PREVISÕES PARA 2016 – Parte 10 – A AMÉRICA LATINA (6)

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A CRISE DO MERCOSUL

 

O aprofundamento da crise dos dois principais países do bloco, o Brasil e a Argentina, aumentará as rachaduras que têm se acentuado com a eleição de Maurício Macri na Argentina.

A América Latina foi atingida em cheio pelo aprofundamento da crise capitalista mundial. O imperialismo norte-americano impõe o aumento da espoliação dos recursos da região na tentativa de salvar os lucros dos monopólios. Os déficits públicos aumentaram de maneira acelerada. Os ataques contra os trabalhadores têm crescido e desgastado todos os governos. Esta é a base principal das derrotas eleitorais do kirchnerismo na Argentina.

O nacionalismo burguês tem buscado acordos com o imperialismo na tentativa de conter a crise. E o imperialismo tem tentado impulsionar a saída neoliberal. Mas se trata de um “neoliberalismo” de crise que nem sequer conseguiu colocar em pé a frente única que foi típica dos anos de 1990. A burguesia está dividida.

Manter os programas sociais nos níveis atuais é inviável por causa da queda dos recursos para sustenta-los. A aplicação das políticas neoliberais deve ser dosada por causa do período da aceleração do descontentamento social. Da mesma maneira, o Mercosul se encontra entre a espada e a parede. Como bloco tenta aumentar os acordos comerciais internos, mas, por causa da crise, precisa amplia-los para as demais potências. O problema é que os novos acordos abrem flancos e implicarão na entrega de setores estratégicos. Mas para onde correr? As alternativas são cada vez menores?

A tendência é ao aumento das tendências corrosivas no Mercosul a partir dos acordos com a União Europeia, os Estados Unidos e a Aliança Trans Pacífico. Mas essa tendência só poderá avançar de maneira contraditória, por meio de crises políticas e pelo surgimento de novos setores nacionalistas a partir do rompimento dos blocos atuais.

Na Argentina, as políticas neoliberais aplicadas pelo governo Macri tendem a entrar em crise rapidamente e a colocar o governo contra a parede conforme a crise continuar se aprofundando e deteriorando as condições de vida dos trabalhadores.

À já concedida isenção de impostos ao “agronegócio” e à entrega das reservas petrolíferas de Vaca Muerta aos monopólios norte-americanos, se somará o repasse de recursos para os fundos abutres, credores da dívida pública. O problema é que para viabilizar esses recursos o governo será obrigado a aumentar os ataques contra as massas.

A redução do gasto público será traduzido na redução dos gastos sociais e dos investimentos públicos.

O peso argentino continuará sendo desvalorizado, o que impulsionará a inflação a partir das importações. Por esse motivo, várias taxações aos produtos importados não poderão ser removidas.

Macri conseguirá manter, neste ano, o apoio da ala direita do kirchnerismo, principalmente dos governadores, e de outros setores do peronismo, como o liderado pelo ex candidato presidencial Sergio Massa, além de parte da burocracia sindical, como o ligado à central liderada por Moyano. Mas conforme a crise continuar avançando, principalmente, por causa da pressão internacional, a base de apoio ao governo deverá rachar.

Neste ano, a crise deverá criar o fermento para que se repita um novo Argentinazo no próximo ano.

Macri tentará avançar no sentido da aproximação com os Estados Unidos e a União Europeia em muito maior velocidade que os demais países do Mercosul. Mas devido à profundidade da crise e aos acordos já estabelecidos, a virada acontecerá de maneira gradual.

No Brasil, a nova equipe econômica, encabeçada por Barbosa, manterá a essência das políticas anteriores, do banqueiro Joaquim Levy. Essas políticas anti-povo, que buscam manter os lucros das grandes empresas, mantendo a estabilidade social, passam também pela maior aproximação com os Estados Unidos e a União Europeia. Mas o governo Dilma manterá a política geral em relação ao Mercosul que continua como destino importante das exportações brasileiras, mesmo apesar da crise na Argentina. A existência do Mercosul facilita os acordos de conjunto com outros blocos e instrumentos locais, como a União Euroasiática, a OCX (Organização de Cooperação de Xangai) e os bancos regionais.

A recessão industrial, o aumento do desemprego e da inflação acelerarão a política do “salve-se quem puder”. O Mercosul deverá se enfraquecer neste ano, mas ainda não morrerá.

