PREVISÕES PARA 2016 – Parte 2

O ORIENTE MÉDIO

SAUDI-DIPLOMACY-GCC-SUMMIT

Saudi King Salman bin Abdulaziz (C) walks surrounded by security officers to receive Bahraini King Hamad bin Isa al-Khalifa (unseen) upon the latter’s arrival in Riyadh to attend the Gulf Cooperation Council (GCC) summit on May 5, 2015. AFP PHOTO / FAYEZ NURELDINE

O Estado Islâmico deverá ser contido e expulso das cidades principais que controla, tanto no Iraque como na Síria. Mas o pitch bull foi solto e será muito difícil de ser derrotado. Esse grupo, assim como os demais grupos salafistas ou tafkiris, continuarão muito ativos em todo o Oriente Médio e nos países vizinhos, com eventuais incursões e atentados nos países desenvolvidos, como a Europa e os Estados Unidos, e nas potências regionais, principalmente a Rússia, a China, a Turquia e o Paquistão. Em grande medida, a atividade desses grupos continuará sendo utilizada para justificar a “guerra contra o terror”, que implica no aumento dos gastos militares, nas intervenções militares no exterior e no aperto do regime político.

Os estados nacionais implodidos continuarão implodidos. Isso acontecerá com a Somália, a Líbia, a Síria, o Iêmen, o Iraque e os países do Sahel (localizados ao sul do Deserto do Saara), em primeiro lugar o Mali e o Niger.

Na Síria, haverá um certo acordo entre o governo central e os chamados “rebeldes moderados”, que, na realidade, representam interesses de potências estrangeiras em algum grau. Mas a Síria será transformada numa espécie de Líbia. Será muito difícil desarmar as milícias e eliminar o Estado Islâmico, a al-Qaeda (Jabbat al-Nusra) e seus amigos. As potências regionais continuaram subsidiando-os com o objetivo de usa-los para os próprios interesses. A situação ficará ainda mais explosiva, pois o controle desses grupos é bastante relativo, pois eles têm interesses próprios.

 

A RÚSSIA E A TURQUIA

 

A Rússia e a Turquia desescalarão as tensões, mas a situação continuará altamente explosiva dependendo da ameaça dos curdos avançarem na direção de um estado nacional. Os curdos iraquianos continuarão como aliados próximos do imperialismo e da reação, tentando ampliar a influência sobre os curdos sírios. Mas a pressão do governo turco contra os curdos turcos manterá forte uma ala esquerda dos curdos sírios, ligada ao PKK (Partido dos Trabalhadores) turco, que deverá aumentar as contradições com a ala direita conforme os confrontos com o Estado Islâmico e os demais grupos muçulmanos for reduzida e as políticas da ala direita começar a ser colocada em prática.

O governo da Turquia, encabeçado pelo primeiro ministro Erdogan, deverá avançar no controle militar da fronteira norte, ao oeste do Rio Eufrates, contra o Estado Islâmico. Mas, a partir dessa operação, aparecerá o principal objetivo, conter a expansão dos curdos no norte da Síria por meio de uma manobra, a criação de uma “zona segura” para os refugiados sírios. Por meio da pressão sobre a Europa em relação aos refugiados, Erdogan tentará manter o apoio para essas operações militares e deverá se aproximar da Arábia Saudita por causa da política russa de apoio ao governo alawita sírio e de atacar não somente o Estado Islâmico, mas também os demais “grupos rebeldes”. Mas a Turquia, assim como a Rússia, não pode avançar para um confronto aberto. A crise econômica dificulta a possibilidade de confrontos militares abertos.

 

O IRÃ

 

Ao mesmo tempo, a tendência é ao aumento das contradições com o Irã e seus aliados, a Síria e o Iraque. Um dos componentes que ficará colocado no centro das disputas será o Curdistão Iraquiano.

O retorno do Irã ao mercado mundial de petróleo aumentará o estresse sobre os preços porque aumentará o volume da oferta. Por esse motivo, dificilmente, a Arábia Saudita se posicionará a favor da redução da produção na perspectiva de impulsionar o aumento dos preços. Os crescentes déficits fiscais continuarão provocando a aplicação de programas de austeridade na Arábia Saudita.

Nas eleições que acontecerão em fevereiro, para o parlamento e a Assembleia dos Expertos, o grupo ligado ao Presidente Hassan Rouhani deverá ser o grande vencedor por causa dos acordos em relação à questão nuclear. Mas o poder do Conselho dos Guardiões e do Corpo da Guarda Revolucionária continuará como o poder omnipresente no Irã, tanto no aspecto político como econômico, pelo menos até os investimentos estrangeiros não chegarem em grande volume.

O Irã experimentará uma melhoria da situação econômica devido ao levantamento das sanções, ao aumento dos investimentos e do comercio com o exterior. O movimento guerrilheiro do curdistão iraniano, que foi derrotado na década de 1980, ainda não conseguirá se levantar novamente. O mesmo acontecerá com o contágio proveniente dos guerrilheiros balochis, que atuam no sul do Paquistão, sobre as minorias que habitam o Irã.

 

ARÁBIA SAUDITA

 

A Arábia Saudita, que representa o coração do Oriente Médio, continuará enfrentando o aumento do déficit fiscal por causa da queda dos preços do petróleo. Uma possível redução da produção para impulsionar o aumento dos preços não poderá ser feita até o último trimestre de 2016 por causa da entrada do Irã no mercado, entre outras questões.

Os Estados Unidos enfrentaram dificuldades para manter a produção do petróleo a partir do xisto e poderão aumentar, um pouco, as importações a partir da Arábia Saudita.

O aprofundamento da crise capitalista continuará impactando o aumento da carestia da vida, principalmente no custo da moradia e dos alimentos.

