilhão para a compra de armas dos Estados Unidos e o destravamento do contrato com a Lockheed, a gigantente norte-americana do setor de armas, por mais de US$ 11 bilhões. Com a Rússia e a China, os sauditas acenaram com novos contratos para a compra de armas, além dos contratos já assinados na última Feira de São Petersburgo.

Os russos, a China e o Iraque se ofereceram como intermediários para tentar rebaixar as tensões. O governo do Irã ordenou à Promotoria Pública acelerar as investigações e chamou a monarquia saudita à distensão.

O clérigo Nimr al-Nimr tinha sido um dos principais líderes dos protestos de 2012, a “primavera árabe” saudita, que teve como foco a Província Oriental, habitada principalmente por xiitas, e onde se encontra o grosso das reserva do petróleo e a própria sede da Aramco, a empresa estatal de petróleo. Na época, os protestos foram sufocados com muita repressão e por meio de um pacote de ajuda econômica para os pobres, que superou os US$ 50 bilhões. Vários líderes foram presos na época e condenados a morte em 2014. Os pobres somam mais de quarta parte dos 20 milhões de habitantes do Reino e são majoritariamente os xiitas da Província Oriental. Mas por que a monarquia saudita decretou as execuções sabendo que poderiam enfraquecer o regime que já enfrenta a aceleração da crise?

 

ARÁBIA SAUDITA: A CRISE DO BALUARTE DO IMPERIALISMO NO ORIENTE MÉDIO

 

A monarquia saudita enfrenta o acelerado aprofundamento da crise capitalista por causa da forte queda dos preços do petróleo. A pobreza avança por causa da carestia da vida, principalmente os preços dos alimentos e a especulação imobiliária.

O déficit fiscal de 2015 superou os US$ 110 bilhões. De manter-se a situação atual, as reservas internacionais evaporariam em cinco anos. A crise da política internacional saudita tem provocado fortes rachaduras no interior da Casa dos Sauds. Os gastos para manter em pé a ditadura encabeçada pelo ex general al-Sisi no Egito, o pântano da guerra do Iêmen, o pântano da guerra da Síria, o distanciamento com a Administração Obama, a crescente aproximação da China com a Rússia às custas do distanciamento com os sauditas.

Somente no Egito, os sauditas têm injetado mais de US$ 12 bilhões, dos quais o repasse de US$ 3 bilhões foi assinado neste mês, mas a economia não tem saído do chão. Além do forte aprofundamento da crise econômica, da indústria têxtil e do turismo, há a crise da segurança interna, com a crescente atuação do Estado Islâmico e de outros grupos radicais que estão tomando o espaço da Irmandade Muçulmana que foi derrocada pelo golpe militar de 2013.

No Iêmen, os sauditas tem fortalecido os bombardeios assassinando milhares de civis. O que começou como quase um passeio na região sul, após a toma do Porto de Aden, se tornou um pântano após a tomada da cidade de Marib e o avanço em direção a Sanaa, a capital do pais, nas regiões montanhosas que são os bastiões dos Houthis, os rebeldes que são apoiados pelo Irã.

Na Síria, aparece de maneira muito clara a política do wahabismo, a versão saudita do Islã, que é muito próxima dos tafquiris radicais, ou salafistas, como o Estado Islâmico e a al-Qaeda. A política golpista na região foi encabeçada pelo chefe dos serviços de inteligência, o príncipe al-Sultan, que foi retirado do cargo há dois anos quando a política exterior saudita começou a entrar em crise.

A partir do mês de junho do ano passado, a Administração Obama se aproximou da Rússia, do Irã e da China com o objetivo de conter a crise no Oriente Médio, a partir da Síria. O apoio aos “grupos rebeldes” pelos sauditas, o Catar, a Jordânia, os Emirados Árabes Unidos e pela Turquia ameaçava implodir a região, da mesma maneira que tinha acontecido na Líbia e na Somália. Com essa nova política, a Arábia Saudita acentuou a crise e, apesar de manter a aliança geral com os Estados Unidos, tentou avançar na direção da ofensiva contra o principal rival na região, o Irã.

 

NO CENTRO DA CRISE: O PETRÓLEO

 

A crise da monarquia saudita veio à tona com as manifestações públicas de vários príncipes contra a política aplicada pelo atual rei Salman, que poderia levar à implosão do Reino. Vários deles pedem a renuncia.

Na base da crise da Arábia Saudita, está a queda vertiginosa dos preços do petróleo que atingiu o menor nível desde 2004.

Uma das políticas que os sauditas poderiam aplicar seria impor a redução da produção a partir da OPEP (Organização dos Produtores de Petróleo). Essa medida é apoiada pela Venezuela, a Angola e a Nigéria, e inclusive pela Rússia que não é membro da OPEP, assim como por todos os países que dependem do petróleo. Mas com o levantamento das sanções contra o Irã, este país deverá passar a colocar no mercado mais de um milhão de barris diários adicionais.

Com a manutenção da produção, os sauditas buscam colocar em xeque a economia da Rússia, da mesma maneira que o fizeram com a antiga União Soviética na década de 1980, do Irã, o principal rival no Oriente Médio, e dos Estados Unidos, onde a Administração Obama tem se distanciado dos sauditas para se aproximar da Rússia e do Irã. Os preços baixos do petróleo inviabilizam a produção a partir do xisto, mesmo com os métodos ultra depredadores. Com a economia norte-americana em crise aumentam as chances da ala direita do imperialismo vencer as eleições presidenciais que acontecerão no final deste ano.

