DAVOS TENTA SALVAR O CAPITALISMO – PARTE 3

ITALIA – UM “PESO PESADO” EUROPEU DOENTE

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Recentemente, o governo da Itália, do primeiro ministro Matteo Renzi, e a Comissão Europeia anunciaram um acordo para “resgatar” os bancos italianos, após um ano de negociações. Esse acordo se tornou necessário após a queda dramática do valor acionário desses bancos por causa do aumento da inadimplência. Foi a volta à crise que tinha se aberto no final de 2011 e no começo de 2012 com a disparada dos juros dos títulos da dívida pública italiana. O Banco Central Europeu conseguiu controlar a situação, naquele período, por meio de enormes quantidades de recursos públicos repassados para os monopólios por meio de programas de QE (quantitative easing, ou alívio quantitativo). Em dezembro de 2012 e em fevereiro de 2013, foram nada menos que um trilhão de euros. As taxas de juros caíram de mais de 6% para os atuais pouco mais de 1%.

A principal questão que chama a atenção do acordo é que ele aconteceu logo após a entrada em vigor das novas regras da União Europeia, no início deste ano, com o objetivo de restringir os resgates das grandes empresas falidas.

A Itália representa a terceira maior economia da Zona do Euro, logo atrás da Alemanha e da França, com um tamanho 50% maior que o da Espanha. A dívida pública italiana é de 132% o PIB, ou 2,3 trilhões de euros. Desde os anos de 1990, o percentual tem se mantido acima dos 100%.

Os juros baixos, assim como os baixos preços do petróleo deram um certo fôlego ao governo de Renzi que subiu ao poder por meio de um acordo partidário. A realização de eleições gerais, previstas para acontecerem no mês de maio de 2018, são necessárias para fortalecer o regime político e impor novos ataques contra as massas. Impulsionado pela ascensão da direita fascista na Europa, a ala socialdemocrata da burguesia tem aumentado o discurso contra a União Europeia, mas, na realidade, a Itália representa, no plano nacional, contradições similares com as existentes na Europa.

 

COMO OS BANCOS ITALIANOS SERÃO SALVOS?

 

A burguesia imperialista impôs a conhecida política do Muito Grande Para Falir.

Como resultado do acordo, será criado um novo sistema pelo qual os bancos italianos serão ajudados pelo governo a colocar os títulos podres no mercado em parcelas, com o objetivo de minimizar a perda dos lucros. O governo poderá usar 44 bilhões de euros para garantir os títulos menos podres, que deverão ser vendidos a preços de mercado.

Ao mesmo tempo, será criado um banco de títulos podres que, a partir da garantia pelo governo dos títulos melhores, deveria favorecer às vendas dos mais podres por melhores preços. Ainda não está claro como o governo italiano manobrará para ajudar às empresas a colocarem no mercado os títulos podres. Mas a nova regulação da União Europeia, inevitavelmente, ficará debilitada, o que se transformará em mais um fator de desagregação do bloco.

Em julho de 2015, o Parlamento italiano aprovou uma medida da União Europeia sobre que, no caso de bancarrotas, em primeiro lugar, os detentores de ações e títulos, por valores superiores aos 100 milhões de euros, deverão arcar com os prejuízos. Em segundo lugar, seria criado um fundo de resgate a partir dos demais bancos privados. Estas regras aumentam o perigo de que ocorram retiradas em massa do dinheiro dos bancos. Isso, já aconteceu, neste ano, e os recursos foram direcionados aos bancos alemães. E o buraco, ainda, fica mais em baixo.

No mês de novembro do ano passado, o resgate de quatro bancos menores revelou que o mercado italiano tinha ficado muito contaminado pelos títulos podres vendidos por eles. A bancarrota levou os detentores desses títulos a tentar vende-los, o que provocou o sufocamento dos preços. Dentro do marco do acordo com a Comissão Europeia, o governo tenta manobrar com o objetivo de compensar as perdas com esses títulos, que somam algo em torno aos 71 bilhões de euros. Mas o verdadeiro buraco aparecerá no caso da quebra de um banco de grande porte, como o semi falido Banca Monte de Pasci.