A desestabilização do Oriente Médio continuará apertando os sauditas. A crise no Iêmen continuará desestabilizando o sul do país de maioria xiita.

Uma retomada dos protestos na Província Oriental possivelmente não acontecerá em 2016, mas sim em 2017.

 

ISRAEL

 

O aprofundamento da crise econômica, provocará o aumento das políticas pragmáticas por parte dos sionistas israelenses. Da mesma maneira que o governo Netanyahu manobra para manter os US$ 3,5 bilhões de ajuda militar dos Estados Unidos e a aliança estreita, os laços têm se estendido à Rússia, tanto em relação a acordos comerciais como militares, principalmente na tentativa de manter a milícia libanesa Hizbollah distante das armas russas. Além de apoiar vários grupos “rebeldes”, como a própria al-Nusra, a al-Qaeda na Síria, na região de Quneitra, os sionistas tentam apertar o cerco para se apropriar do gás dos palestinos, do Chipre e até do Líbano; neste caso, com mais dificuldades por causa das ameaças do Hizbollah. Israel continuará apoiando os Curdos Iraquianos, que lhe fornecem o grosso do petróleo que consomem.

A questão palestina manterá o ritmo atual sem confrontos em larga escala. Pelo menos é essa a política tanto dos sionistas quanto do Hamas. A novidade poderá ser o estouro de uma nova Intifada por causa do sufocamento da população palestina.

 

EGITO

 

O governo golpista do Egito continuará sendo uma marionete dos saudistas. O investimento aprovado recentemente para a construção de uma central nuclear, pela Rússia, por US$ 26 bilhões, avançará como parte dos acordos mais gerais entre a Arábia Saudita e a Rússia. A pressão sobre a economia egípcia será reduzida por causa da queda dos preços do petróleo, mas a paralisia da economia levará à redução dos subsídios sobre os serviços públicos. A desestabilização política provocada pelo Estado Islâmico, a partir da Península do Sinai, continuará contida, como eventuais atentados nas demais regiões do país, mas não será eliminada.

 

LÍBANO

 

No Líbano, os grupos salafistas/ tafkiris continuarão atuando de maneira limitada, contidos pelas várias milícias armadas que representam os interesses dos vários grupos sectários do país. O Hizbollah continuará representando um dos principais mecanismos de contenção, nas mãos dos xiitas, aliados do Irã, contra as agressões dos sionistas israelenses e do imperialismo. As contradições entre os grupos continuarão aumentando e colocando em xeque os acordos de 2008 sobre a divisão do poder político. Novas manifestações de massas, como os protestos sobre a questão do lixo, que aconteceram em 2015, poderão implodir os principais blocos políticos do país, o “Movimento 14 de Março”, que representa a ala direita, e o “Movimento 8 de Março”, do qual participa o Hizbollah. As dificuldades para eleger um novo presidente da República continuaram em aberto, pois dependem, em última instância, de um acordo mais geral entre o Irã e a Arábia Saudita. E este é um dos fatores da crise para manter o frágil equilíbrio político no país.

 

IRAQUE

 

No Iraque, as milícias xiitas deverão controlar o país com o apoio do regime dos aiatolás iranianos. Mas as contradições sectárias, entre a maioria xiita que está no governo, e que já apresenta contradições internas, e os sunitas, entre os quais há líderes tribais que suportam o Estado Islâmico, não serão eliminadas. Sobre esta base, novos reagrupamentos e confrontos deverão acontecer, no próximo período, conforme a crise capitalista continuar avançando.

 

IÊMEN

 

A coalisão encabeçada pelos sauditas não conseguirá estabilizar o Iêmen. Os Houthis seguiram organizados em milícias e controlarão as regiões do interior do noroeste do país, mesmo se os sauditas conseguirem conquistar a capital, Sanã, o que somente será conseguido com sangrentos enfrentamentos nas regiões montanhosas e a um custo muito alto. A ação dos Houthis e o fortalecimento da al-Aqaeda nas regiões do leste do país impulsionarão o fortalecimento dos movimentos guerrilheiros no sul da Arábia Saudita.

 

VEJA TAMBÉM:

PARTE 1 – 2015: O ANO DA ACELERAÇÃO DA CRISE CAPITALISTA MUNDIAL

http://alejandroacosta.net/2015/12/31/previsoes-para-2016-parte-1/

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PREVISÕES PARA 2016 – Parte 1

2015: O ANO DA ACELERAÇÃO DA CRISE CAPITALISTA MUNDIAL

Crise capitalista

Crise capitalista

O ano de 2015 fechou com o mundo cada vez mais “sufocado” pelo aprofundamento da crise capitalista. A crise econômica avança a passos largos. A tentativa da imprensa capitalista de oculta-la enfrenta crescentes dificuldades. A crise econômica está na base da crise política que avança em direção aos países centrais.

Na Europa, a crise atingiu em cheio os países chamados PIIGS (acrônimo da palavra em inglês ‘pig’, ou porco), Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha, e avançou sobre a França e a Inglaterra. Nos últimos meses de 2015, a Alemanha, que representa o coração da Europa entrou em recessão e a Grande Coalisão, liderada pela chanceler Angela Merkel entrou em crise atingida em cheio pela crise dos refugiados.

No Oriente Médio, a tentativa de estabilizar a Síria, impulsionada pela Administração Obama, avança sobre os bombardeios da aviação russa e a participação nos campos de batalha dos milicianos xiitas, curdos e do Hizbollah. Mas a situação é muito complexa, pois no Oriente Médio se concentram as contradições entre as principais potências regionais e imperialistas por causa do petróleo e do gás. Essas potências, além dos discursos demagógicos, apoiam uma miríade de grupos “rebeldes” com o objetivo de utiliza-los para os próprios interesses.

