DAVOS TENTA SALVAR O CAPITALISMO – PARTE 3

ITALIA – UM “PESO PESADO” EUROPEU DOENTE

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Recentemente, o governo da Itália, do primeiro ministro Matteo Renzi, e a Comissão Europeia anunciaram um acordo para “resgatar” os bancos italianos, após um ano de negociações. Esse acordo se tornou necessário após a queda dramática do valor acionário desses bancos por causa do aumento da inadimplência. Foi a volta à crise que tinha se aberto no final de 2011 e no começo de 2012 com a disparada dos juros dos títulos da dívida pública italiana. O Banco Central Europeu conseguiu controlar a situação, naquele período, por meio de enormes quantidades de recursos públicos repassados para os monopólios por meio de programas de QE (quantitative easing, ou alívio quantitativo). Em dezembro de 2012 e em fevereiro de 2013, foram nada menos que um trilhão de euros. As taxas de juros caíram de mais de 6% para os atuais pouco mais de 1%.

A principal questão que chama a atenção do acordo é que ele aconteceu logo após a entrada em vigor das novas regras da União Europeia, no início deste ano, com o objetivo de restringir os resgates das grandes empresas falidas.

A Itália representa a terceira maior economia da Zona do Euro, logo atrás da Alemanha e da França, com um tamanho 50% maior que o da Espanha. A dívida pública italiana é de 132% o PIB, ou 2,3 trilhões de euros. Desde os anos de 1990, o percentual tem se mantido acima dos 100%.

Os juros baixos, assim como os baixos preços do petróleo deram um certo fôlego ao governo de Renzi que subiu ao poder por meio de um acordo partidário. A realização de eleições gerais, previstas para acontecerem no mês de maio de 2018, são necessárias para fortalecer o regime político e impor novos ataques contra as massas. Impulsionado pela ascensão da direita fascista na Europa, a ala socialdemocrata da burguesia tem aumentado o discurso contra a União Europeia, mas, na realidade, a Itália representa, no plano nacional, contradições similares com as existentes na Europa.

 

COMO OS BANCOS ITALIANOS SERÃO SALVOS?

 

A burguesia imperialista impôs a conhecida política do Muito Grande Para Falir.

Como resultado do acordo, será criado um novo sistema pelo qual os bancos italianos serão ajudados pelo governo a colocar os títulos podres no mercado em parcelas, com o objetivo de minimizar a perda dos lucros. O governo poderá usar 44 bilhões de euros para garantir os títulos menos podres, que deverão ser vendidos a preços de mercado.

Ao mesmo tempo, será criado um banco de títulos podres que, a partir da garantia pelo governo dos títulos melhores, deveria favorecer às vendas dos mais podres por melhores preços. Ainda não está claro como o governo italiano manobrará para ajudar às empresas a colocarem no mercado os títulos podres. Mas a nova regulação da União Europeia, inevitavelmente, ficará debilitada, o que se transformará em mais um fator de desagregação do bloco.

Em julho de 2015, o Parlamento italiano aprovou uma medida da União Europeia sobre que, no caso de bancarrotas, em primeiro lugar, os detentores de ações e títulos, por valores superiores aos 100 milhões de euros, deverão arcar com os prejuízos. Em segundo lugar, seria criado um fundo de resgate a partir dos demais bancos privados. Estas regras aumentam o perigo de que ocorram retiradas em massa do dinheiro dos bancos. Isso, já aconteceu, neste ano, e os recursos foram direcionados aos bancos alemães. E o buraco, ainda, fica mais em baixo.

No mês de novembro do ano passado, o resgate de quatro bancos menores revelou que o mercado italiano tinha ficado muito contaminado pelos títulos podres vendidos por eles. A bancarrota levou os detentores desses títulos a tentar vende-los, o que provocou o sufocamento dos preços. Dentro do marco do acordo com a Comissão Europeia, o governo tenta manobrar com o objetivo de compensar as perdas com esses títulos, que somam algo em torno aos 71 bilhões de euros. Mas o verdadeiro buraco aparecerá no caso da quebra de um banco de grande porte, como o semi falido Banca Monte de Pasci.