Além dos fatores sobre os quais a burguesia detém um certo controle, há os “incontroláveis”. O aprofundamento da crise capitalista não pode ser controlada por uma determinada política. A maior parte das políticas aplicadas têm na base a tentativa de defender os lucros, na concorrência com os competidores. São as leis do capital em ação e no piloto automático.

Para o próximo período, está colocado um novo colapso capitalista de proporções ainda maiores que o de 2008. Todos os fatores que estavam atuantes em 2008 se encontram presentes e com ainda mais força.

 

 

PREVISÕES PARA 2016 – Parte 2

O ORIENTE MÉDIO

SAUDI-DIPLOMACY-GCC-SUMMIT

Saudi King Salman bin Abdulaziz (C) walks surrounded by security officers to receive Bahraini King Hamad bin Isa al-Khalifa (unseen) upon the latter’s arrival in Riyadh to attend the Gulf Cooperation Council (GCC) summit on May 5, 2015. AFP PHOTO / FAYEZ NURELDINE

O Estado Islâmico deverá ser contido e expulso das cidades principais que controla, tanto no Iraque como na Síria. Mas o pitch bull foi solto e será muito difícil de ser derrotado. Esse grupo, assim como os demais grupos salafistas ou tafkiris, continuarão muito ativos em todo o Oriente Médio e nos países vizinhos, com eventuais incursões e atentados nos países desenvolvidos, como a Europa e os Estados Unidos, e nas potências regionais, principalmente a Rússia, a China, a Turquia e o Paquistão. Em grande medida, a atividade desses grupos continuará sendo utilizada para justificar a “guerra contra o terror”, que implica no aumento dos gastos militares, nas intervenções militares no exterior e no aperto do regime político.

Os estados nacionais implodidos continuarão implodidos. Isso acontecerá com a Somália, a Líbia, a Síria, o Iêmen, o Iraque e os países do Sahel (localizados ao sul do Deserto do Saara), em primeiro lugar o Mali e o Niger.

Na Síria, haverá um certo acordo entre o governo central e os chamados “rebeldes moderados”, que, na realidade, representam interesses de potências estrangeiras em algum grau. Mas a Síria será transformada numa espécie de Líbia. Será muito difícil desarmar as milícias e eliminar o Estado Islâmico, a al-Qaeda (Jabbat al-Nusra) e seus amigos. As potências regionais continuaram subsidiando-os com o objetivo de usa-los para os próprios interesses. A situação ficará ainda mais explosiva, pois o controle desses grupos é bastante relativo, pois eles têm interesses próprios.

 

A RÚSSIA E A TURQUIA

 

A Rússia e a Turquia desescalarão as tensões, mas a situação continuará altamente explosiva dependendo da ameaça dos curdos avançarem na direção de um estado nacional. Os curdos iraquianos continuarão como aliados próximos do imperialismo e da reação, tentando ampliar a influência sobre os curdos sírios. Mas a pressão do governo turco contra os curdos turcos manterá forte uma ala esquerda dos curdos sírios, ligada ao PKK (Partido dos Trabalhadores) turco, que deverá aumentar as contradições com a ala direita conforme os confrontos com o Estado Islâmico e os demais grupos muçulmanos for reduzida e as políticas da ala direita começar a ser colocada em prática.

O governo da Turquia, encabeçado pelo primeiro ministro Erdogan, deverá avançar no controle militar da fronteira norte, ao oeste do Rio Eufrates, contra o Estado Islâmico. Mas, a partir dessa operação, aparecerá o principal objetivo, conter a expansão dos curdos no norte da Síria por meio de uma manobra, a criação de uma “zona segura” para os refugiados sírios. Por meio da pressão sobre a Europa em relação aos refugiados, Erdogan tentará manter o apoio para essas operações militares e deverá se aproximar da Arábia Saudita por causa da política russa de apoio ao governo alawita sírio e de atacar não somente o Estado Islâmico, mas também os demais “grupos rebeldes”. Mas a Turquia, assim como a Rússia, não pode avançar para um confronto aberto. A crise econômica dificulta a possibilidade de confrontos militares abertos.

 

O IRÃ

 

Ao mesmo tempo, a tendência é ao aumento das contradições com o Irã e seus aliados, a Síria e o Iraque. Um dos componentes que ficará colocado no centro das disputas será o Curdistão Iraquiano.

O retorno do Irã ao mercado mundial de petróleo aumentará o estresse sobre os preços porque aumentará o volume da oferta. Por esse motivo, dificilmente, a Arábia Saudita se posicionará a favor da redução da produção na perspectiva de impulsionar o aumento dos preços. Os crescentes déficits fiscais continuarão provocando a aplicação de programas de austeridade na Arábia Saudita.

Nas eleições que acontecerão em fevereiro, para o parlamento e a Assembleia dos Expertos, o grupo ligado ao Presidente Hassan Rouhani deverá ser o grande vencedor por causa dos acordos em relação à questão nuclear. Mas o poder do Conselho dos Guardiões e do Corpo da Guarda Revolucionária continuará como o poder omnipresente no Irã, tanto no aspecto político como econômico, pelo menos até os investimentos estrangeiros não chegarem em grande volume.