 

Veja também

Parte 1 – UM NOVO COLAPSO ECONÔMICO PODE SER EVITADO?

http://alejandroacosta.net/2016/01/30/davos-tenta-salvar-o-capitalismo-parte-1/

Parte 2 – A CHINA PODE LEVAR O MUNDO A UM NOVO COLAPSO?

http://alejandroacosta.net/2016/01/30/davos-tenta-salvar-o-capitalismo-parte-2/

 

 

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PREVISÕES PARA 2016 – Parte 5

A RÚSSIA

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O aprofundamento da crise econômica na Rússia continuará avançando em 2016, o que obrigará o governo central a diminuir os repasses para as províncias. Os maiores projetos serão adiados. O orçamento para 2016 sofreu cortes de 10%, com excessão dos gastos militares, que estão no eixo da política do governo Putin, e das aposentadorias, com o objetivo de evitar protestos.

Novos protestos, no sentido dos protestos de 2010, voltarão a acontecer. A intensidade dos protestos será menor devido à maior unidade nacional, existente no momento em torno ao governo liderado por Vladimir Putin, contra o perigo das agressões externas e do terrorismo.

Em 2016, a economia ainda continuará em recessão, mas, no fundamental, a situação será mantida sobre controle. As sanções, impostas pelo imperialismo por causa da crise da Ucrânia e da anexação da Crimeia, serão mantidas. A Alemanha liderará a aplicação das sanções, apesar das pressões dos industriais alemães, com o objetivo de manter controlada a direita que governa os países da Europa Oriental. Mas o governo alemão manterá os objetivos estratégicos da relação com a Rússia, o fornecimento de energia, com a construção do novo gasoduto Nord Stream 2, e o avanço em relação ao Novo Caminho da Seda Chinês, do qual a Rússia é o pivô para incluir a Europa. A União Euroasiática continuará sendo fortalecida para facilitar o comercio com a Rússia e a China de maneira indireta, ultrapassando as sanções. O papel de pivô entre a Rússia e a Europa, que anteriormente era cumprido pela Ucrânia, agora terá na linha de frente a Bielorrússia.

A Rússia continuará a ser impactada em cheio pelo aprofundamento da crise capitalista, as dificuldades para aceder ao crédito no mercado mundial, os baixos preços do petróleo e a crise econômica. Embora, em linha gerais o governo da Federação conseguirá controlar o colapso econômico, inevitavelmente, este virá em 2017.

As grandes empresas terão vencimentos das dívidas externas muitos menores que em 2015, mas serão afetadas pela recessão regional e mundial. O rublo, que perdeu a metade do valor em 2015, continuará se desvalorizando, acelerando a inflação por causa do aumento dos custos dos produtos importados.

Os protestos sociais serão menores que os de 2010. O controle do aparato de segurança será mantido muito ativo sobre a política da luta contra o terrorismo.

Além do gasoduto Nord Stream 2, os maiores investimentos serão direcionados no sentido do fornecimento de energia para a Índia e a China. A tentativa do governo russo de receber pagamentos por adiantado, como contrapartida pelo fornecimento de energia e condições de investimento favoráveis, não virá nos prazos e na velocidade desejada por causa do aprofundamento da crise capitalista, particularmente na China.

As exportações de armas, que, em 2015, somaram US$ 40 bilhões, continuarão avançando como um dos carro-chefes da economia russa. A atuação militar na Síria poderá ser ampliada ao Iraque e à Líbia. A Federação Russa usará os campos de batalha como “show-rooms” para alavancar as vendas de armas. Acordos pragmáticos serão ampliados com a Arábia Saudita, o Egito, Israel e outros regimes reacionários. Mas a aliança com o Irã continuará sendo um ponto estratégico no Oriente Médio.

Na eleições legislativas de 2016, o Partido Rússia Unida continuará sendo o grande vencedor. A direita pró-imperialista não conseguirá levantar cabeça por causa das medidas já adotadas pelo governo Putin, além de outras que possam vir a ser adotadas.

As contradições entre as várias facções do governo Putin continuarão aumentando conforme a crise continuar se desenvolvendo. Na área econômica, aparecerá, em primeiro lugar, a disputa entre as grandes empresas de energia e militares. Uma saída provável para a crise desse setor será a privatização parcial das empresas de energia, o que já vem sendo avaliado em relação à Rosneft e à Gazprom, entre outras.

A influência do presidente Vladimir Putin continuará alta, mas em declínio.