 

Veja também

Parte 1 – UM NOVO COLAPSO ECONÔMICO PODE SER EVITADO?

http://alejandroacosta.net/2016/01/30/davos-tenta-salvar-o-capitalismo-parte-1/

Parte 2 – A CHINA PODE LEVAR O MUNDO A UM NOVO COLAPSO?

http://alejandroacosta.net/2016/01/30/davos-tenta-salvar-o-capitalismo-parte-2/

 

 

O REGIME POLÍTICO ITALIANO EM DIREÇÃO AO COLAPSO

O que mostram os resultados das eleições regionais?

 

Eleições regionais - maio 2015

Eleições regionais – maio 2015

O Partido Democrático (ex Partido Comunista Italiano) ganhou em cinco das sete regiões em disputa: Toscana, Umbria, As Marcas, Puglia e Campania. Mas esse partido, que representa a estabilidade política italiana, que está por um fio, continua se enfraquecendo.
1- O número de votos do Partido Democrático caiu de 40,8% nas eleições para o Parlamento Europeu para 24%.
2- Na Liguria, o Partido Democrático perdeu para o Forza Italia, que é o partido de Berlusconi, e que agora se reduziu para quase 10% dos votos.
3- A vitória da direita na Liguria, que era um reduto do Partido Democrático desde 1994, foi facilitada pelas disputas internas no partido, que obteve esquálidos 24% dos votos.
4- O Movimento 5S (ou Cinco Estrelas), do palhaço Beppe Grillo, foi o segundo partido mais votado, com 18,4% dos votos. Em três regiões obteve mais de 25% dos votos. Isto abre uma crise sem precedentes no regime político já que se trata de um partido não confiável para a burguesia. Uma espécie de Rede Sustentabilidade, da Marina Silva no Brasil, mas ainda mais muito mais instável.
5- A Liga do Norte, de extrema direita, obteve 12,5% dos votos e venceu por ampla margem no Veneto, uma das principais regiões do país.
6- O descontentamento da população tem aumentado por causa do aprofundamento da crise capitalista e das medidas de austeridade impostas pelo governo Renzi, principalmente os ataques contra os direitos trabalhistas. Em dezembro do ano passado, aconteceu uma greve geral, convocada por três centrais sindicais (principalmente a CGIL e a UIL), que contou com considerável adesão em todas as principais cidades do país. Segundo os dados oficiais, o desemprego atinge 12,6% da força de trabalho (embora não considere a piora da qualidade das vagas = precarização), mas, entre os jovens, supera os 43%. A economia está em recessão e se encontra na linha de frente da crise na Europa.
7- O abstencionismo foi de 48%. Um 11% a mais que nas anteriores eleições regionais.
8- Para desviar a atenção do resultado eleitoral, Matteo Renzi realizou uma visita surpresa às tropas italianas no Afeganistão, que teve ampla cobertura na imprensa.
9- O Partido Democrático é o único partido que conseguiu dar uma certa estabilidade ao regime político italiano nos últimos três anos. A crise começou no início da década de 1990, com a bancarrota da Democracia Cristã, que tinha sido o principal instrumento de contenção social desde o final da Segunda Guerra Mundial. A crise foi tão grande que o antigo Partido Comunista Italiano (hoje Partido Democrático) foi colocado na linha de frente do novo governo. Durante duas décadas o regime foi controlado pelo mega empresário do setor de comunicações e imprensa, Berlusconi. Com a crise da direita ligada a Berlusconi, principalmente o Forza Itália, o Partido Democrático passou a controlar o governo, há aproximadamente três anos. Mas as dificuldades para formar um governo relativamente estável somente tem aumentado. A saída de Enrico Letta, um homem de confiança da União Europeia, e a entrada do Matteo Renzi, ex prefeito de Florenza, abriu uma crise enorme no partido.

Eleições regionais - maio 2015

Eleições regionais – maio 2015