O Irã experimentará uma melhoria da situação econômica devido ao levantamento das sanções, ao aumento dos investimentos e do comercio com o exterior. O movimento guerrilheiro do curdistão iraniano, que foi derrotado na década de 1980, ainda não conseguirá se levantar novamente. O mesmo acontecerá com o contágio proveniente dos guerrilheiros balochis, que atuam no sul do Paquistão, sobre as minorias que habitam o Irã.

 

ARÁBIA SAUDITA

 

A Arábia Saudita, que representa o coração do Oriente Médio, continuará enfrentando o aumento do déficit fiscal por causa da queda dos preços do petróleo. Uma possível redução da produção para impulsionar o aumento dos preços não poderá ser feita até o último trimestre de 2016 por causa da entrada do Irã no mercado, entre outras questões.

Os Estados Unidos enfrentaram dificuldades para manter a produção do petróleo a partir do xisto e poderão aumentar, um pouco, as importações a partir da Arábia Saudita.

O aprofundamento da crise capitalista continuará impactando o aumento da carestia da vida, principalmente no custo da moradia e dos alimentos.

A desestabilização do Oriente Médio continuará apertando os sauditas. A crise no Iêmen continuará desestabilizando o sul do país de maioria xiita.

Uma retomada dos protestos na Província Oriental possivelmente não acontecerá em 2016, mas sim em 2017.

 

ISRAEL

 

O aprofundamento da crise econômica, provocará o aumento das políticas pragmáticas por parte dos sionistas israelenses. Da mesma maneira que o governo Netanyahu manobra para manter os US$ 3,5 bilhões de ajuda militar dos Estados Unidos e a aliança estreita, os laços têm se estendido à Rússia, tanto em relação a acordos comerciais como militares, principalmente na tentativa de manter a milícia libanesa Hizbollah distante das armas russas. Além de apoiar vários grupos “rebeldes”, como a própria al-Nusra, a al-Qaeda na Síria, na região de Quneitra, os sionistas tentam apertar o cerco para se apropriar do gás dos palestinos, do Chipre e até do Líbano; neste caso, com mais dificuldades por causa das ameaças do Hizbollah. Israel continuará apoiando os Curdos Iraquianos, que lhe fornecem o grosso do petróleo que consomem.

A questão palestina manterá o ritmo atual sem confrontos em larga escala. Pelo menos é essa a política tanto dos sionistas quanto do Hamas. A novidade poderá ser o estouro de uma nova Intifada por causa do sufocamento da população palestina.

 

EGITO

 

O governo golpista do Egito continuará sendo uma marionete dos saudistas. O investimento aprovado recentemente para a construção de uma central nuclear, pela Rússia, por US$ 26 bilhões, avançará como parte dos acordos mais gerais entre a Arábia Saudita e a Rússia. A pressão sobre a economia egípcia será reduzida por causa da queda dos preços do petróleo, mas a paralisia da economia levará à redução dos subsídios sobre os serviços públicos. A desestabilização política provocada pelo Estado Islâmico, a partir da Península do Sinai, continuará contida, como eventuais atentados nas demais regiões do país, mas não será eliminada.

 

LÍBANO

 

No Líbano, os grupos salafistas/ tafkiris continuarão atuando de maneira limitada, contidos pelas várias milícias armadas que representam os interesses dos vários grupos sectários do país. O Hizbollah continuará representando um dos principais mecanismos de contenção, nas mãos dos xiitas, aliados do Irã, contra as agressões dos sionistas israelenses e do imperialismo. As contradições entre os grupos continuarão aumentando e colocando em xeque os acordos de 2008 sobre a divisão do poder político. Novas manifestações de massas, como os protestos sobre a questão do lixo, que aconteceram em 2015, poderão implodir os principais blocos políticos do país, o “Movimento 14 de Março”, que representa a ala direita, e o “Movimento 8 de Março”, do qual participa o Hizbollah. As dificuldades para eleger um novo presidente da República continuaram em aberto, pois dependem, em última instância, de um acordo mais geral entre o Irã e a Arábia Saudita. E este é um dos fatores da crise para manter o frágil equilíbrio político no país.

 

IRAQUE

 

No Iraque, as milícias xiitas deverão controlar o país com o apoio do regime dos aiatolás iranianos. Mas as contradições sectárias, entre a maioria xiita que está no governo, e que já apresenta contradições internas, e os sunitas, entre os quais há líderes tribais que suportam o Estado Islâmico, não serão eliminadas. Sobre esta base, novos reagrupamentos e confrontos deverão acontecer, no próximo período, conforme a crise capitalista continuar avançando.

 

IÊMEN

 

A coalisão encabeçada pelos sauditas não conseguirá estabilizar o Iêmen. Os Houthis seguiram organizados em milícias e controlarão as regiões do interior do noroeste do país, mesmo se os sauditas conseguirem conquistar a capital, Sanã, o que somente será conseguido com sangrentos enfrentamentos nas regiões montanhosas e a um custo muito alto. A ação dos Houthis e o fortalecimento da al-Aqaeda nas regiões do leste do país impulsionarão o fortalecimento dos movimentos guerrilheiros no sul da Arábia Saudita.

 

VEJA TAMBÉM:

PARTE 1 – 2015: O ANO DA ACELERAÇÃO DA CRISE CAPITALISTA MUNDIAL

http://alejandroacosta.net/2015/12/31/previsoes-para-2016-parte-1/

PORQUE OBAMA (KERRY) VOLTA À RÚSSIA?