VEJA TAMBÉM:

PARTE 1 – 2015: O ANO DA ACELERAÇÃO DA CRISE CAPITALISTA MUNDIAL

http://alejandroacosta.net/2015/12/31/previsoes-para-2016-parte-1/

PARTE 2 – O ORIENTE MÉDIO

http://alejandroacosta.net/2015/12/31/previsoes-para-2016-parte-2/

PARTE 3 – A EUROPA

http://alejandroacosta.net/2016/01/01/previsoes-para-2016-parte-3/

PARTE 4 – A PERIFERIA DA RÚSSIA

http://alejandroacosta.net/2016/01/01/previsoes-para-2016-parte-4/

PREVISÕES PARA 2016 – Parte 4

A PERIFERIA DA RÚSSIA

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Um dos principais objetivos da Rússia no Oriente Médio para 2016 será forçar uma saída negociada que possibilite um acordo com o imperialismo que possibilite a redução da agressividade sobre a periferia. Os Estados Unidos deverão continuar as negociações sobre questões táticas com os russos, mas evitarão acordos sobre questões estratégicas. A Rússia possui contradições importantes com o imperialismo em relação à disputa das regiões da antiga União Soviética. A política norte-americana, aplicada por meio da OTAN, buscará conter a Rússia com o objetivo de conte-la e, ao mesmo tempo que buscará, como objetivo de longo prazo, impor um governo controlado pelo imperialismo. Em cima desse aperto, a Rússia continuará desenvolvendo a aliança com a China, em primeiro lugar, e outras potências regionais como a Índia.

O governo Putin começará a enfrentar problemas nas províncias devido à contração do orçamento público provocado pela queda da renda petrolífera. Isso já tinha acontecido em 2010. Agora a Federação Russa, em grande medida, se encontra unida em cima da defesa da nação perante o aumento da agressividade do imperialismo na Ucrânia e na região dos Bálticos. Mas o estômago deverá falar mais alto.

As contradições entre o imperialismo e a Rússia continuarão relativamente desescaladas na periferia da Rússia devido aos acordos impulsionados pela Administração Obama com o objetivo de focar a estabilização da Síria.

A guerra civil na Ucrânia continuará congelada, com alguns conflitos menores que fazem parte do jogo para manter o fluxo dos recursos e das ajudas. A crise capitalista na Ucrânia continuará controlada, mas em estágio crítico. A política russa, impulsionada pelo Tratado de Minsk II, não será aplicada. O governo ucraniano de Pieter Poroshenko continuará sem condições de aceitar o status de autonomia e o direito ao veto para as repúblicas de Lugansk e Donetsk por causa das pressões da extrema direita. A Rússia manterá o apoio ao enclave no Donbass com o objetivo de evitar o ingresso da Ucrânia na União Europeia e na OTAN.

A contração da economia da Ucrânia, em 2015, levará à queda do primeiro ministro Arseniy Yatsenyuk. A inflação e o desemprego alto continuará na base dos protestos sociais. O distanciamento da Rússia aumentará ainda mais com o não pagamento da dívida de US$ 3 bilhões e o acordo de comercio com a União Europeia de janeiro de 2016.

As sanções contra a Rússia, e as contra sanções, continuarão durante todo o ano de 2016. Os exercícios militares da OTAN e da Rússia aumentarão em escala, tanto no número das tropas envolvidas quanto na duração e armamento. A Rússia continuará a envolver nas manobras no Mar Mediterrâneo, no Mar Negro e no Mar Ártico, a China.

A OTAN, se bem não alocará tropas de maneira permanente na Europa Central, aumentará as tropas em rotação.

As relações com a Turquia continuarão baixas por causa da atuação da Rússia na guerra civil síria. Os projetos mais importantes no setor de energia, como o gasoduto South Stream e a construção de uma central nuclear serão adiados.

O enclave de Nagorno-Karabakh continuará avançando na direção de um acordo, entre a Armênia e o Azerbaijão, patrocinado pela Federação Russa, mas enfrentamentos militares ainda acontecerão ao longo do ano. A Rússia manterá os acordos estratégicos com a Armênia, inclusive as tropas estacionadas e os mísseis defensivos, mas continuará se aproximando com o Azerbaijão. Neste último caso, a Turquia tentará fortalecer os vínculos para aumentar o fluxo de petróleo e gás à Europa através do próprio território.

