PREVISÕES PARA 2016 – Parte 13

O NORTE DA ÁFRICA: O NOVO ORIENTE MÉDIO

 

 

p2 Libia

Em 2016, o Norte da África continuará numa forte desestabilização, principalmente a partir da Líbia.

A desestabilização deverá avançar sobre a Argélia, que, desde a década de 1960, tem sido um dos principais bastiões da estabilidade da região. Os baixos preços do petróleo levarão a cortes adicionais no orçamento público e ao aumento dos impostos, mas o governo evitará impacto de vulto nos subsídios para evitar a desestabilização social. Será aplicada uma nova reforma constitucional para facilitar a saída de cena do atual presidente. Os gastos em defesa e segurança não serão reduzidos e o governo buscará a aproximação entre os grupos que disputam o poder na vizinha Líbia com o objetivo de reduzir o impacto sobre a própria Argélia.

O desenvolvimento da crise na Líbia, também atingirá o Egito, a Tunísia, o Sahel (a região localizada ao sul do Deserto de Saara) e, em menor escala, o Marrocos.

A LÍBIA: A NOVA SOMÁLIA DO NORTE DA ÁFRICA

O novo governo de “unidade nacional” líbio, encabeçado pelo primeiro ministro escolhido pelas Nações Unidas, Mohamed Fayez al-Serraj, patrocinado pelos Estados Unidos, entre as facções rivais que têm como sedes principais as cidades de Trípoli e Tobruk, não conseguirá ser implantado, apesar do apoio da União Europeia, dos Estados Unidos e dos países vizinhos. As milícias não conseguirão ser desarmadas. A gestão centralizada dos recursos petrolíferos não conseguirá ser resolvida.

A receita proveniente do petróleo, no melhor dos casos, continuará nos mesmos níveis de 2015, pois um eventual aumento da produção apenas conseguirá compensar a queda dos preços e a contração do mercado. Os monopólios continuarão tendo Trípoli como o “sócio” preferencial, o que levará ao governo paralelo de Tobruk, que era o internacionalmente reconhecido, a buscar acordos com Trípoli, ao mesmo tempo que aumentarão as contradições.

A ação do Estado Islâmico aumentará na Líbia por causa do aumento da pressão na Síria e no Iraque, principalmente nas cidade de Sirte, Misrata e Nawfaliya. O governo líbio não conseguirá botar em pé um exército unificado capaz de enfrentar os guerrilheiros islâmicos, mas as milícias locais que serão afetadas pelo Estado Islâmico tendem a agrupar-se e a resistir. As contradições entre as milícias e os poderes locais impedirão a estabilidade política do país.

A potências imperialistas farão uma nova intervenção, mas que se limitará a ataques aéreos.

Os serviços de inteligência ocidentais calculam o número de militantes do Estado Islâmico na Líbia em aproximadamente 5.000. Esse número deverá crescer significativamente em 2016, com a entrada de militantes provenientes da Síria e do Iraque. A disputa estará centrada no controle dos portos por onde é escoada a produção de petróleo.

Da mesma maneira que acontece na Síria, o deslinde com os grupos ligados à al-Qaeda não será claro, principalmente com Ansar al-Sharia e o Conselho Mujahideen Shura, que atuam em Darnah, e o Conselho de Revolucionários da Shura, que atua em Bengazi.

O Estado Islâmico buscará direcionar as intervenções estrangeiras com o objetivo de danificar a infraestrutura petrolífera e do gás, o que, em certa medida, será conseguido.

A transferência da sede da Empresa Nacional de Petróleo de Trípoli para o Golfo de Sidra acontecerá, de maneira parcial, principalmente porque o controle da segurança militar dos terminais de exportação continuará sobre o controle de Trípoli.

A centralização de outras instituições fundamentais para o funcionamento centralizado do país, como do banco central, não será conseguida.