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Nos próximos dias, o secretario do Departamento de Estado, o chefe da diplomacia, dos Estados Unidos visitará novamente a Rússia, onde se encontrará com o ministro das Relações Exteriores, Serguei Lavrov, e com o presidente Vladimir Putin.

Agora a discussão será sobre as negociações de paz na Síria. A “oposição” síria ligada à Arábia Saudita, a melhor financiada, concordou em ir à mesa de negociações. Esse era o objetivo dos Estados Unidos (ala Obama), da Rússia e do Irã. A questão da Ucrânia, que também será tratada na visita de Kerry, passa por aparar as arestas em relação ao vencimento da dívida dos US$ 3 bilhões que o governo ucraniano deve à Federação Russa, e que Poroshensko pretende dar um calote com a ajuda do FMI.

A primeira visita de John Kerry à Rússia aconteceu no mês de junho passado, quando foi estabelecido o acordo para que os russos atuassem na Síria. Naquele momento, Obama estabeleceu as bases para a estabilização do Oriente Médio. O problema é que essas bases passavam pela aliança com inimigos tradicionais dos Estados Unidos, passando por cima dos aliados tradicionais, em primeiro lugar, a Arábia Saudita e Israel.

Os russos apertaram os ataques aéreos enquanto o Exército sírio avançava por terra com o apoio do Hizbollah (a poderosa milícia libanesa), as milícias xiitas e as forças especiais iranianas, os Quds.

A pressão do Obama se direcionava contra as “loucuras” dos aliados tradicionais que estavam incendiando o Oriente Médio em cima do apoio a vários dos “grupos rebeldes”, a começar pelo Estado Islâmico.

A posição do governo norte-americano e da União Europeia após a derrubada do SU-24, o bombardeiro russo, por caças turcos confirmou a existência desses acordos. A Turquia é um membro da OTAN. O governo da OTAN tentava atrair a OTAN contra a Rússia com o objetivo de proteger os próprio “rebeldes”, reduzir a influência dos curdos na fronteira e projetar o próprio poder na região por causa da necessidade imperante de manter e ampliar a política da Turquia como intermediária no transporte do gás à Europa.

 

OS SAUDITAS ADEREM À POLÍTICA DE OBAMA NA SÍRIA?

 

Recentemente, os “rebeldes” que se reuniram na Arábia Saudita criaram um Conselho de Negociação para negociar com o governo sírio. Apesar de terem colocado como condição principal que o presidente al-Assad não participe do governo transitório, houve uma mudança em relação às posições anteriores em que os sauditas adiaram de todas as maneiras possíveis o início das negociações. O objetivo era fortalecer os próprios rebeldes e chegar à mesa de negociações em condições mais favoráveis.

Com o fortalecimento das posições do governo al-Assad e o enfraquecimento dos rebeldes, parece que foi atingido o ponto de ir à mesa de negociações. A política exterior também entrou num pântano no Iêmen e começa a avançar nas regiões do sul do país habitadas majoritariamente por xiitas.

Os sauditas representam a ala “cachorro louco” das potências regionais, ligada diretamente à ala de extrema direita dos Estados Unidos. Eles não estão satisfeitos com Obama, da mesma maneira que os sionistas israelenses também não o estão. Mas fazer o que? Obama colocou pontos vermelhos, que não podiam ser ultrapassados, como por exemplo o envio de mísseis TOW, terra ar, que tinham o potencial de criar sérios problemas para a aviação russa.

A política Obama avança também na América Latina, onde conseguiu impor Macri na Argentina e a vitória da direita na Assembleia Nacional venezuelana. Mas se trata de uma política transitória, pois a crise se aprofunda e as contradições tendem a se acirrarem no próximo período.

 

U.S. Secretary of State John Kerry steps out of a plane upon arrival at Le Bourget airport in the outskirts of Paris, France

U.S. Secretary of State John Kerry steps out of a plane upon arrival at Le Bourget airport in the outskirts of Paris, France December 7, 2015. Kerry is due to attend the last phase of the World Climate Change Conference 2015 (COP21). REUTERS/Mandel Ngan/Pool

 

 

RUSSIA E TURQUIA – ALÉM DA DERRUBADA DO CAÇA,

RELAÇÕES E AMARRAÇÕES DE AMOR E ÓDIO

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A derrubada do caça russo pela força aérea turca, no dia 24 de novembro, revelou, mais uma vez, a fragilidade das alianças e contra alianças no atual estágio do desenvolvimento da crise em escala mundial, que adquire caraterística críticas no Oriente Médio.

A Administração Obama se aliou a inimigos dos Estados Unidos para estabilizar a Síria, os russos, o Irã, com as milícias xiitas e o Hizbollah, os curdos e os chineses. O desespero da direita do imperialismo e da reação do Oriente Médio foi às alturas.

Agora o governo Erdogan, fortalecido pelos resultados das eleições que aconteceram no início deste mês, tenta conter o “ímpeto” russo contra os próprios rebeldes. O AKP, partido de Erdogan, conseguiu a maioria que não tinha conseguido em junho mediante a política militar de ataques contra os curdos turcos e, em alguma medida, os curdos sírios.

A contenção dos curdos sírios representa um dos pontos fundamentais da política Erdogan que busca uma saída “energética” para a crise. Os curdos turcos mantêm forte presença na Província da Anatólia Oriental por onde passam, ou passariam, os dutos de fornecimento de gás e petróleo à Europa.