A Bielorrússia continuará aumentando os acordos com a União Europeia, mas manterá os acordos estratégicos, inclusive militares, com a Federação Russa. A Bielorrússia continuará na linha de frente da aproximação da União Euroasiática com a União Europeia com o objetivo de facilitar a aproximação ao Novo Caminho da Seda chinês, passando por cima das sanções contra a Rússia.

Os Países Bálticos continuarão procurando se distanciar da Rússia e se aproximando da Europa, principalmente em relação à política energética e militar.

Geórgia, o inimigo da Rússia de longa data, manterá os laços com o imperialismo, mas não será admitida na OTAN nem na União Europeia por causa dos enclaves russos da Abkhazia e da Ossétia do Sul. Os laços comerciais com a Rússia aumentarão, principalmente no setor de energia e, eventualmente, substituindo parte das exportações agrícolas turcas.

As repúblicas da Ásia Central tendem a converter-se num dos pontos de concentração de uma nova ascensão das guerrilhas islâmicas conforme militantes retornarão a partir do Oriente Médio e trabalhadores imigrantes retornarão da Rússia por causa da crise econômica. O Cazaquistão e o Uzbequistão tentarão privatizar empresas públicas do setor de energia, que foram atingidas em cheio pela queda dos preços do petróleo e do gás. O gigantes russos do setor ficarão com parte dessas empresas, mas de maneira minoritária por causa dos endêmicos problemas de caixa. Os chineses continuarão aumentando a penetração na região. O mesmo farão os monopólios ocidentais.

Além do Oriente Médio, as repúblicas da Ásia Central são muito influenciados pela crise política do Afeganistão, fundamentalmente com a recente escalada do Talibã no norte do Afeganistão, perto das fronteiras com o Uzbequistão, o Turcomenistão e o Tajiquistão. A Rússia é a potência regional que detém a maior influência na região, apesar das recentes investidas dos chineses, em grande medida com a complacência dos russos. Os Estados Unidos poderão tentar a retomada das posições, a partir da retomada do projeto do gasoduto Trans Cáspio e a abertura de bases militares. O panorama deverá ficar mais claro a partir do mês de agosto de 2016, quando acontecerá a reunião cume do Mar Cáspio, em Astana, a capital do Cazaquistão.

VEJA TAMBÉM:

PARTE 1 – 2015: O ANO DA ACELERAÇÃO DA CRISE CAPITALISTA MUNDIAL

http://alejandroacosta.net/2015/12/31/previsoes-para-2016-parte-1/

PARTE 2 – O ORIENTE MÉDIO

http://alejandroacosta.net/2015/12/31/previsoes-para-2016-parte-2/

PARTE 3 – A EUROPA

http://alejandroacosta.net/2016/01/01/previsoes-para-2016-parte-3/

PREVISÕES PARA 2016 – Parte 3

A EUROPA

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O eixo da política na Europa, em 2016, estará marcado pelas eleições nacionais que acontecerão na Alemanha e na França, as duas principais potências da Zona do Euro. O aprofundamento da crise econômica tem criado uma clara movimentação à direita do regime político e a tendência à classe operária a entrar em movimento.

A própria Zona do Euro será colocada em xeque, em 2016, por causa do aumento das contradições entre a França e a Alemanha. A aliança entre as duas potências, que data desde o final da Segunda Guerra Mundial, começou a apresentar rachaduras. A França pressiona pelo aumento dos gastos da União Europeia em obras de infraestrutura e, principalmente, na compra de títulos públicos pelo BCE (Banco Central Europeu). O governo alemão, pressionado pelos setores mais à direita, tem resistido a essas pressões. A Grande Coalisão, encabeçada pela chanceler Angela Merkel entrou em crise por causa da recessão industrial e a crise dos refugiados.

Na França, a Frente Nacional, o partido da extrema direita, deverá continuar se fortalecendo e eleger um número significativo de deputados à Assembleia Nacional. Se a recessão acelerar, poderá passar ao segundo turno junto com o Partido Republicano de Nicolás Sarkozy. Os socialdemocratas do PSF poderão ter o mesmo fim do Pasok grego.

Na Alemanha, a extrema direita, agrupada no AfD, também deverá crescer. A ala direitista da CDU/CSU deverá se fortalecer com a perda de deputados nas eleições, o que levará à renúncia de Merkel do cargo de chanceler. A ala direita do partido socialdemocrata, o PSD, deverá se enfraquecer.