A desestabilização da Líbia gerará um alto poder de contágio sobre os países da região, principalmente a Argélia, a Tunísia e o Egito, e a Europa por causa do aumento do número de refugiados. O avanço do Estado Islâmico sobre a região oriental do país poderá impactar o fornecimento de petróleo da Itália e da Espanha.

Os ataques aéreos promovidos pelo imperialismo e as ações limitadas a serviços de inteligência não conseguirão deter o avanço do Estado Islâmico. A guerra civil irá escalar, apesar de que as contradições entre as potências regionais e imperialistas não aparecerão com a intensidade que aparecem no Oriente Médio.

O movimento de tropas será facilitado pelo terreno plano, mas os guerrilheiros islâmicos tenderão a se agrupar nas grandes cidades. Grandes ofensivas poderão provocar o deslocamento de militantes islâmicos aos países vizinhos.

AS GIGANTESCAS CONTRADIÇÕES INTERNAS NA LÍBIA

O imperialismo buscará agrupar as principais milícias e líderes tribais em torno ao novo governo que deverá receber ajuda financeira e militar. O governo do primeiro ministro Fayez Sarraj contará com um conselho presidencial composto por elementos indicados por esses líderes. O governo dependerá do apoio das milícias, mas essas milícias não conseguirão superar as contradições que datam de longa data. A disputa pelo controle dos recursos do petróleo se acirrará, pois é a partir deles que as milícias conseguem ser mantidas.

A centralização militar da Líbia não acontecerá. A tentativa de colocar o General Khalifa Hifter à frente do novo exército fracassará. Khalifa Hifter tem força no leste do país, onde tem se desempenhado como o comandante militar do governo de Tobruk, mas é repudiado no oeste.

Hifter encabeçou operações militares “anti-islâmicas” contra várias milícias importantes ligadas a Trípoli, como Aurora Líbia e Escudo da Líbia.

Os chamados “federalistas”, que buscam a formação de dois estados federados na Líbia se fortalecerão, mas esse projeto político não será colocado em prática devido ao fortalecimento do Estado Islâmico.

O controle da Guarda dos Terminais Petrolíferos, que tem como função proteger os terminais de exportação de petróleo, como As Sidra, Ras Lanuf, Marsa el Brega e Zueitina, continuará sendo establecida pelos federalistas e não superará as contradições com o governo de

, com quem teve vários e recentes conflitos militares. Essa Guarda continuará sendo uma espécie de estado dentro do estado e contará com o apoio do imperialismo europeu e norte-americano.

A entrega de novos recursos às milícias, pelo imperialismo, será limitado pelo perigo de que sejam usados para manter as guerras sectárias e fraticidas.

A cidade de Sirte continuará sendo controlada pelo Estado Islâmico, embora que terá dificuldades para estender o controle para as cidades menores vizinhas. As forças do leste, comandadas pelo General Hifter não contam com o raio de alcance necessário a partir de Tobruk ou Bengazi. Para isso, precisará contar com o apoio das tropas controladas por Trípoli, o que acontecerá, mas com limitações por causa da disputa do controle dos recursos do petróleo. O homem forte de Trípoli, Jadhran, desde o mês de agosto de 2013 apertou o controle das exportações, estabeleceu o próprio conselho em maio de 2014 e passou a exportar petróleo sobre o controle do novo governo de Trípoli.

Os ressentimentos e as contradições entre os grupos liderados pelos generais Hifter e Jadhran são enormes. Em setembro do ano passado, Jadhran encabeçou uma delegação que ia a Tobruk, na tentativa de chegar a, ou impor, alguns acordos em vistas às negociações impostas pelo imperialismo. A delegação foi atacada num dos pontos de controle militar, o general Jadhran conseguiu escapar apesar do general Hifter ter enviado tropas de elite para captura-lo. Em outubro, o governo de Tobruk passou a investigar a Guarda dos Terminais Petrolíferos.