No Uruguai, a crise continuará acelerando, com o crescente aumento da carestia de vida. O governo da ala direita da Frente Ampla, encabeçada pelo Dr. Tabaré Vázquez, tentará acelerar a aproximação com os Estados Unidos e a Europa. Sem conseguir romper com o Mercosul, procurará avançar em todos os sentidos possíveis, inclusive aderindo à nova política norte-americana da Aliança Trans Atlântica.

O certo sucesso da economia promovido em cima da depredação do país por meio do cultivo de soja transgênica e de eucaliptos, para alimentar as duas mega plantas industriais de celulose, continuará no centro da política econômica.

Todos os representantes do Mercosul concordaram na necessidade de avançar as relações com a China e a Rússia. Ao mesmo tempo, todos concordaram sobre a necessidade de ampliar os acordos comerciais com o maior número de países ou blocos.

A pressão da ala direita do bloco passa pela aproximação com a União Europeia, os Estados Unidos e a Aliança Trans Pacífico. Desta aliança participam o Chile, a Colômbia, o México e o Peru, enquanto a Costa Rica e o Panamá solicitaram a adesão. A Argentina e o Uruguai encabeçam a pressão nesse sentido, mas os demais integrantes do Mercosul passaram a flexibilizar as posições.

VEJA TAMBÉM:

PARTE 1 – 2015: O ANO DA ACELERAÇÃO DA CRISE CAPITALISTA MUNDIAL

http://alejandroacosta.net/2015/12/31/previsoes-para-2016-parte-1/

PARTE 2 – O ORIENTE MÉDIO

http://alejandroacosta.net/2015/12/31/previsoes-para-2016-parte-2/

PARTE 3 – A EUROPA

http://alejandroacosta.net/2016/01/01/previsoes-para-2016-parte-3/

PARTE 4 – A PERIFERIA DA RÚSSIA

http://alejandroacosta.net/2016/01/01/previsoes-para-2016-parte-4/

PARTE 5 – A RÚSSIA

http://alejandroacosta.net/2016/01/02/previsoes-para-2016-parte-5/

PARTE 6 – A CHINA

http://alejandroacosta.net/2016/01/04/previsoes-para-2016-parte-6/

PARTE 7 – A CHINA E A REGIÃO PACÍFICO DA ÁSIA

http://alejandroacosta.net/2016/01/04/previsoes-para-2016-parte-7/

PARTE 8 – O JAPÃO

http://alejandroacosta.net/2016/01/11/previsoes-para-2016-parte-8/

PARTE 9 – OS ESTADOS UNIDOS

http://alejandroacosta.net/2016/01/13/previsoes-para-2016-parte-9/

PREVISÕES PARA 2016 – Parte 10 – A AMÉRICA LATINA (1)

http://alejandroacosta.net/2016/01/18/previsoes-para-2016-parte-10-a-america-latina-1/

PREVISÕES PARA 2016 – Parte 10 – A AMÉRICA LATINA (2)

http://alejandroacosta.net/2016/01/18/previsoes-para-2016-parte-10-a-america-latina-2/

PREVISÕES PARA 2016 – Parte 10 – A AMÉRICA LATINA (3)

http://alejandroacosta.net/2016/01/18/previsoes-para-2016-parte-10-a-america-latina-3/

PREVISÕES PARA 2016 – Parte 10 – A AMÉRICA LATINA (4)

http://alejandroacosta.net/2016/01/18/previsoes-para-2016-parte-10-a-america-latina-4/

PREVISÕES PARA 2016 – Parte 10 – A AMÉRICA LATINA (5)

http://alejandroacosta.net/2016/01/18/previsoes-para-2016-parte-10-a-america-latina-5/

 

 

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URUGUAI: ECOLOGIA E NEOLIBERALISMO

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O Uruguai avançou na direção da energia eólica, que hoje representa perto de 40% do consumo nacional. A biomassa e a energia solar também têm crescido. Os consumidores individuais podem vender para a empresa estatal de energia, a UTE, os excedentes. Considerando a energia proveniente das hidrelétricas, as energias renováveis seriam responsáveis por 94,5% do total do consumo elétrico. No início da década passada, as importações de energia chegaram a representar 27% do total das importações.

Em relação ao consumo total de energia, incluindo o transporte, o percentual é de 55%, muito acima da média mundial que é de 12%.

Após a proliferação das centrais eólicas, o Uruguai passou até a exportar energia, superando o sucateamento das hidrelétricas, principalmente o da Central de Rincón do Bonete, localizada no Rio Negro, o principal rio do país, que o divide entre norte e sul.