A crise aberta pela derrubada do caça russo, pela Turquia, rebelou a fragilidade das coalisões. A Turquia não pode aceitar o fortalecimento dos curdos, apesar dos interesses dos acordos econômicos com a Rússia, por causa de que a própria “saída” para a crise passa por colocar em pé o nó (hub) de fornecimento de gás para a Europa, que vem dos países vizinhos, e que atravessa a Província Oriental, habitada majoritariamente por curdos. A Rússia também não teria fôlego econômico para encarar uma guerra aberta com o poderoso vizinho do sul, que faz parte da OTAN (Organização do Atlântico Norte) e que controla a passagem do Mar Negro ao Mar Mediterrâneo. Mas o desenvolvimento da situação política, em grande medida, acontece de maneira independente da vontade dos governos e das pessoas. Conforme as “linhas vermelhas” são ultrapassadas, a situação pode evoluir rapidamente para confrontos em várias escalas.

A crise no Oriente Médio tem aumentado na direção do coração da região, a Arábia Saudita. Os protestos de massas começaram pela Tunísia, o Egito e o Iêmen, mas foram rapidamente infiltrados pelos serviços de inteligência das potências regionais e imperialistas. O acirramento das contradições, na tentativa de manter os lucros, levaram ao desmantelamento de vários estados nacionais. A Líbia se somou à Somália. E, a seguir, vieram a Síria e o Iraque. Estes já representam estados de importância central no Oriente Médio, onde as contradições entre a Arábia Saudita e aliados, e o Irã e aliados adquirem o ponto máximo de exacerbação. A crise aberta no Iêmen levou a crise ao sul da própria Arábia Saudita, o coração do Oriente Médio e dos petrodólares norte-americanos por meio dos quais o imperialismo consegue inundar o mundo com essa moeda podre chamada dólar.

A Rússia tem cumprido um papel central na Síria em cima da aliança com a Administração Obama, materializada a partir da visita do chefe da diplomacia à Rússia no mês de junho. Obama encabeça a ala da direita tradicional norte-americana que tenta se manter como alternativa à extrema direita que desponta na corrida eleitoral para as eleições presidenciais que acontecerão no final de 2016. A direita também avança na Europa, com destaque para a França onde a Frente Nacional obteve 6,6 milhões de votos nas últimas eleições regionais e ameaça passar ao segundo turno nas eleições nacionais de 2016. Na Inglaterra, a extrema direita, agrupada no UKIP, continua se fortalecendo com dissidências do Partido Conservador. Na Alemanha, pela primeira vez desde a década de 1970, uma extrema direita reciclada, o AfD, avança firmemente no cenário parlamentar, enquanto a Grande Coalisão, encabeçada pela poderosa chanceler Angela Merkel enfrenta o crescente desgaste conforme a crise capitalista se aprofunda e a crise dos refugiados evidencia as rachaduras do regime político. O bipartidarismo avança, a partir dos PIIGS para os países centrais, dificultando o controle do regime pelos grandes capitalistas.

Todos os países produtores de petróleo têm sido atingidos em cheio pela queda dos preços para o menor nível dos últimos dez anos. E, além de países secundários como a Angola, a Nigéria e a Venezuela, entraram no olho do furacão a Rússia e a Arábia Saudita. Da mesma maneira, todos os países exportadores de matérias primas também têm visto abrir-se uma enorme crise, a começar pela América Latina. Os pilares da estabilidade da região estão caminhando aceleradamente para o colapso. Isso se aplica tanto às tradicionais potências regionais governadas pela direita, como à Colômbia e ao México, e aos países governados por alguma das variantes do nacionalismo burguês, como o Brasil e a Argentina. Os recursos para sustentar o colchão social de amortização dos conflitos sociais encolheram. Na Venezuela, o percentual dos recursos públicos destinado aos programas sociais supera os 40% do orçamento público, isso sem contabilizar os subsídios aos serviços públicos, como os combustíveis mais baratos do mundo. Mas também nos demais países, mesmo que em escala menor, os programas sociais e os recursos destinados a comprar a burocracia sindical e a esquerda tem mermado cada vez mais.

Mas a crise não é um fenômeno exclusivo dos países mais atrasados. A partir das rachaduras que apareceram, em 2012, nos mecanismos de contenção da crise aberta em 2008, os países desenvolvidos viram a crise escalar. Na Alemanha e no Japão, as duas grandes potências industriais, a indústria entrou em recessão.

Nos Estados Unidos, apesar de todo o aparato de propaganda, o estado está falido, da mesma maneira que acontece nos demais países. O endividamento é gigantesco. Somente nos dois governos da Administração Obama aumentou três vezes o montante que tinha acumulado nos 240 anos anteriores. A economia real está paralisada. O setor mais dinâmico, a produção ultra depredadora de petróleo e gás a partir do xisto, foi colocado em xeque por causa da enorme queda dos preços do petróleo.

A China tenta colocar em pé o chamado Novo Caminho da Seda com o objetivo de conter a crise. O plano implica em facilitar a circulação de mercadorias entre a China e a Europa por meio da abertura de novas rotas e a agilização das atuais, e a inclusão de novos países fornecedores de matérias primas, ultrapassando a armadilha do Estreito de Malaca, por onde circula do grosso do comercio chinês, que é controlado pela Marinha dos Estados Unidos. A Rússia é o pivô do Novo Caminho da Seda entre a União Euroasiática e a Europa.

Europa – CRISE E FIM DO BIPARTIDARISMO

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As recentes eleições na Espanha mostraram o fim do bipartidarismo que tinha sido colocado em pé no final da ditadura franquista. A direita agrupada no PP (Partido Popular) e os socialdemocratas do PSOE não somente não conseguiram a maioria incontestável das eleições anteriores, mas também não conseguiram sustentar uma aliança aberta entre ambos partidos por causa da pressão da base eleitoral.