A Rússia depende da derrota dos vários grupos rebeldes para estabilizar as fronteiras do sul, impedir a repetição dos conflitos na Tchetchênia e no Daguestão, assim como em outras regiões. O aumento da influência no Oriente Médio é crítico na disputa do comercio de armas, no mercado de energia e na participação do Novo Caminho da Seda chinês.

As contradições entre as duas potências regionais são grandes, mas também o são a dependência e relações mútuas.

 

A RÚSSIA PODE APLICAR SANÇÕES CONTRA A TURQUIA?

 

O governo da Federação Russa precisa dar uma satisfação à população russa, o que faz parte da política nacionalista de fortalecer a unidade nacional em torno do governo Putin conforme a crise se aprofunda. As medidas iniciais foram cortar os contatos militares e impor o bloqueio do espaço aéreo sírio por meio dos mísseis S-400. Já avançar com sanções econômicas profundas é muito mais complexo.

A Rússia é responsável por 10% das importações turcas. As exportações turcas representam 4% das importações russas. A Rússia fornece 55% do gás que os turcos consomem, que representa 13% das exportações de gás russo. Os gasodutos estão próximo ao limite de uso (Blue Stream e Gas-West) e por eles também trafega o gás que tem como destino a Ucrânia, a România e a Bulgária. Os 45% restantes são fornecidos pelo Irã e o Azerbaijão e por gás natural liquidefeito.

O corte do gás russo colocaria a economia turca em xeque. Mas também seria afetada a economia russa que se encontra em recessão há quatro anos, além de escalar os problemas na Europa Oriental. E ainda há a questão do gasoduto TurkStream que foi desviado no Mar Negro, da Bulgária para a Turquia com o objetivo de driblar as regulamentações da União Europeia contra a Gazprom, o gigante do gás russo.

O corte no fornecimento de minerais e metais (ferro, aço e alumínio) também não teria muito impacto devido à contração do mercado mundial. A Rússia fornece 70% do trigo, mas, com relativa facilidade, poderia ser trocado por outros fornecedores. E, em 2010, a Turquia conseguiu absorver sanções neste setor. Por outra parte, 40% das frutas e vegetais turcos têm como destino a Rússia, além de outros alimentos, como lácteos e carnes. O governo russo tem deixado estes segmentos de lado e passou a focar arremedos de sanções no turismo, que representa 12% do PIB da Turquia e dos quais os russos somam 14%. Outro dos pontos de pressão, que a Rússia já usou no passado, seria dificultar a passagem de caminhões em direção à repúblicas da Ásia Central e Oriental, por onde circulam aproximadamente US$ 2 bilhões anuais em produtos químicos e eletrônicos.

Vários acordos comerciais iriam ser assinados e desenvolvidos na visita que Erdogan faria à Rússia em dezembro. Isto revela o grau de crise em que o governo turco foi colocado com os bombardeios russos contra os “rebeldes” amiguinhos.

 

AS CONTRADITÓRIAS RELAÇÕES DA TURQUIA E A RÚSSIA

 

A Turquia é um país membro da OTAN e com relações próximas com a Arábia Saudita. Mas o governo Erdogan tem aplicado várias políticas de cunho nacionalista o que tem gerado contradições com o imperialismo, que tem tentado derruba-lo impulsionado a extrema direita. A Rússia tem tentado explorar essas contradições. Vários acordos comerciais tem sido assinados após das sanções aplicadas em relação à crise da Ucrânia. Mas também as contradições são seculares.

A Turquia foi contrária à invasão da Geórgia, em 2008, pela Rússia, mas não tomou nenhuma ação. As relações também são tensas em relação a todos os países onde há minorias ou maiorias turcomenas, que a Turquia considera sob sua zona de influência.

A recente aproximação da Rússia com o Azerbaijão, por meio da desescalação do conflito em Nagorno-Karabakh, com o a Armênia, é um dos pontos de conflito. A Rússia tenta desestimular o gasoduto BTC (Baku, Tbilisi, Ceylan) que beneficiaria a Turquia, já que a partir do porto turco de Ceylan o gás seguiria para a Europa pagando pelos direitos de transporte.

A Turquia tenta conter a Rússia na Síria, onde atua por meio de grupos “rebeldes”, inclusive o Estado Islâmico. Com esse objetivo busca utilizar a ameaça da OTAN. Mas até que ponto o governo turco estaria disposto a se submeter à política da OTAN de maneira mais aberta? Isso depende de quem pagar melhor. A União Europeia desviou para o governo de Erdogan, há dois meses, três bilhões de euros que supostamente teriam como destino evitar que os refugiados do Oriente Médio chegassem à Europa. Obviamente, esse dinheiro teve um papel importante nas eleições de novembro. O quanto os Estados Unidos estão dispostos a injetar na Turquia? E a Rússia, quanto representa? E quais os riscos?

É a política do “salve-se quem puder” em ação, cada vez mais intensa, conforme a crise capitalista se aprofunda.

 

 

RÚSSIA/ TURQUIA, POR TRÁS DA RETÓRICA,

A POLÍTICA DO “SALVE-SE QUEM PUDER”

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Os ataques da aviação russa na Síria têm como objetivo fortalecer as posições do governo de al-Assad para pressionar no sentido de uma saída negociada. A Rússia não tem condições de controlar a Síria com as próprias forças, pois entraria em rota de coalisão com as demais potências regionais e com o imperialismo. Mas, a partir do enclave criado nas províncias de Latákia e Tartus, as regiões habitadas pela minoria alawita que está no poder, os ataques avançaram sobre as regiões vizinhas.