Em janeiro, após a ofensiva do Estado Islâmico, as milícias ligadas a Trípoli lançaram uma contraofensiva e acusaram o governo de Tubruk de, inclusive numa aparição de Jadhran na televisão, de não ter apoiado a contraofensiva.

Já na etapa final das negociações, o general Hifter avançou sobre a cidade de Ajdabiya, que tem uma grande importância em relação ao controle do petróleo. A família de Jadhran é uma das mais poderosas da cidade, que acabou sendo semi demolida pela aviação chefiada por Hifter. Um irmão do general Jadhran é um dos dirigentes do Conselho do Revolucionário da Shura de Ajdabiya, que manteria ligações com o Estado Islâmico.

Ambos grupos, os ligados a Hifter e a Jadhran, deverão manter alguma cooperação para se favorecer de algum apoio do imperialismo e evitar sanções e ataques. Mas a aproximação entre esses grupos dificilmente avançará. O grupo concentrado em Tobruk terá dificuldades para controlar os terminais de petróleo. As exportações continuarão sobre o controle da família Jadhran/ Trípoli enquanto mantiverem o controle das milícias.
VEJA TAMBÉM:
PARTE 1 – 2015: O ANO DA ACELERAÇÃO DA CRISE CAPITALISTA MUNDIAL
http://alejandroacosta.net/2015/12/31/previsoes-para-2016-parte-1/
PARTE 2 – O ORIENTE MÉDIO
http://alejandroacosta.net/2015/12/31/previsoes-para-2016-parte-2/
PARTE 3 – A EUROPA
http://alejandroacosta.net/2016/01/01/previsoes-para-2016-parte-3/
PARTE 4 – A PERIFERIA DA RÚSSIA
http://alejandroacosta.net/2016/01/01/previsoes-para-2016-parte-4/
PARTE 5 – A RÚSSIA
http://alejandroacosta.net/2016/01/02/previsoes-para-2016-parte-5/
PARTE 6 – A CHINA
http://alejandroacosta.net/2016/01/04/previsoes-para-2016-parte-6/
PARTE 7 – A CHINA E A REGIÃO PACÍFICO DA ÁSIA
http://alejandroacosta.net/2016/01/04/previsoes-para-2016-parte-7/
PARTE 8 – O JAPÃO
http://alejandroacosta.net/2016/01/11/previsoes-para-2016-parte-8/
PARTE 9 – OS ESTADOS UNIDOS
http://alejandroacosta.net/2016/01/13/previsoes-para-2016-parte-9/
PREVISÕES PARA 2016 – Parte 10 – A AMÉRICA LATINA (1)
http://alejandroacosta.net/2016/01/18/previsoes-para-2016-parte-10-a-america-latina-1/
PREVISÕES PARA 2016 – Parte 10 – A AMÉRICA LATINA (2)
http://alejandroacosta.net/2016/01/18/previsoes-para-2016-parte-10-a-america-latina-2/
PREVISÕES PARA 2016 – Parte 10 – A AMÉRICA LATINA (3)
http://alejandroacosta.net/2016/01/18/previsoes-para-2016-parte-10-a-america-latina-3/
PREVISÕES PARA 2016 – Parte 10 – A AMÉRICA LATINA (4)
http://alejandroacosta.net/2016/01/18/previsoes-para-2016-parte-10-a-america-latina-4/
PREVISÕES PARA 2016 – Parte 10 – A AMÉRICA LATINA (5)
http://alejandroacosta.net/2016/01/18/previsoes-para-2016-parte-10-a-america-latina-5/
PREVISÕES PARA 2016 – Parte 10 – A AMÉRICA LATINA (6)
http://alejandroacosta.net/2016/01/18/previsoes-para-2016-parte-10-a-america-latina-6/
PREVISÕES PARA 2016 – Parte 11 – O INEVITÁVEL APROFUNDAMENTO DA CRISE CAPITALISTA MUNDIAL
http://alejandroacosta.net/2016/01/20/previsoes-para-2016-parte-11/
PREVISÕES PARA 2016 – Parte 12 – O INEVITÁVEL APROFUNDAMENTO DA CRISE CAPITALISTA NO BRASIL
http://alejandroacosta.net/2016/01/20/previsoes-para-2016-parte-12/
PREVISÕES PARA 2016 – Parte 13 – O NORTE DA ÁFRICA: O NOVO ORIENTE MÉDIO

 

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ANGOLA: A CHINA SALVARÁ O MUNDO DA CRISE?