A aplicação dos chamados planos de austeridade, com ataques recorrentes contra as condições de vida dos trabalhadores tem colocado em xeque a estabilidade política e social. A aparição de novos partidos no primeiro time da política oficial revelou que, conforme a crise avança, a burguesia se divide. Na Espanha, há agora o Podemos, que representa uma socialdemocracia reciclada, e o Ciudadanos, este uma direita reciclada.

A situação da Espanha é muito similar nos demais países dos chamados PIIGS (um acrônimo em inglês para a palavra “pigs”, ou porcos), que referencia a Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha, os países da Zona do Euro onde a crise avançou mais aceleradamente.

Em Portugal, a aliança de direita liderada pelo primeiro ministro Passos Coelho, foi substituída por um governo da esquerda burguesa, liderada pelo PSP (Partido Socialista), da qual também fazem parte a BC (Bloco de Esquerda) e o PCP (Partido Comunista). Trata-se um governo muito fraco, como o demonstrou a recente aprovação da entrega do banco público Baniff ao Santander, onde o PSP foi socorrido pela direita para viabiliza-la.

Na Grécia, os partidos políticos tradicionais da Nova Democracia (direita) e do Pasok (socialdemocratas) foram substituídos pelo Syriza, uma espécie de Psol grego, que para manter-se no poder precisou dar uma forte virada à direita.

Na Itália, a crise do regime político tem sido recorrente desde o colapso da democracia cristã nos anos de 1990. Agora, o governo está encabeçado pela ala direita do PD (Partido Democrático), que é composto principalmente por antigos membros do PCI (o partido eurocomunista italiano), após muitas dificuldades para forma-lo.

 

O QUE REVELA O FIM DO BIPARTIDARISMO?

 

O bipartidarismo faz parte da política clássica da burguesia para controlar o regime político. Tradicionalmente, a direita tem aplicado políticas mais duras contra a população, que têm sido aliviadas por governos intermediários da “ala esquerda” do regime. Essa alternância no governo tem sido a política tradicional em todos os principais países. Agora, esse mecanismo se encontra no fim, inclusive nas potências de primeira ordem.

Na França, desponta a extrema direita agrupada na Frente Nacional. Na Inglaterra, setores do Partido Conservador têm migrado, e continuam migrando, para a extrema direita agrupada no UKIP, enquanto o Partido Trabalhista passou a ser liderado pela ala esquerda encabeçada por Jeremy Corbyn. Na Alemanha, a Grande Coalisão, encabeçada por Angela Merkel, enfrenta forte crise, da mesma maneira que acontece no Japão com o governo de direita de Shinzo Abe, que substituiu os “democratas nipônicos”.

Os grandes capitalistas enfrentam maiores dificuldades para controlar governos formados a partir de vários partidos políticos. Esses governos ficam muito mais vulneráveis para enfrentar o descontentamento social e garantir os lucros dos capitalistas. Os novos partidos não são fortes nem suficientemente testados para garantir a estabilidade do regime político. Por esse motivo, a tendência é a evoluírem para governos de crise.

Conforme as burguesias locais têm perdido dinheiro, também têm aumentado as tendências separatistas em todo o mundo, mas, no último período, tem se transformado num fenômeno cada vez mais presente na Europa. O nacionalismo burguês nos países atrasados continua avançando por causa do enfraquecimento do imperialismo. Na América Latina, a onda nacionalista que chegou ao poder com o colapso dos regimes neoliberais está enfrentando a própria crise devido ao aprofundamento da crise capitalista, impulsionada pelo aumento da pressão do imperialismo norte-americano e a forte queda das matérias primas no mercado mundial. Mas, inevitavelmente, uma nova onda de setores nacionalistas, à esquerda dos atuais, deverá surgir no próximo período, pois a disparada da espoliação pelo imperialismo não somente aumentou, mas deverá continuar aumentado devido à tentativa dos monopólios garantirem os lucros.

 

Rússia-Índia: PRÓ-IMPERIALISMO OU NACIONALISMO?

 

India Russia

QUAL É O SIGNIFICADO DOS RECENTES ACORDOS RÚSSIA-ÍNDIA? QUAL É O CARÁTER DO GOVERNO DO DIREITISTA NARENDRA MODI?

 

Recentemente, o primeiro ministro da Índia, Narendra Modi, esteve em Moscou para participar da 16a. reunião bilateral anual entre ambos países. Essas reuniões começaram a acontecer a partir de 1997, após o colapso da antiga União Soviética. Foram assinados vários acordos estratégicos nas áreas de energia, comercio e militar.

A Rússia aumentará as exportações de petróleo e gás à Índia, que representa o terceiro maior consumidor em escala mundial.

As relações comerciais entre vários gigantes russos do setor da energia e a Índia datam de anos e têm evoluído com maior velocidade que com a China. Esse é o caso da Rosneft que avança para comprar 49% da indiana Essar com o objetivo de entrar no lucrativo negócio do refino de combustíveis. Em políticas similares têm avançado a Lukoil, a Sistema e a Gazprom.

No setor militar, a Rússia continua sendo o principal fornecedor, apesar da ampliação dos últimos anos. O avião militar T-50 e o míssil de curto alcance BrahMos são desenvolvimentos conjuntos. Em andamento, se encontra a aquisição de quase 150 T-50, que será equipado com os BrahMos. Também estão em negociação a compra de dois submarinos diesel-elétricos, 48 helicópteros, com a produção dos Kamov 226T, três fragatas, a expansão de peças para o avião Sukhoi 30MKI e o sistema anti-mísseis S-400 que, neste momento, somente é operado pela China e a própria Rússia. A versão seguinte, os S-500, blindou o espaço aéreo russo contra a ameaça nuclear da OTAN.