A aviação russa tem possibilitado o avanço do Exército sírio, apoiado pelas milícias xiitas, controladas pela Guarda Revolucionária Islâmica iraniana, e o Hizbollah, a poderosa milícia libanesa, nas estratégicas províncias de Idlib e Aleppo, e sobre o coração do Califato do Estado Islâmico, Raqqa e Deir el-Zour. Localidade onde os “rebeldes” avançavam foram retomadas. Após dois anos, o Exército conseguiu controlar Sweida e a sitiada base aérea de Kweiris, na região oriental de Aleppo. Na região central da Síria, unidades de artilharia russas teriam ajudado na retomada de Mahin, que se encontrava sob controle do Estado Islâmico e estariam atuando na retomada de outros povoados, como Jabal Zuwayk, em Latákia. A ofensiva sofreu alguns revezes no norte de Hama, mas continua avançando em quase todas as frentes.

Em paralelo, os Estados Unidos têm atuado estreitamente com o YPG curdo, que passou a fazer parte da frente Forças Democráticas Sírias, que inclui também a Coalisão Árabe Síria, assírios e turcomenos. O governo turco tenta desesperadamente controlar uma faixa fronteiriça do território sírio e colocar os curdos na defensiva.

O envolvimento dos russos e do Irã na Síria, e mais recentemente dos chineses, tem limitações. A resistência dos “rebeldes” apoiados pelas potências regionais e pelo imperialismo tem obrigado a aumentar o envolvimento militar, colocando o risco do fantasma da derrota russa no Afeganistão. Por esse motivo, a política de Putin e dos aiatolás iranianos é conseguir uma saída negociada o mais rápido possível.

 

A QUESTÃO CURDA

 

O grupo “rebelde” preferencial do governo turco agora é o chamado Exército Sírio Livre, onde atuam milicianos de origem turco financiados pelo governo. O principal objetivo está relacionado com a contenção das milícias curdas do YPG e, principalmente, com uma eventual evolução no sentido da formação de um estado curdo. Os curdos turcos do PKK (Partido dos Trabalhadores) controlam a Província da Anatólia Oriental que é um dos componentes centrais do fornecimento de gás para a Europa.

A política da criação de uma zona de controle do espaço aéreo sírio na região foi implodida pela intervenção da aviação russa.

A derrubada do caça russo teve como objetivo criar um fato consumado para a Turquia avançar no controle do norte da Síria contra os curdos que têm se convertido num dos componentes em solo da “guerra contra o Estado Islâmico”. Com esse objetivo, criaram um fato consumado na tentativa de arrastar os Estados Unidos e a OTAN, contra a política da aliança com a Rússia que a Administração Obama colocou em pé.

Se trata de uma política arriscada, pois entra em conflito com a política da Rússia e, em certa medida, com a dos próprios Estados Unidos. Mas, conforme a crise tem se aprofundado, a política do “salve-se quem puder” passa a ocupar a linha de frente do cenário político. Erdogan acabou de sair triunfante da escalada da política militarista contra o PKK (Partido dos Trabalhadores curdos na Turquia), cancelando a trégua, com o objetivo de criar um clima de terror e facilitar a vitória, por maioria, do partido no governo, o AKP, nas novas eleições nacionais, que aconteceram no início de novembro, com este objetivo.

Os curdos iraquianos, os pershmergas, tem atuado com o apoio norte-americano numa grande ofensiva contra o Estado Islâmico a partir de Mosul em direção à fronteira síria. O Curdistão iraquiano mantém relações estreitas com o imperialismo norte-americano, os sionistas israelenses e com a Turquia.

 

O GÁS DO MAR CÁSPIO

 

Perante o acirramento das contradições pelo negócio do fornecimento de gás para a Europa, o gasoduto Trans-Cáspio voltou a ser colocado à ordem do dia para desespero dos russos. Se trata de 300 quilômetros que deverão unir o porto Turkmenbashi (Turcomenistão) e Baku (Azerbaijão). Com capacidade para o transporte de 30 bilhões de metros cúbicos (bmc), o próximo destino seria a Turquia, passando pela Geórgia, de onde chegaria à Europa.

Os interesses russos foram colocados em xeque, pois aos atuais 4,7 bmc que o Azerbaijão já transporta, ainda deverão ser adicionados 10 bmc em 2018, a partir do campo Shah Deniz II.

O fornecimento dos Balcãs e da Europa Oriental com gás do Azerbaijão e do Turcomenistão, por fora do controle da Gazprom, o gigante russo do setor, enfraqueceria o poder russo na região abrindo passo para uma maior escalada da agressividade militar da OTAN por meio desses países.

Por meio do aumento da pressão, mediante vários mecanismos econômicos e militares, o governo russo conseguiu afastar o Turcomenistão dessa política e envolver o países no direcionamento do gás para a Rússia e a China. Além disso, o governo do Irã está alinhado com essa política. Não por acaso, os 26 mísseis de longo alcance que a Marinha russa disparou contra o Estado Islâmico tiveram como origem a Frota do Mar Cáspio e sobrevoaram o Irã, com a permissão do regime dos aiatolás.