O governo atual, encabeçado por Tabaré Vázquez, representa a ala direita do nacionalismo burguês latino-americano. Na anterior gestão de Vázquez, até George Bush Jr. esteve no Uruguai, “coincidentemente”, quando Hugo Chávez esteve em Buenos Aires. Hoje, assim como ontem, o governo Vázquez apoia, em grande medida, as políticas gerais de Maurício Macri, o recém eleito presidente argentino.

Durante o governo Mujica (o presidente pop star uruguaio), que aconteceu entre as dois governos de Vázques, o ministro da Economia continuou sendo o “vazquista” Danilo Astori.

A “mágica” da recuperação do Uruguai do colapso de 2002, atingido em cheio pelo contágio da crise argentina, foi converter o país num futuro Deserto do Saara: inundação do Uruguai com soja transgênica e com eucaliptos. Até 2002, a encomia girava em torno da pecuária, do turismo, das empresas das zonas francas (livres de impostos e de legislação trabalhista) e dos bancos. Hoje, o “agronegócio” tomou conta. O grau de concentração da propriedade da terra se tornou escandaloso, e aumentou nos governos da Frente Ampla. Há duas gigantescas fábricas de papel celulose. As zonas francas, o turismo e os bancos continuam. A pecuária perdeu muita importância. O número de cabeças de gado e DE ovelhas caiu sensivelmente.

 

FRENTE AMPLA: COLAPSO DA DIREITA E CONTENÇÃO DAS MASSAS

 

Os dois partidos “tradicionais”, da direita, o Partido Blanco e o Partido Colorado, entraram em colapso com a crise de 2002, que foi brutal. O país era um paraíso fiscal principalmente dos argentinos, que devido à crise na Argentina retiraram dos bancos uruguaios mais de US$ 6 bilhões em pouco mais de dois meses. Esta foi a base da subida ao poder da Frente Ampla, fundado em 1971, sob a base das gigantescas mobilizações operárias.

A ala que subiu ao poder foi encabeçada pelos setores de direita da Frente Ampla, com Tabaré Vázquez como presidente. A Frente obteve maioria nas duas Câmaras, além de controlar a Prefeitura de Montevidéu, a capital do país.

José Mujica chegou ao poder no mandato seguinte, sobre o impulso da crise mundial. Mas Danilo Astori (o ministro da Economia) foi mantido. Mujica é o líder da ala esquerda da Frente Ampla, o MPP (Movimento por el Pueblo). Mujica impulsionou várias reformas democráticas, como o Plano Ceibal (computadores didáticos de graça para os estudantes), investimentos na educação e saúde, a legalização da maconha e do casamento gay. Mas os problemas fundamentais nem sequer foram discutidos, apesar da maioria parlamentar: dependência do imperialismo, reforma agrária, a punição real dos torturadores etc.

A eleição de Mujica revelou a gigantesca crise do regime político. Mujica era o refém tupamaro que tinha ficado 14 anos na cadeia, em situações muito precárias, que abria mão do salário, que ia ao Senado de moto ou de fusca e até sujo (para espanto dos engravatados) porque tinha trabalhado na chácara dele. As reformas aplicadas pelas Frente Ampla estão longe das que têm sido aplicadas pelos chavistas na Venezuela, apesar da proximidade ideológica. Mas o fator determinante do grau de radicalização das reformas passo pela radicalização das massas. O trabalhadores venezuelanos tinham passados pela luta guerrilheira dos anos de 1960 e pelo precoce colapso de 1989, o Caracazo.

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FRENTE AMPLA: A ALA DIREITA DO NACIONALISMO BURGUÊS LATINO-AMERICANO

 

A FA (Frente Ampla) foi fundada em 1971, no contexto do ascenso operário e popular, como um mecanismo de controle do mesmo, e foi colocada na ilegalidade pelo golpe militar. O programa da FA foi baseado no programa da CNT (Central Nacional dos Trabalhadores) e contou com a participação dos chamados “setores progressistas” dos partidos “tradicionais” (Colorado e Blanco), o PCU (Partido Comunista), que controla até hoje os principais sindicatos, o PS (Partido Socialista), católicos e independentes. Após a queda do regime militar, em 1984, a FA ainda contava com uma base de massas. No primeiro Congresso, que aconteceu em 1987, havia 2.340 delegados, que tinham sido eleitos nos comitês de base, e apenas 109 designados pela direção.

Nas eleições de 1989, a FA ganhou a prefeitura da cidade de Montevideo, onde mora a metade da população do país. Sobre a influência da pressão do chamado neoliberalismo em escala mundial, passou a aplicar políticas contra as massas, o que acabou reduzindo a influência das bases.