 

“IT IS JUST BUSINESS” = “E SÓ NEGÓCIOS”

 

Narendra Modi foi eleito no mês de maio de 2014 pelo direitista Partido Bharatiya Janata. O grande derrotado foi o Partido do Congresso, dos Nehru e dos Gandhi. A primeira visão desse governo é que tentaria aumentar a proximidade com os Estados Unidos e com o Japão, distanciando-o da Rússia, a China e a OCX (Organização de Cooperação de Xangai). Mas a política é prática. A crise capitalista tem avançado com força sobre a Índia que tenta adotar medidas de contenção. A burguesia indiana tem buscado vários mecanismos para salvar os lucros e manter os privilégios.

Os acordos com os russos facilita a política da Índia de aumentar a participação no lucrativo negócio das vendas de armas. Em 2012, tinha disso assinado um acordo para o fornecimento do submarinho classe Akula. Agora, entraram nas discussões os submarinos Kashalot e o Iribis que ainda se encontra em desenvolvimento. O objetivo dos indianos é remodelar esses submarinos e inclui-los não somente no arsenal doméstico, mas também no show room do armamento a ser exportado. O plano de defesa da Índia para 2016 inclui o aumento da produção nacional de 30% para 40%.

Mas as amarrações militares e políticas da Índia com a Rússia não são “tão exclusivas” como as relações entre a Rússia e a Índia. A Índia ainda mantem como política o chamado “não alinhamento” que, na prática é uma dança das cadeiras entre as várias potências regionais e imperialistas. Modi mantém essa política. Enquanto conversava com o presidente russo, Vladimir Putin, o governo indiano fazia um pedido de 100 drones aos Estados Unidos, fortalecia os acordos no setor naval com o Japão e o próprio Modi, numa política difícil de ser prevista, visita o eterno inimigo, o Paquistão, num esforço pela distensão regional.

 

 

 

PARA ONDE VAI O MERCOSUL?

 

MERCOSUL

 

No dia 20 de dezembro, aconteceu a reunião plenária do Mercosul na capital do Paraguai, Assunção. Participaram os presidentes da Argentina, Mauricio Macri, do Uruguai, Tabaré Vázquez, da Bolívia, Evo Morales, do Chile, Michelle Bachelet; o primeiro-ministro da Guiana, Moses Veerasammy Nagamootoo; e a chanceler da Venezuela, Delcy Rodríguez.

A imprensa burguesa colocou no foco das atenções a resposta de Delcy Rodríguez à provocação de Maurício Macri sobre a suposta violação aos direitos humanos por causa dos presos políticos da direita a raiz das manifestações de 2014. Esse fato revelou o aumento das contradições entre a ala nacionalista e a nova direita reciclada que surgiu num potência regional de primeira ordem, tanto em relação às próprias contradições como em relação às limitações dessas contradições.

A verdadeira questão central da reunião do Mercosul se relacionou com as políticas para o próximo período que poderiam conter o rápido aprofundamento da crise capitalista na região. Todos os representantes do Mercosul concordaram na necessidade de avançar as relações com a China e a Rússia. Ao mesmo tempo, todos concordaram sobre a necessidade de ampliar os acordos comerciais com

o maior número de países ou blocos.

A pressão da ala direita do bloco passa pela aproximação com a União Europeia, os Estados Unidos e a Aliança Trans Pacífico. Desta aliança participam o Chile, a Colômbia, o México e o Peru, enquanto a Costa Rica e o Panamá solicitaram a adesão. A Argentina e o Uruguai encabeçam a pressão nesse sentido, mas os demais integrantes do Mercosul passaram a flexibilizar as posições. É a política do salve-se quem puder em ação de maneira cada vez mais clara.

 

NACIONALISMO, ANTI-IMPERIALISMO OU PRÓ-IMPERIALISMO?

 

O nacionalismo burguês latino-americano teve nova ascensão a partir do final da década de 1990 por causa do descalabro das políticas neoliberais. O crescente descontentamento das massas tinha dado lugar ao Caracazo (1989), o Argentinazo (2001) e as guerras da água e do gás na Bolívia (2002 e 2003). As políticas aplicadas por esses governos tiveram como objetivo principal canalizar pelas vias institucionais as tendências revolucionárias que se acumulavam. O grau de radicalização determinou as políticas que iriam ser aplicadas. Na Venezuela, o golpe de estado fracassado de 2002 e a derrota da greve patronal da PDVSA levaram a que uma parte da população se armasse, levando a dominação imperialista a um altíssimo grau de crise.

A queda dos preços das matérias primas nos últimos dois anos, principalmente da energia, colocou em xeque a política assistencialista dos governos nacionalista burgueses latino-americanos. A própria política norte-americana para a Venezuela tinha passado por mudanças com a Administração Obama. Conforme um dos documentos vazados pelo site Wikileaks, em 2009, a expectativa era que a produção de petróleo a partir do xisto nos Estados Unidos provocaria a queda dos preços e, o “enfraquecimento da carteira petrolífera”, estabeleceria a base para a derrubada do chavismo.

A América Latina foi atingida em cheio pelo aprofundamento da crise capitalista mundial. O imperialismo norte-americano impõe o aumento da espoliação dos recursos da região na tentativa de salvar os lucros dos monopólios. Os déficits públicos aumentaram de maneira acelerada. Os ataques contra os trabalhadores têm crescido e desgastado todos os governos. Esta é a base principal das derrotas eleitorais do kirchnerismo na Argentina.

O nacionalismo burguês tem buscado acordos com o imperialismo na tentativa de conter a crise. E o imperialismo tem tentado impulsionar a saída neoliberal. Mas se trata de um “neoliberalismo” de crise que nem sequer conseguiu colocar em pé a frente única que foi típica dos anos de 1990. A burguesia está dividida.