O governo turco de Recep Tayyip Erdogan tem tentado se contrapor à política russa no Mar Cáspio. No início de novembro, Erdogan esteve em Ashgabat, a capital do Turcomenistão, com o objetivo de assinar acordo de fornecimento de gás natural, apesar de não ter especificado como o gás seria transportado. Duas semanas depois, o presidente da empresa estatal de petróleo do Azerbaijão declarou, em visita ao Turcomenistão, que o governo estaria preparado para investir no gasoduto Trans-Cáspio.

A Turquia, que mantém proximidade nacional sobre esses países, busca se favorecer do aumento das contradições da Rússia com várias das antigas repúblicas soviéticas, enquanto a Rússia tem direcionado o grosso dos negócios para a China.

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POR QUE A TURQUIA DERRUBOU O CAÇA RUSSO?

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No dia 24 de novembro, um caça russo SU-24 foi derrubado perto da fronteira Síria-Turquia por dois caças turcos F-16 que teriam usado mísseis ar-ar. Os dois pilotos russos saltaram e acabaram sendo, provavelmente, mortos por grupos “rebeldes” em território sírio.

De acordo com a versão oficial turca, o caça teria sido avisado dez vezes antes de ser abatido. O governo russo declarou possuir evidências de que se encontra em território sírio a seis mil metros de altura.

Desde o começo das operações da Rússia na Síria, tinham sido feito acordos com a Turquia, os Estados Unidos, Israel, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos com o objetivo de evitar o confronto militar.

O governo turco, ao invés de buscar um entendimento imediato com os russos, chamou uma reunião em caráter de urgência com a OTAN. Até o momento, as retaliações foram preventivas. O governo do presidente Vladimir Putin suspendeu a colaboração militar com a Turquia, foi anunciado que o sistema anti-mísseis S-300 será atualizado para o padrão S-400 na base aérea de Khmeimim e todos os ataques aéreos passarão a contar com cobertura aérea por aviões de combate. Os canais diplomáticos continuam aberto no primeiro escalão dos ministérios das Relações Exteriores.

 

A FRENTE ÚNICA DE OBAMA COM PUTIN

 

A Síria tem um enorme potencial de contágio desestabilizador no Oriente Médio. A presença militar da Federação Russa na Síria data de várias décadas atrás, da época da antiga União Soviética. A Rússia possui no porto de Tartus, localizado ao norte do Líbano, a única base naval no Mar Mediterrâneo. Assim que os “rebeldes”, financiados pelo imperialismo e a reação, conseguiram infiltrar e controlar os protestos de massas que estouraram há quatro anos, os russos e o Irã passaram a atuar na defesa do governo al-Assad. Mas o ponto de virada aconteceu em junho deste ano.

O secretario do Departamento de Estado norte-americano esteve no balneário de Sochi, localizado no sul da Rússia, onde manteve encontros de primeiro nível. O objetivo foi colocar em pé uma frente única com o objetivo de estabilizar a Síria e evitar que se convertesse numa nova Líbia ou Somália. Em contrapartida a Administração Obama desescalou as tensões na Ucrânia, no Mar do Sul da China e na América Latina. Essa política acabou aumentando as tensões com os aliados tradicionais do imperialismo, a começar com Israel e a Arábia Saudita e reflete o grau de crise. Para estabilizar a situação, os Estados Unidos precisaram se aliar com inimigos tradicionais.

Obama encabeça a direita tradicional nos Estados Unidos que disputa com a direita truculenta a política a ser implementada no próximo período, com o objetivo de enfrentar o inevitável aprofundamento da crise capitalista. Os cinco debates dos pré-candidatos do Partido Republicano às eleições presidenciais que acontecerão no próximo ano oferecem uma amostra da política da ala direita do imperialismo. Guerra, inclusive atômica, contra o Irã. Guerra contra a Rússia. Guerra contra a China.

 

AS RELAÇÕES RÚSSIA – TURQUIA

 

As relações entre os governos Putin e Erdogan tem evoluído positivamente no último período. A Turquia, apesar de ser um membro da OTAN, tem mantido uma relação ambivalente com os Estados Unidos e a Europa. A Rússia tem buscado influenciar essas relações desenvolvendo as relações comerciais energéticas, que representam o principal componente da política econômica turca após a crise da indústria têxtil que estourou a partir de 2008. O gasoduto SouthStream foi desviado, no Mar Negro, da Bulgária para a Turquia para driblar as regulamentações da União Europeia relacionadas com o monopólio da Gazprom, o gigante do gás russo, no fornecimento de gás.

A saída da Frota russa do Mar Negro depende do Estreito de Bósforo, que é controlado pela Turquia.

As relações entre a Rússia e a Turquia começaram a entrar em rota de colisão com a escalada da intervenção russa na Síria. A Turquia depende do controle da região para viabilizar a própria política. O lucrativo e disputado fornecimento de gás à Europa, com a perspectiva da Turquia se converter num nó (hub) depende dessa política. Está em jogo não somente o transporte do gás russo, mas também do gás do Catar, Irã, Azerbaijão, Turcomenistão e até do Líbano e Israel.

A Rússia também tem pretensões de potência regional e depende do sucesso da intervenção na Síria para aumentar o mercado de armas no Oriente Médio e no mundo, reduzir as sanções relacionadas à Ucrânia, disputar o mercado de fornecimento de gás e de energia nuclear na região. Além disso, há a questão dos grupos guerrilheiros financiados pelas monarquias do Oriente Médio que podem começar a atuar no Cáucaso, nas repúblicas da Ásia Central e no sul da Rússia (Tchetchênia e Daguestão) no caso do governo sírio colapsar.