O Tratado de Schengen, que permite a livre circulação de pessoas e mercadorias, deverá ser colocado em xeque. Os controles fronteiriços deverão aumentar. Aparecerão acordos regionais, como os que já se encontram em negociação entre os países nórdicos ou alguns países da Europa Oriental.

A Grécia continuará sendo o patinho feio da Zona do Euro, mas vários outros países andarão rapidamente no sentido de converter-se em novas Grécias. Principalmente, Portugal, Irlanda, Espanha, Itália, mas também a França e a Inglaterra. A pequena maioria parlamentar do primeiro ministro Alexis Tsipras deverá colapsar conforme aumentar a pressão da União Europeia para aplicar os planos de ajuste, a crise continuar devastando as condições de vida dos trabalhadores e a válvula de escape da migração à Alemanha e aos países nórdicos for perdendo fôlego.

Um novo “resgate” grego não está colocado para 2016, mas o aperto sobre a população deverá levar a uma nova escalada dos protestos sociais. A pergunta do milhão é até que ponto dos mecanismos de contenção das massas conseguirão ser mantidos em pé, principalmente no contexto do enfraquecimento da Alemanha e demais países desenvolvidos da Europa, que funcionam como amortecedores sociais dos países em crise.

Os governos multipartidários de Portugal e da Espanha serão governos de crise. O governo de esquerda de Portugal, encabeçado pelo PSP (Partido Socialista), continuará aplicando as políticas de austeridade com a ajuda da direita, como aconteceu recentemente no caso da venda do banco Baniff ao Santander.

Na Espanha, as tendências separatistas continuarão evoluindo na Catalunha conforme a crise continuar se aprofundando. O atual primeiro ministro Mariano Rajoy não será empossado novamente. No lugar, provavelmente, ficará um elemento do PSOE. O novo governo será um governo de crise, fraco, que deverá negociar também com o Podemos e o Ciudadanos, além do Partido Popular.

Os baixos preços do petróleo e as dezenas de bilhões que o BCE (Banco Central Europeu) repassa aos monopólios manterão a economia funcionando, mas a recessão industrial continuará a acelerar. O desemprego continuará contido, mas a qualidade do emprego continuará se deteriorando.

O aumento das contradições entre a França e a Alemanha levará ao aumento das tendências centrípetas nos países mais afetados pela crise na Zona do Euro. O ritmo da aplicação dos planos de austeridade deverá ser desacelerado. O BCE, que é controlado pela Alemanha, será obrigado a escalar as medidas de repasse de recursos, o que manterá os lucros em queda, mas acentuará a crise na Alemanha e em toda a Europa.

Na Itália, o referendo sobre as reformas constitucionais de 2015, que acontecerá no segundo semestre de 2016, será derrotado. O governo do primeiro ministro Matteo Renzi entrará em crise, o que aumentará as divisões interna no Partido Democrático. As eleições agendadas para 2018 serão adiantadas. A extrema direita deverá se fortalecer da mesma maneira que acontece nos demais países europeus.

Na Grã Bretanha, acontecerá, no final do ano, o referendo sobre a permanência na União Europeia. Antes disso, haverá um acordo, sobre várias das exigências da burguesia britânica, principalmente manter-se à margem da evolução, pretendida pelo imperialismo franco-alemão, na direção de uma federação europeia. O primeiro ministro, David Cameron, usará a pressão da saída para obter maiores concessões da União Europeia.

Os direitos dos imigrantes serão reduzidos e o Tratado de Schengen, do qual hoje a Grã Bretanha já não participa, será colocado em xeque. Novos países levantarão a bandeira sobre o direito ao veto dos parlamentos nacionais. As contradições com os países da Europa Central e Oriental aumentarão.

Na Polônia, a extrema direita que controla a presidência da república e o parlamento continuará pressionando a Alemanha com o objetivo de manter a pressão sobre a Rússia, o que inclui a alocação de forças militares permanentes no território e a manutenção das sanções. A Alemanha continuará liderando a renovação das sanções contra a Rússia em julho, mas imporá o principal acordo do próprio interesse, o gasoduto Nord Stream 2, apesar dos protestos dos mesmos governos da Europa Oriental.

O novo governo da Polônia, para compensar o distanciamento da Alemanha, da França e da Administração Obama, buscará a aproximação com o chamado Grupo de Visegrad (Polônia, Hungria, República Tcheca e Eslováquia), a Ucrânia e com a Grã Bretanha.