Manter os programas sociais nos níveis atuais é inviável por causa da queda dos recursos para sustenta-los. A aplicação das políticas neoliberais deve ser dosada por causa do período da aceleração do descontentamento social. Da mesma maneira, o Mercosul se encontra entre a espada e a parede. Como bloco tenta aumentar os acordos comerciais internos, mas, por causa da crise, precisa amplia-los para as demais potências. O problema é que os novos acordos abrem flancos e implicarão na entrega de setores estratégicos. Mas para onde correr? As alternativas são cada vez menores?

A tendência é ao aumento das tendências corrosivas no Mercosul a partir dos acordos com a União Europeia, os Estados Unidos e a Aliança Trans Pacífico. Mas essa tendência só poderá avança de maneira contraditória, por meio de crises políticas e pelo surgimento de novos setores nacionalistas a partir do rompimento dos blocos atuais.

 

 

 

MUITO MAIS QUE GUERRA ECONÔMICA

O CHAVISMO, AS PRESSÕES DO IMPERIALISMO E A BUROCRATIZAÇÃO NO CONTEXTO DA BRUTAL QUEDA DOS PREÇOS DO PETRÓLEO

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A propaganda do governo chavista tem colocado no centro da crise a “guerra econômica”, inclusive com a queda dos preços do petróleo como um componente específico contra a Venezuela e a Rússia. Esta última questão envolve vários outros elementos, a começar pelo aprofundamento da crise capitalista mundial, a produção de petróleo e gás nos Estados Unidos a partir do xisto e ao aumento das contradições com a Arábia Saudita.

A guerra econômica sempre foi enfrentada pelos governos chavistas, mas, no último período, ficou muito mais difícil de ser enfrentada por causa da brutal queda da renda petrolífera que representa 96% das divisas e 45% do PIB. É preciso considerar também a burocratização da cúpula e das camadas médias do chavismo que se distanciaram das bases, de maneira crescente e até reconhecida publicamente pelo presidente Nicolás Maduro. É preciso considerar as 50 grandes empresas nacionalizadas, prévias indenizações, e que não saíram do chão devido, principalmente, ao burocratismo. Os privilégios da cúpula do setor público que passou a receber 70% das divisas, enquanto no período anterior representavam apenas 30% do total. Boa parte do contrabando dos combustíveis e alimentos, da Venezuela para a Colômbia, era controlado pela oficialidade das forças armadas, até o governo ter declarado o estado de excesso em vários municípios da fronteira e ter expulso do país colombianos que moravam na Venezuela havia anos.

O descontentamento da população com o governo chavista foi às alturas por causa do desabastecimento, mas também pela burocratização do chavismo. O poder de contenção das Misiones, os programas sociais, que hoje consomem 42% do orçamento público, e dos subsídios que consomem mais de 15%, não têm sido suficientes para conter o crescente descontentamento social. No próximo período, veremos até que ponto o chamado de Nicolás Maduro poderá levar o chavismo a renascer. O problema central será como manter a economia funcionando em cima das políticas atuais.

A situação política atual da Venezuela lembra, em certa medida, a situação existente na década de 1980, na Europa Oriental, nos ditos “países socialistas”, quando as políticas sociais ficaram enforcadas pela pressão da crise capitalista que tinha se aberto em 1974. Da mesma maneira, o endividamento aos monopólios ocidentais era brutal; no caso da Venezuela, seria necessário incluir o endividamento com a China. A ineficiência da economia também era gigantesca.

 

O GOVERNO CHAVISTA NO CÍRCULO VICIOSO DO MERCADO NEGRO

 

O ingresso atual de divisas da Venezuela é de aproximadamente US$ 30 bilhões anuais.

A dívida da indústria do setor alimentício está calculada em US$ 1,5 bilhões, por grandes empresas com Canvidia. Para a indústria como um todo, a Conindustria a calcula em US$ 12 bilhões.

O governo mantem o congelamento dos preços básicos apesar da inflação galopante. O arroz e o leite em pó estão congelados há mais de um ano. As pastas há oito meses. A farinha de milho pré cozida há nove meses. O café há mais de um ano e meio. No caso, do preço do milho para a fabricação da farinha de milho pré cozida, aumentou de 2,2 Bls (Bolívares) há um ano para 15 Bls. O preço da farinha de milho pré cozida somente aumentou no período em 53%, de 12,40 Bls para 19 Bls, o que obviamente, dificultou o abastecimento. Nesse preço, é vendida 70% da produção de farina de milho; os 30% são vendidos a 120 Bls, que, obviamente, não enfrentam desabastecimento. O mesmo acontece com o arroz; a metade, vendida a preços regulados (25 Bls) enfrenta desabastecimento, enquanto a outra metade é achada sem problemas a 200 Bls. O governo obriga que 70% das massas seja vendida no mercado regulado a 15 Bls, o restante a 300 Bls.

A legislação determina que as empresas produzam com um lucro máximo de 30%. Mas os preços regulados trazem perdas ou, pelos menos, deixam de trazer lucros. As políticas públicas têm levado o próprio governo chavista a se converter num fomentador do mercado negro.

A Tetrapak declarou que não conta com resinas plásticas para os pacotes dos sucos, leites, margarinas e outros produtos. Em Venezuela, se consomem um milhão de toneladas mensais de alimentos. Aproximadamente 40% desse montante são alimentos frescos, como verduras, frutas e carnes. O restante são alimentos industrializados.

Os capitalistas pressionam pela liberação dos preços. Para conter a inflação, a empresa líder da indústria nacional, a Polar, recomendou a um deputado da direita a busca de um empréstimo do FMI por US$ 50 bilhões, que obviamente virá com as condições do ajuste.