O governo turco, encabeçado pelo primeiro ministro Erdogan, tem impulsionado os próprios “rebeldes” com o objetivo de conter o avanço dos curdos e de aumentar a própria influência na região. O Estado Islâmico tem sido um dos principais favorecidos por meio da facilitação de rotas logísticas e para a comercialização do petróleo que eles controlam. A mesma política tem sido aplicada pela Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, e, em alguma medida, pelo Catar e o imperialismo.

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SÍRIA – QUEM SÃO OS MEUS “TERRORISTAS” FAVORITOS?

 

-ou- “Guerra Contra o Terror 2.0”

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Os ataques terroristas que aconteceram em Paris colocaram, novamente, à ordem do dia a histeria da “Guerra Contra o Terror”, no melhor estilo dos “neo-conservadores” da Administração George Bush Jr.

A “Guerra contra o Terror” tem como verdadeiro objetivo criar o clima político favorável para avançar contra os direitos individuais e democráticos que ainda restam, para atacar os direitos trabalhistas e avançar com “planos de austeridade” ainda mais duros , e aumentar a agressividade militar. Essa política representa uma imposição dos monopólios que buscam desesperadamente conter a queda dos lucros. Todos os setores políticos integrados ao regime burguês concordam, em alguma medida, em aplicar essas políticas. Mas, obviamente, o setor que naturalmente teria melhores condições para aplica-las seria a extrema direita que, não por acaso, cresce em todo o mundo.

Os atentados de Paris abriram caminho a uma nova onda da “Guerra Contra o Terror”. O crise capitalista se aprofunda a passos largos na Europa e no mundo. As contradições entre as potências se aceleraram. Na França, a economia apresenta claros sinais de esgotamento. No aliado mais estreito, a Alemanha, a indústria entrou em recessão, os principais bancos enfrentam uma situação muito crítica e a principal empresa industrial do país, a Volkswagen, se encontra em grave crise por causa das denúncias promovidas pelos Estados Unidos a partir da espionagem industrial em cima dos dados da NSA (Agência Nacional de Segurança). A França e a Alemanha não são exceções. O mundo avança rapidamente a um novo colapso capitalista de gigantescas proporções, ainda maior que o de 2008.

Os governos de todos os principais países do mundo estão interessados na “Guerra Contra o Terror”. E participam até os mais ferrenhos apoiadores dos grupos guerrilheiros e terroristas.

 

LUTA CONTRA OS TERRORISTAS?

 

O chamado “Grupo Internacional de Apoio à Síria” acordou, no marco das negociações que aconteceram em Viena (Áustria), a realização de negociações entre o governo sírio e a “oposição”, com o apoio das Nações Unidas.

O principal problema que se colocou é qual dos grupos da “oposição” deveriam participar das negociações. Os Estados Unidos apoiam o chamado Exército Sírio Livre. A Arábia Saudita, o Catar e a Turquia pressionam para também seja incluído o grupo Ahrar al-Sham.

A al-Qaeda na Síria (Jabhat al-Nusra) não foi colocada na lista das organizações terroristas da União Europeia e dos Estados Unidos. Ahrar al-Sham e o próprio Exército Sírio Livre, assim como vários outros grupos, têm atuado em conjunto com a al-Nusra. Os ataques aéreos da aviação russa contra esses grupos levantou os alarmes das potências que os patrocinam.

O Estado Islâmico tem sido apoiado de várias maneiras por setores do imperialismo norte-americano, a Turquia, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, principalmente, apesar de se enfrentar a praticamente todas as centenas de grupos guerrilheiros que atuam na Síria.

Além do Estado Islâmico e da al-Nusra, há vários outros grupos que dificilmente aceitarão o cessar fogo, como Jabhat Ansar al-Din e Jund al-Aqsa.

Ainda resta a questão curda. O YPG, a milícias curdas sírias, dominam o nordeste do país e têm atuado contra o Estado Islâmico com o apoio da aviação norte-americana. O governo turco é contra o YPG, que mantém estreita aliança com o PKK (Partido dos Trabalhadores), as milícias curdas que atuam na Província Oriental, na Turquia. Por essa província, passam os gasodutos que transportam gás para a Europa e que representam o grande triunfo da burguesia turca para conter a crise gerada, em grande medida, pelo colapso da indústria têxtil a partir de 2008.

A Federação Russa busca manter e ampliar as posições no Oriente Médio, assim como minimizar as sanções impostas a partir da crise da Ucrânia. O governo dos aiatolás iranianos busca manter a influência sobre a Síria, que tem sido um aliado próximo, e facilitar a logística de apoio à milícia libanesa, o Hizbollah, que representa um dos principais instrumentos de contenção contra as potências ocidentais e a reação do Oriente Médio, principalmente os sionistas israelenses. Vários locais sagrados para os xiitas, como a Mesquita de Sayyidah Zaynab, estão localizados na Síria. Um governo sunita, hostil ao Irã, seria inaceitável para o governo iraniano que é um dos principais apoiadores, no campo de guerra, do Exército Sírio por meio das milícias xiitas e da Guarda Revolucionária Islâmica, principalmente a força de elite, os Quds, dirigida pessoalmente pelo “pop star”, o Brigadeiro General Soulemani.