O Novo Caminho da Seda chinês, além de facilitar a rota de comercio de Pequim a Berlim, tem impulsionado fortes investimentos em países fornecedores de matérias primas. Essas operações não têm acontecido somente em países relacionados diretamente com a Rota da Seda, como o Paquistão, onde serão investidos US$ 90 bilhões. Na América Latina e, especificamente, no Brasil, os investimentos têm sido bilionários.
A mesma política tem se estendido a vários países africanos. Recentemente, o presidente da Angola, José Eduardo dos Santos, esteve na China, pela primeira vez em sete anos, em busca de novos créditos e investimentos. A economia do país entrou em grave crise após os Estados Unidos terem reduzidos as importações de petróleo por causa da exploração do xisto. O mesmo aconteceu com a Nigéria, a Venezuela e a própria Arábia Saudita.
A monarquia saudita empreendeu uma verdadeira operação de guerra comercial, que levou à queda dos preços do barril de US$ 110 para US$ 50, com o objetivo de inviabilizar a produção a partir do xisto e, ao mesmo tempo, enfraquecer o Irã e a Rússia. Ao mesmo tempo, diversificou o destino das exportações e transformou a China no maior destino. Essas transações comerciais têm sido realizadas em moedas locais, o Reminbi (iuan) e em Ryadh, o que mostra o grau da crise, já que a Arábia Saudita é a ponta produtiva dos chamados “petrodólares” em cima dos quais o imperialismo norte-americano impõe a ditadura do dólar em escala mundial.

A PROCURA DESESPERADA PELA “TABUA DE SALVAÇÃO” CHINESA

O primeiro ministro chinês com o presidente da Angola

O primeiro ministro chinês com o presidente da Angola

A Angola adotou um forte ajuste fiscal quando o preço do petróleo despencou, de US$ 110 para US$ 50 o preço do barril. Os investimentos em infraestrutura foram reduzidos e a expansão dos serviços públicos foi congelada. Ao mesmo tempo, a cooperação com a Rússia, em assuntos relacionados com segurança interna, também aumentou.
Agora o governo negocia um linha de crédito por US$ 2 bilhões com o Banco de Desenvolvimento Chinês. Em contrapartida, Angola aumentará as concessões de petróleo e gás às empresas chinesas, mas mantendo o equilíbrio com as empresas imperialistas. Os custos envolvidos em águas profundas têm levado a priorizar as concessões on-shore, no lugar das concessões em águas profundas, onde se encontram localizadas o grosso das reservas. O objetivo de passar de uma produção diária de 1,8 milhões de barris para 2 milhões parece cada vez mais distante.
A Angola se encontra na órbita de influência do Brasil, da África do Sul, da China e dos Estados Unidos. Devido à perda do poder do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento) brasileiro e da crise nos outros países, a Angola tem aumentando a procura por créditos chineses.
A Angola é o segundo maior fornecedor de petróleo da China, somente atrás da Arábia Saudita. A empreiteiras chinesas têm crescido muito além da Odebrecht e outras empreiteiras brasileiras na Angola. Nos últimos anos, eles passaram a assumir grandes projetos de infraestrutura, envolvendo aeroportos, portos, estradas e ferrovias, assim como a construção de casas populares.

 

Produção de petróleo na Angola

Produção de petróleo na Angola

 

Empresa da construção civil na Angola

Empresa da construção civil na Angola