A golpista Fedecamaras, ligada à direita, busca a derrogação das leis trabalhistas. Alega dados como o absenteísmo que chegaria a 30% do número de trabalhadores. Mas a principal reivindicação é que as dívidas com os fornecedores estrangeiros sejam pagas para aumentar o fluxo das importações e manter as empresas funcionando. Outras das reivindicações são acabar com a regulamentação dos preços, incentivar a produção nacional por meio da importações de insumos ao invés de produtos finais, e apertar ainda mais as condições de trabalho.

Em resumo, os mecanismos implementados pelo chavismo têm se convertido em entraves para as empresas capitalistas continuarem produzindo. O mesmo pode ser dito para as empresas públicas, como a PDVSA (petróleo) e a Cantv (telecomunicações), pois todas elas funcionam no mercado capitalista.

 

A ILUSÃO DE REGULAR O CAPITALISMO

 

O capitalismo não consegue ser regulado devido à ação das leis do próprio capitalismo, principalmente em países que são dependentes do imperialismo.

A burocracia chavista tem entravado o abastecimento, além da guerra econômica, em grande medida devido à perda da renda petrolífera. Os dois principais produtores de alimentos, além de participarem da guerra econômica, enfrentam a recorrente falta de produtos devido à não importação dos mesmos. Isso aconteceu, por exemplo, com a aveia que Alimentos Polar e a Inproceca importam do Chile. A salsa de tomate também é importada, assim como também acontece com o trigo e o atum. A dependência do mercado mundial da alimentícia, dos medicamentos e de quase todos os componentes do consumo dos venezuelanos é monumental. E o mercado mundial é controlado por um punhado de monopólios.

Devido às dificuldades burocráticas e ao controle do mercado mundial pelos monopólios, em muitos casos, os custos são tão altos que devem ser subsidiados. O frango brasileiro é vendido a pouco mais de 100 Bls (bolívares) no Preço Justo (preços subsidiados pelo governo) e quatro a cinco vezes mais no mercado paralelo. A dependência do mercado internacional tem levado o mercado interno ao estrangulamento, fato muito difícil de ser enfrentado com os preços do petróleo decadente.

A grande maioria das matérias primas que as empresas consomem dependem das importações. As peças para consertar a frota não conseguem ser importadas por falta de divisas. As locadoras de veículos estão funcionando com metade da frota, em média, parada por esse motivo.

No caso do setor alimentício, além das próprias matérias primas alimentícias, há o problema das matérias primas destinadas aos insumos, peças, logística, empacotamento etc.

Até dois anos atrás, o governo destinava 70% das divisas ao fornecimento do setor privado e 30% ao fornecimento do setor público. Agora, por causa da crise, a equação se inverteu, o que se transformou numa das causas do desabastecimento.

As empresas acabam ficando paralisadas ou atuando no mercado paralelo, onde o dólar é cotado em torno a 800 Bls, ou 12.000% a mais que no mercado oficial.

Com a queda da renda petrolífera e o direcionamento do gasto público, em boa medida aos programas sociais, a economia capitalista na Venezuela entrou num círculo sem saída O governo não consegue mais importar, de maneira ampla, matérias primas, insumos e peças. A importação de produtos acabados impacta no preço final em pelo menos cinco vezes, devido aos baixos custos da mão de obra local.

 

SOCIALISMO OU BOLIBURGUESIA?

 

Todos os governos chavistas têm sido ótimos pagadores da dívida externa. Os empréstimos chineses superam os US$ 50 bilhões, com as riquezas nacionais como garantia.

Grandes empresas estrangeiras atuam no país, principalmente chinesas e brasileiras, como a Odebrecht. A PDVSA (Petróleos de Venezuela) para compensar a falta de recursos para investimentos tem feito acordo com os monopólios, principalmente japoneses, coreanos e chineses para que eles invistam. O retorno é obtido quando a refinaria ou o campo de petróleo produzir, mas será de várias vezes a média nacional e mundial.

Parte dos capitalistas nacionais têm ganhado muito dinheiro com o chavismo, como as empreiteiras que realizam obras a partir dos programas sociais. Uma parte desse dinheiro tem sido desviado.

Os importadores têm feito a farra com o dólar oficial a 6 Bls e no paralelo a 800 Bls. A cúpula do chavismo, principalmente os militares, têm aumentado dos ingressos por meio do acesso privilegiado às divisas e aos produtos subsidiados. Ilha Margarita, por exemplo, é um dos locais paradisíacos do turismo, apesar de muito sucateado. O número de cruzeiros passou de 360 para 30. O número de voos foi reduzido de dezenas para dois. O número de pousadas caiu pela metade e grande parte da população local migrou. Entre os principais compradores das melhores propriedades estão generais e membros da cúpula do governo.

Dentro do chavismo, há a burocracia do PSUV, a dos governadores, da PDVSA e do próprio aparato do estado. As denuncias de corrupção interna e ultra burocratização são enormes. E não se trata só uma campanha da direita, mas é tema comum entre os militantes de base, principalmente dos movimentos sociais. Esses setores buscam o acordo com a direita, em primeiro lugar com Henrique Capriles

O problema principal, o temor dos capitalistas, inclusive dos ligados ao governo, passa pela brutal crise que tem provocado a queda dos lucros. O dono da Polar, a maior empresa de alimentos, já falou numa conversa que vazou com um figurão da direita, que após a vitória da MUD esperava um pacote de ajuda do FMI por US$ 50 bilhões para desentravar a economia. A situação é muito precária, os lucros dos capitalistas caíram. Uma parte do chavismo é favorável às reformas, que implicam em primeiro lugar no plano de ajuste, no corte aos programas sociais. Ao mesmo tempo, há a radicalização das massas, que no interior do chavismo é muito mais radical que o que os ex ministros de Hugo Chávez, que criaram a Marea Socialista em abril, expressam. Boa parte da população está armada, particularmente, os Coletivos.