Na România, o outro importante componente da OTAN na política de contenção contra a Rússia, o novo “governo tecnocrático” que substituiu o primeiro ministro Victor Ponta manterá a proximidade com a Alemanha, a França e a Administração Obama. Também manterá as contradições com a Rússia e continuará pressionando pela aproximação com a Moldávia, enquanto a Rússia manterá o enclave da Transnítria, como contrapressão contra a União Europeia e a OTAN. Nas eleições que acontecerão em dezembro, o “governo tecnocrata” terá o mesmo fim do “governo tecnocrata” de Mario Monti na Itália. Na Moldávia, as denuncias contra a corrupção do governo dificultarão a aproximação da União Europeia e favorecerão os partidos pró-russos.

VEJA TAMBÉM:

PARTE 1 – 2015: O ANO DA ACELERAÇÃO DA CRISE CAPITALISTA MUNDIAL

http://alejandroacosta.net/2015/12/31/previsoes-para-2016-parte-1/

PARTE 2 – O ORIENTE MÉDIO

http://alejandroacosta.net/2015/12/31/previsoes-para-2016-parte-2/

Europa – CRISE E FIM DO BIPARTIDARISMO

Catalunha3

 

As recentes eleições na Espanha mostraram o fim do bipartidarismo que tinha sido colocado em pé no final da ditadura franquista. A direita agrupada no PP (Partido Popular) e os socialdemocratas do PSOE não somente não conseguiram a maioria incontestável das eleições anteriores, mas também não conseguiram sustentar uma aliança aberta entre ambos partidos por causa da pressão da base eleitoral.

A aplicação dos chamados planos de austeridade, com ataques recorrentes contra as condições de vida dos trabalhadores tem colocado em xeque a estabilidade política e social. A aparição de novos partidos no primeiro time da política oficial revelou que, conforme a crise avança, a burguesia se divide. Na Espanha, há agora o Podemos, que representa uma socialdemocracia reciclada, e o Ciudadanos, este uma direita reciclada.

A situação da Espanha é muito similar nos demais países dos chamados PIIGS (um acrônimo em inglês para a palavra “pigs”, ou porcos), que referencia a Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha, os países da Zona do Euro onde a crise avançou mais aceleradamente.

Em Portugal, a aliança de direita liderada pelo primeiro ministro Passos Coelho, foi substituída por um governo da esquerda burguesa, liderada pelo PSP (Partido Socialista), da qual também fazem parte a BC (Bloco de Esquerda) e o PCP (Partido Comunista). Trata-se um governo muito fraco, como o demonstrou a recente aprovação da entrega do banco público Baniff ao Santander, onde o PSP foi socorrido pela direita para viabiliza-la.

Na Grécia, os partidos políticos tradicionais da Nova Democracia (direita) e do Pasok (socialdemocratas) foram substituídos pelo Syriza, uma espécie de Psol grego, que para manter-se no poder precisou dar uma forte virada à direita.

Na Itália, a crise do regime político tem sido recorrente desde o colapso da democracia cristã nos anos de 1990. Agora, o governo está encabeçado pela ala direita do PD (Partido Democrático), que é composto principalmente por antigos membros do PCI (o partido eurocomunista italiano), após muitas dificuldades para forma-lo.

 

O QUE REVELA O FIM DO BIPARTIDARISMO?

 

O bipartidarismo faz parte da política clássica da burguesia para controlar o regime político. Tradicionalmente, a direita tem aplicado políticas mais duras contra a população, que têm sido aliviadas por governos intermediários da “ala esquerda” do regime. Essa alternância no governo tem sido a política tradicional em todos os principais países. Agora, esse mecanismo se encontra no fim, inclusive nas potências de primeira ordem.

Na França, desponta a extrema direita agrupada na Frente Nacional. Na Inglaterra, setores do Partido Conservador têm migrado, e continuam migrando, para a extrema direita agrupada no UKIP, enquanto o Partido Trabalhista passou a ser liderado pela ala esquerda encabeçada por Jeremy Corbyn. Na Alemanha, a Grande Coalisão, encabeçada por Angela Merkel, enfrenta forte crise, da mesma maneira que acontece no Japão com o governo de direita de Shinzo Abe, que substituiu os “democratas nipônicos”.