Em 1992, o governo nacional direitista tentou aprovar em referendo a privatização de cinco das mais importantes empresas estatais, dentro de um pacote que contemplava mais de 32 empresas públicas. O referendo, que era apoiado de maneira camuflada pela FA, fracassou. Mesmo assim, a cumplicidade da FA permitiu o avanço das privatizações, além do que a ditadura militar tinha conseguido. Três empresas públicas foram privatizadas (pesca, gás e empresa de aviação) e a telefonia foi liberalizada.

Em 1996, aconteceu mais uma virada à direita pela FA em relação às discussões para reformar a Constituição por meio de um referendo. No dia 5 de fevereiro, Liber Seregni, o líder histórico da FA, renunciou à presidência e junto com o novo presidente, Tabaré Vázquez, e o principal figurão da área econômica, Danilo Astori, passaram a fazer campanha a favor das políticas neoliberais contra a oposição das bases. A pressão os obrigou a mudar de posição, mas, na prática, Seregni, Astori e o seu grupo (Assembleia Uruguai) não participaram da campanha. A reforma constitucional acabou sendo aprovada no dia 8 de dezembro, por uma diferença mínima, de 0,5% dos votos. Sob as novas normas, a FA ganhou as eleições no primeiro turno das eleições nacionais de 1999, mas perdeu para o Partido Colorado no segundo turno.

O descalabro econômico de 2002, como efeito contágio da crise da Argentina de 2001 e do Argentinaço, levou ao descalabro dos partidos tradicionais que tinham governado o País nos últimos 170 anos.

O governo da FA e os parlamentares simplesmente ignoraram as decisões aprovadas nos congressos da FA, como, por exemplo, a retirada das tropas uruguaias do Haiti, a anulação da Lei de Caducidade (impunidade para os torturadores) e o favorecimento da economia nacional.

 

A POLÍTICA NEOLIBERAL DA FRENTE AMPLA

 

Em 2011, o presidente uruguaio José Mujica chegou a adiar a aprovação do ICIR (Imposto à Concentração de Imóveis Rurais) para as propriedades rurais maiores que 2.000 hectares, devido às cláusulas do contrato secreto fechado com o consórcio Montes del Plata, que possui o maior latifúndio do país: 254.000 hectares de terra destinadas à plantação de monoculturas de eucaliptos. O consórcio é a união entre a Arauco, uma empresa chilena controlada por capitais especulativos imperialistas, segunda maior produtora mundial de celulose e que possui o maior patrimônio florestal da América Latina, e a Store Enso, de origem sueco-filandesa, maior produtora mundial de papel e papelão. A fábrica de celulose, localizada no departamento de Colônia, conta com uma capacidade de produção de 1.450.000 toneladas, e se soma à outra fábrica de celulose finlandesa que ficou anos no centro da política nacional quando os habitantes da cidade argentina fronteiriça de Gualeguaychú fecharam as pontes que ligam os dois países, durante cinco anos, em protesto contra a contaminação extensiva do Rio Uruguai.

Outro punhado de monopólios completa o quadro de entrega do País ao agronegócio. A Ambev-Inbev controla os plantios de cevada para abastecer o mercado cervejeiro. A Camil controla as arrozeiras. A Marfrig passou a controlar praticamente todos os frigoríficos, curtumes e grandes fazendas de gado. Enormes extensões de terras estão sendo dedicadas ao plantio de soja transgênica.

No departamento de Treinta e Tres, foi liberada a produção de minério de ferro a céu aberto pela Zamin Ferrous, o projeto Aratirí, com enorme depredação ambiental prevista.

O governo de frente popular tem impulsionado a entrega dos recursos nacionais sob a propaganda da criação de empregos e a ameaça do desemprego que tinha levado à emigração em massa nas décadas passadas.

A monocultura de soja e eucaliptos, com o uso crescente de sementes transgênicas,  tem ocasionado a degradação e poluição do solo e dos recursos hídricos, assim como graves danos para a saúde humana. Em regiões onde são usados agrotóxicos em larga escala, tem aparecido doenças antes inexistentes, principalmente vários tipos de câncer, assim como deformidades nas crianças recém nascidas.

O objetivo principal deste modelo econômico, imposto pelo imperialismo, é a geração de recursos para o sistema financeiro mundial, dominado por um punhado de especuladores imperialistas, através do pagamento da dívida pública e o fornecimento de commodities para os mercados futuros.