POR QUE O CHAVISMO FOI DERRROTADO NOS PRÓPRIOS REDUTOS?

VENEZUELA ELEICOES7

 

A derrota do chavismo no Bairro 23 de Enero, em Caracas, representou um fatores mais impactantes do resultado eleitoral do dia 6 de dezembro. Nesse bairro, se encontra o Mausoléu de Hugo Chávez, no Quartel da Montanha, era o distrito eleitoral onde Hugo Chávez votava. Ali começou a tentativa de levante militar do dia 4 de fevereiro de 1992, encabeçada por Hugo Chávez, é o local originário dos principais Coletivos, como La Piedrita, encabeçado por Lilian Ron, e o Los Tupamaros. Após o golpe de estado fracassado de 2002, os Coletivos se armaram tanto com o objetivo de enfrentar uma eventual nova tentativa golpista como para servir como fiel da balança em relação às instituições militares formais.

O 23 de Enero foi construído pelo ditador General Marcos Pérez Jiménez. O próprio nome comemora a queda do ditador em 1958. São grandes prédios, que imitam o estilo da antiga União Soviética, onde vivem dezenas de milhares de pessoas.

No 23 de Enero, teve origem o Caracazo de 1989, quando um forte movimento de massas colocou abaixo o governo neoliberal de Carlos Andrés Pérez, dos partidos Ação Democrática e da Democracia Cristã, após ter dobrado os preços dos combustíveis e da energia elétrica. O saldo foi de milhares de mortos e feridos e abriu passo para os jovens oficiais encabeçarem a tentativa golpista de 1992.

Os movimentos armados, que tiveram origem no 23 de Enero, sempre foram bastante radicalizados e agora têm realizado declarações públicas contra a ala direita do chavismo que é acusada de ter jogado os ideias de Hugo Chávez no lixo e emplacado o burocratismo e a corrupção para obter benefícios pessoais.

 

VOTO DE CASTIGO, “BACHAQUEIROS” E ENCRUZILHADA

 

A diferença do que aconteceu na Argentina, a direita venezuelana agrupada na MUD (Mesa de Unidad Democrática) não apresentou abertamente o programa do ajuste. Nem os próprios candidatos apareciam em evidência. Toda a campanha da direita foi concentrada no “cambio” (a mudança), mas em abstrato. Sem apresentar qualquer proposta em concreto, além da demagogia de que as longas filas seriam eliminadas.

Os resultados do dias 6 de dezembro representaram o voto castigo contra as longas filas, a corrupção e a paralisia do chavismo, inclusive com fortíssimas evidências de burocratização. O poder de compra dos trabalhadores foi corroído por uma inflação galopante. A desvalorização do bolívar levou o salário mínimo a mínimos históricos. O salário mínimo representa algo em torno aos 12 dólares no mercado paralelo, que dobra ao considerar-se os benefícios sociais. O mercado negro e os “bachaqueros” jogam mais lenha na fogueira.

As enormes mobilizações promovidas pelos chavistas, com o envolvimento direito da alta cúpula, a liberação de muitas obras às vésperas das eleições, a forte campanha na imprensa e a aprovação do orçamento público, com 42% destinado aos programas sociais, revelou a enorme insatisfação com o governo.

O chavismo ficou numa encruzilhada. A política atual é impossível de ser mantida em cima dos atuais preços do petróleo. Mas um acordo com a direita pode implodir o chavismo.

 

PARA ONDE VAI O CHAVISMO?

 

Está colocado para o próximo período o aumento da disputa entre a ala esquerda do chavismo e a ala direita.

Os governadores que se agrupam no Movimento 4F foram citados por Henrique Capriles como os principais candidatos à aproximação com a direita. Alguns membros da cúpula do PSUV têm proximidade com esse movimento, como o atual presidente da Assembleia Legislativa, Diosdado Cabello, o governador do Estado de Aragua, Tareck El Aissami, e o chefe da Guarda Nacional Nestor Reverol. Sobre eles três há mandados de prisão e extradição aos Estados Unidos por suposto envolvimento com o tráfego de drogas.

As medidas propostas pelo PSUV e pelos movimentos sociais envolvem a política da radicalização social contra a própria burocracia do PSUV e do estado, o que vai contra os privilégios que existem hoje. A substituição das importações requer colocar em produção empresas eficientes, o que até o momento não conseguiu ser feito apesar dos altos preços do petróleo. E agora o tempo parece está indo muito mais rápido que a capacidade para conter o aprofundamento da crise capitalista.

Uma possibilidade seria declarar a moratória da dívida pública, mais isso geraria uma onda de sanções, inclusive dos sócios chineses que a inviabilizam. O direcionamento para a expropriação dos grandes capitalistas e o rompimento com o imperialismo não está contemplado na Constituição Bolivariana. Nem é a intenção ir além dela conforme o Presidente Maduro o tem repetido até a exaustão. É possível ascender uma vela para deus e outra para o diabo, como diz o dito popular? É altamente improvável. O que é mais provável é o racha do chavismo, com o surgimento de uma ala direitista, mais próxima à direita, e uma ala esquerda mais próxima com o chavismo original, mas que deverá romper com o chavismo para avançar.

Os movimentos sociais é a ala mais radical do chavismo. Mas ainda deverá entrar em cena a classe operária, principalmente os setores da indústria petrolífera que deverão entrar em movimento, impulsionados pela mobilização dos movimentos sociais, contra os ataques da direita. A reação, de fato, já começou.

Os Coletivos também deverão tomar rumos diferentes. Alguns deles, deverão se juntar à ala esquerda, mas há vários que se encontram altamente burocratizados e alguns, inclusive, controlados pela direita.