Os grandes capitalistas enfrentam maiores dificuldades para controlar governos formados a partir de vários partidos políticos. Esses governos ficam muito mais vulneráveis para enfrentar o descontentamento social e garantir os lucros dos capitalistas. Os novos partidos não são fortes nem suficientemente testados para garantir a estabilidade do regime político. Por esse motivo, a tendência é a evoluírem para governos de crise.

Conforme as burguesias locais têm perdido dinheiro, também têm aumentado as tendências separatistas em todo o mundo, mas, no último período, tem se transformado num fenômeno cada vez mais presente na Europa. O nacionalismo burguês nos países atrasados continua avançando por causa do enfraquecimento do imperialismo. Na América Latina, a onda nacionalista que chegou ao poder com o colapso dos regimes neoliberais está enfrentando a própria crise devido ao aprofundamento da crise capitalista, impulsionada pelo aumento da pressão do imperialismo norte-americano e a forte queda das matérias primas no mercado mundial. Mas, inevitavelmente, uma nova onda de setores nacionalistas, à esquerda dos atuais, deverá surgir no próximo período, pois a disparada da espoliação pelo imperialismo não somente aumentou, mas deverá continuar aumentado devido à tentativa dos monopólios garantirem os lucros.

 

Rússia-Índia: PRÓ-IMPERIALISMO OU NACIONALISMO?

 

India Russia

QUAL É O SIGNIFICADO DOS RECENTES ACORDOS RÚSSIA-ÍNDIA? QUAL É O CARÁTER DO GOVERNO DO DIREITISTA NARENDRA MODI?

 

Recentemente, o primeiro ministro da Índia, Narendra Modi, esteve em Moscou para participar da 16a. reunião bilateral anual entre ambos países. Essas reuniões começaram a acontecer a partir de 1997, após o colapso da antiga União Soviética. Foram assinados vários acordos estratégicos nas áreas de energia, comercio e militar.

A Rússia aumentará as exportações de petróleo e gás à Índia, que representa o terceiro maior consumidor em escala mundial.

As relações comerciais entre vários gigantes russos do setor da energia e a Índia datam de anos e têm evoluído com maior velocidade que com a China. Esse é o caso da Rosneft que avança para comprar 49% da indiana Essar com o objetivo de entrar no lucrativo negócio do refino de combustíveis. Em políticas similares têm avançado a Lukoil, a Sistema e a Gazprom.

No setor militar, a Rússia continua sendo o principal fornecedor, apesar da ampliação dos últimos anos. O avião militar T-50 e o míssil de curto alcance BrahMos são desenvolvimentos conjuntos. Em andamento, se encontra a aquisição de quase 150 T-50, que será equipado com os BrahMos. Também estão em negociação a compra de dois submarinos diesel-elétricos, 48 helicópteros, com a produção dos Kamov 226T, três fragatas, a expansão de peças para o avião Sukhoi 30MKI e o sistema anti-mísseis S-400 que, neste momento, somente é operado pela China e a própria Rússia. A versão seguinte, os S-500, blindou o espaço aéreo russo contra a ameaça nuclear da OTAN.

 

“IT IS JUST BUSINESS” = “E SÓ NEGÓCIOS”

 

Narendra Modi foi eleito no mês de maio de 2014 pelo direitista Partido Bharatiya Janata. O grande derrotado foi o Partido do Congresso, dos Nehru e dos Gandhi. A primeira visão desse governo é que tentaria aumentar a proximidade com os Estados Unidos e com o Japão, distanciando-o da Rússia, a China e a OCX (Organização de Cooperação de Xangai). Mas a política é prática. A crise capitalista tem avançado com força sobre a Índia que tenta adotar medidas de contenção. A burguesia indiana tem buscado vários mecanismos para salvar os lucros e manter os privilégios.

Os acordos com os russos facilita a política da Índia de aumentar a participação no lucrativo negócio das vendas de armas. Em 2012, tinha disso assinado um acordo para o fornecimento do submarinho classe Akula. Agora, entraram nas discussões os submarinos Kashalot e o Iribis que ainda se encontra em desenvolvimento. O objetivo dos indianos é remodelar esses submarinos e inclui-los não somente no arsenal doméstico, mas também no show room do armamento a ser exportado. O plano de defesa da Índia para 2016 inclui o aumento da produção nacional de 30% para 40%.

Mas as amarrações militares e políticas da Índia com a Rússia não são “tão exclusivas” como as relações entre a Rússia e a Índia. A Índia ainda mantem como política o chamado “não alinhamento” que, na prática é uma dança das cadeiras entre as várias potências regionais e imperialistas. Modi mantém essa política. Enquanto conversava com o presidente russo, Vladimir Putin, o governo indiano fazia um pedido de 100 drones aos Estados Unidos, fortalecia os acordos no setor naval com o Japão e o próprio Modi, numa política difícil de ser prevista, visita o eterno inimigo, o Paquistão, num esforço pela distensão regional.

 

 

 

COP21 (Paris) – ECOLOGIA A SERVIÇO DOS LUCROS

 

A principal medida será o “repasse” de US$ 100 bilhões para os países atrasados que, obviamente, os aplicarão nos créditos carbono.

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Com muito alarde foi fechada a COP21, que aconteceu em Paris entre os dias 30 de novembro e 12 de dezembro deste ano, com a participação dos representantes de 195 países. Os sucessores do falido Acordo de Kyoto se apresentaram como os salvadores do mundo com propostas que supostamente contribuiriam para a preservação do meio ambiente.

As medidas começarão a ser aplicadas em 2020 e serão revisadas a cada cinco anos. O objetivo seria limitar o aumento da temperatura global em 2o C e tentar fazer um esforço para limita-lo em 1,5o C. O principal instrumento para conseguir essa redução será o aporte de US$ 100 bilhões anuais para os países em desenvolvimento. É justamente nesse “instrumento” que radica o cinismo do “ecologismo burguês”.

O dinheiro que teria como destino os países atrasados para combater o aquecimento global de fato deverá ser aplicado na especulação financeira com os crédito carbono. Os países mais desenvolvidos pouco farão, além de muita propaganda, pois, devido à queda acelerada das taxas de lucro, tudo o que implicar aumento dos custos deverá ser descartado, seja por mecanismos legais ou ilegais. O recente escândalo da Volkswagen, relacionado com a manipulação dos índices das emissões dos automóveis, com certeza, não é uma exceção à regra, mas a própria regra. As denuncias partiram dos Estados Unidos, e foram elaboradas com a espionagem industrial promovida pela NSA (agência nacional de segurança) com o objetivo de criar dificuldades na aproximação da Europa do Novo Caminho da Seda chinês, do qual a Rússia é o pivô em relação à Europa.

Os desastres ambientais como o que a BP (British Petroleum) provocou no Golfo do México, a exploração do gás e do petróleo a partir do xisto, a inundação do mundo com transgênicos e agrotóxicos, e o uso de petróleo e carvão como fontes energia representam apenas algumas das amostras da farsa do ecologismo burguês. O capitalismo tem como objetivo os lucros a qualquer custo. O próprio ex vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, que pousava de grande ecologista, obteve enormes lucros com a especulação com os créditos carbono, da qual foi um dos principais impulsionadores.

 

AS MEDIDAS APROVADAS NA COP21

 

O acordo da COP21 não foi aprovado com caráter vinculante por conta das pressões dos Estados Unidos. Se tratam apenas de recomendações que não implicarão em nenhuma punição caso as metas não sejam atingidas.

Para limitar o aumento da temperatura em 2 ou 1,5 graus centigrados, o acordo considerou a aprovação de um “pico das emissões de gases de efeito estufa o antes possível” e a “neutralidade das emissões desses gases durante a segunda metade do século XXI. Esses acordos serão revisados em 2020, mas a primeira revisão obrigatória acontecerá em 2025.

Os países desenvolvidos e os mais industrializados deverão “se esforçar” para reduzir as emissões de gases de efeito estufa no curto prazo. Os países mais atrasados terão mais tempo para reduzi-los.

Os países desenvolvidos tinham prometido, em 2009, a entrega de US$ 100 bilhões para os países atrasados com o objetivo de fortalecer as energias renováveis e outras medidas de adaptação ao aquecimento, tais como diques, alertas meteorológicas e sementes resistentes à seca. Essa contribuição é “voluntária” e “complementária”.

O desastre ambiental é um dos componentes das próprias leis do capitalismo. Devido ao aprofundamento da crise capitalista, as grandes empresas estão “matando cachorro a grito” para garantir os lucros. E conforme a crise continuar se aprofundando, que é justamente o que está colocado para o próximo período, mais as “loucuras capitalistas” estarão colocadas à ordem do dia.

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